Entrevista: Fernando Ribeiro, do Moonspell, o portista ícone do metal mundial

Moonspell divulgação
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A voz do portista Fernando Ribeiro é uma das mais icônicas do Gothic e Dark Metal


Fernando Ribeiro é vocalista e letrista da maior banda portuguesa de heavy metal e um dos maiores ícones mundiais do Gothic/Dark Metal, o Moonspell. Como se isso não fosse suficiente, o músico também se dedica a outras formas de arte, com livros de poesias e contos publicados, além de traduções e, mais recentemente, CEO e A&R da Alma Mater Books & Records (uma editora que se dedica aos dois universos artísticos aos quais o músico está mais ligado: a música e a literatura). Embora nascido em Lisboa e tendo crescido na Brandoa, no município da Amadora (subúrbio da Grande Lisboa), Fernando é um notório torcedor do FC Porto. Quando o clube completou 120 anos de existência, em 2013, o vocalista foi convidado para cantar o hino oficial em cerimônia comemorativa. O Pronúncia do Norte conversou com este ilustre portista, que nos conta sobre como surgiu o amor pelo nosso clube, fala do Moonspell (e do excelente álbum "1755", lançado recentemente) e da turnê que a banda fará no Brasil em abril. Confira abaixo.


- O Fernando Ribeiro nasceu em Lisboa e cresceu na Brandoa, um bairro do município da Amadora, subúrbio da Grande Lisboa. Como se explica a tua torcida pelo FC Porto?


Sim, é verdade e um pouco estranho talvez já que para além de Benfica e Sporting, que nunca gostei, existiam outros clubes nacionais e locais como Os Belenenses,Estrela da Amadora, etc. mas como a minha família paterna é de Trás-os-Montes, o meu Pai sempre torceu pelo Porto e claro foi essa a principal influência.


- Como é ser portista em Lisboa? E, mais especificamente, o quão difícil era ser criança e adolescente portista em Lisboa, em um período como os fins dos anos 1970 e início dos anos 1980?


Agora, mais tranquilo. O crescimento vitorioso do Porto deitou abaixo muitos preconceitos e ódios futebolísticos. Isso para mim é o principal feito do Porto, conquistar adeptos em todas as cidades de Portugal e lá fora através do seu futebol e títulos que tomaram de surpresa a Europa e o Mundo. Lembro-me do os miúdos sportinguistas do meu bairro me fazerem grandes partidas, colocando pedras dentro de bolas de futebol para eu pontapear e tudo isso. As coisas começaram a mudar desde 1987, o primeiro título Europeu em que finalmente fui para a escola com a camisa do Porto e ninguém, me bateu ou chateou.


- O Fernando nasceu em 1974. Cresceste, portanto, num Portugal já democrático. Democracia que trouxe novos ares também ao futebol. Mais liberdade. Que coincidiu com o período em que o FC Porto começou ter mais condições para ser protagonista do e no futebol português. Protagonismo que se expandiu para a Europa. Hoje, naturalmente, há mais portistas em Lisboa do que nos teus tempos de adolescência, não é?


É verdade. Mas é complicado para mim comentar tempos que não vivi. Toda a gente dizia que o Benfica era o clube do Estado Novo, mas eu não acredito nisso. O futebol era das poucas ocasiões em que as pessoas se juntavam, pois era proibido grandes ajuntamentos. Verdade que as coisas mudaram, tinha de ser e o futebol regional do Porto foi crescendo para além da sua cidade. O futebol também era uma arma de afirmação num país que na altura era dominado por Lisboa e tudo o resto era considerado “paisagem”.


FC Porto divulgação
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Fernando Ribeiro canta com Inês Santos o hino do Porto no dia do 120º aniversário do clube


- O sucesso do Moonspell te proporcionou a oportunidade de cantar o hino do FC Porto no aniversário de 120 anos do clube, em 2013. Como surgiu o convite? E como o coração portista reagiu diante de, presumo, tamanha honra?


O convite veio directo da SAD Portista e aceitei sem pestanejar. Era o centésimo vigésimo aniversário do Porto e uma ocasião especialíssima. Não fiquei nervoso mas honrado e diverti-me muito nessa performance pois acho o Porto muito Rock and Roll, a forma como joga, o ímpeto dos jogadores, a torcida, a mentalidade de dragão. Foi um dia espetacular todo vivido para o Porto e na cidade do Porto que é das minha cidades preferidas de Portugal. Cantei não só o hino como versões dos Beatles e Stones, com orquestra, metendo toda a gente no Caixa Dragão a gritar Porto. Foi também um sinal que o Porto não tem medo de apostar em artistas diferentes, e isso faz-me gostar ainda mais do meu clube!


[Escute a versão do hino cantada por Fernando Ribeiro]


- O Moonspell é um dos ícones do gothic metal e do dark metal. E por isso está sempre em turnê. A banda começou a excursionar fora de Portugal ainda nos anos 1990. Época em que a internet ainda não era parte do cotidiano das pessoas. Tentavas acompanhar o FC Porto de longe? Hoje em dia é possível ver os jogos ao vivo online. Quando estás em turnê procuras acompanhar o clube ou nem por isso?


Quando estou em tour sou uma pessoa diferente e tento sobreviver aos longos dias e viagens. Leio e escrevo muito e tento até afastar-me um pouco do que se passa em Portugal. Falo com a minha família todos os dias claro, mas pouco comentamos sobre a actualidade Portuguesa. O Pedro Paixão, no entanto, é benfiquista e acompanha muito todo o futebol. Ele é aliás a pessoa que mais sabe de futebol na banda. Por isso ainda ontem [quarta-feira] e graças a ele vi o Porto ganhar ao Sporting por um zero enquanto me vestia e aquecia para o concerto. Sigo mais o FCP nas redes sociais, tipo twitter que dá informações mais concisas e não tão acesas sobre o time.


Pronúncia do Norte
Pronúncia do Norte

Fernando com camisa do Porto com seu nome artístico do início da carreira, Langsuyar


- Depois de quatro anos sem títulos, e de algumas más escolhas de treinadores, o FC Porto nesta temporada tem estado muito bem, sob o comando do Sérgio Conceição. O que tem achado das exibições e dos resultados do nosso clube nesta época? Está confiante no título?


Quatro anos é muito num calendário de um Portista habituado a ganhar isso é evidente. Mas eu acho normal, apesar de querer sempre que o Porto ganhe. O Porto ganhou e muito e quando assim é os seus titulares são cobiçados e vendidos para toda a Europa. Não nos vamos esquecer que o futebol é acima de tudo um negócio em 2108. Isso é evidente e claro que condiciona as equipas. Os outros adeptos em Portugal, do Benfica e do Sporting, tem esperado muito mais e no futebol, só ganha um, é importante para um torcedor perceber isso. O Porto, nas épocas passadas, jogou sem confiança e isso é fatal para o Porto. Eu estava um pouco na defensiva com a contratação do Sérgio Conceição, que é uma pessoa muito intensa, mas rendi-me completamente ao seu comando pois ele trouxe o mais importante: essa confiança que nos faltou nas épocas sem títulos. Estou confiante em todas as frentes, preferia a Champions ao título nacional.


- Vamos a algumas perguntas rápidas sobre o FC Porto


1. Lembra qual foi o primeiro jogo do nosso clube que viu no Dragão? Qual foi?


Foi contra o Guimarães, pouco depois da inauguração do Estádio. Porto ganhou por um zero, mas foi mauzinho o jogo.


2. E o mais recente? Onde e contra quem?


Já há algum tempo que não vou ao Dragão! Penso que a última vez foi uma derrota por 1-2 frente ao Atlético de Madrid para a Champions.


3. Qual foi o jogo mais memorável para você?


Ao vivo: o primeiro jogo de sempre do Porto que vi, nos anos 80, contra o Wrehxam (do País de Gales, que eliminou o Porto, finalista vencido da Taça da Taças em 1984 [nota: Fernando Ribeiro refere-se a uma inesperada eliminação do Porto na Recopa Europeia de 184/85]).


Na TV: Porto-Peñarol para a Taça Intercontinental em 1987, fiquei acordado aée bem tarde pois o jogo era no Japão, num campo coberto de neve, surreal!


4. E o título mais saboroso?


Sem dúvida a primeira Champions, na altura chamada Taça dos Campeões Europeus contra o Bayern de Munique em 1987, em Viena. Assisti na TV com a minha família e foi brutal! o Bayern era favorito, tinha Matthaus, Brehme, davam porrada, muita, o Futre que o diga, mas foi uma reviravolta mágica e para mim o melhor jogo de futebol de sempre!


5. Quem é o teu maior ídolo na história do clube?


Pinto da Costa. Não escolho um treinador, nem um futebolista apesar de ter muitos ídolos entre eles (Gomes, Pedroto, Futre, Maniche, Jaime Magalhães, Madjer) porque foi aos ombros deste gigante que se apoiaram todos os títulos e a história do FCP. Disso não resta dúvida.


- Uma polêmica tem tomado conta do futebol português nos últimos meses e envolve o maior rival do FC Porto. Como portista, qual a tua opinião sobre o “caso dos emails do Benfica”?


Essa é a parte que eu odeio no futebol ao ponto de ter interrompido a minha pequena carreira como comentador na Sport TV + porque achei que se falava de tudo menos de futebol. Para mim futebol é simples, e detesto desculpas seja do Benfica, Porto, Sporting, Arouca. As SADs servem para tentar ganhar fora do campo mas esse é um processo cínico e prejudicial ao futebol na sua essência, um desporto em que talvez ganhe quem reúne os melhore fatores (talento, sorte, trabalho), e não uma guerra de secretaria.


- E no Brasil, o Fernando tem simpatia por algum clube?


Sim: Portuguesa dos Desportos e Corinthians. Já estive no estádio da Lusa ;)


- Falemos do Moonspell. No fim de 2017, vocês lançaram o excelente “1755”, o primeiro álbum da vossa carreira todo cantado em português. Trata-se, ainda, de um trabalho em que vocês procuram recontar a história da maior tragédia que já aconteceu em Portugal. Fala-nos, por favor, um pouco sobre este álbum.


O disco 1755 saiu assim como que quase uma surpresa para nós todos. Estávamos trabalhando no novo DVD, quando surgiu a oportunidade de fazer um disco e nós levamos isso um pouco mais longe e finalmente lançámos o nosso primeiro disco totalmente cantado em Português. É um disco conceptual ou melhor ainda histórico e aborda a terrível passagem, através do terramoto, do Portugal tardio ainda se comportando como na Idade Média, para um Portugal mais moderno, sofrido mas preocupado com quem o habitava. O sismo de 1755 trouxe não só destruição como progresso, reconstrução e definiu as bases do ateísmo na Europa. Musicalmente é um disco bem incisivo que tenta dramatizar através da música e dos acontecimentos do dia.


Moonspell divulgação
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O Moonspell passa por Rio de Janeiro, São Paulo, Recife e Belo Horizonte em abril


- O Moonspell tem uma legião de fãs no Brasil. A banda já passou algumas vezes no nosso país e chegou a se apresentar no Rock in Rio 2015. O “1755” repercutiu muito bem no Brasil. O fãs esperam ansiosos pelo tão aguardado retorno ao país, que acontece em abril. Qual é a vossa expectativa?


Brasil sempre foi um pouco mais complicado para nós do que esperávamos. O país irmão tem sido bem mais duro de “conquistar” do que vizinhos como a Colômbia, Chile, México, mas passo a passo temos crescido e trabalhado muito para que isso mude. O 1755 foi essencial nesse crescimento, os concertos também e em especial o Rock in Rio 2015 foi fantástico para a banda.


Depois de alguma confusão no ano passado, temos quatro datas marcadas para o Brasil (ver poster) e não ficaremos por aí pois queremos levar este disco e em especial tocar a cover da Lanterna dos Afogados perante um público que a vai entender como ninguém, na verdade nunca estivemos com tanta ansiedade de tocar no Brasil, e espero que as salas encham pois as reacções têm sido óptimas.


- Fernando, gostaria de te agradecer pela entrevista. Fica este espaço para deixares uma última mensagem.

Emanuel, muito obrigado pelo apoio e gentileza. Espero que a galera fique ligada neste disco 1755 e que os concertos sejam um sucesso no Brasil. Agradeço a entrevista e desejo ao meu clube Futebol Clube do Porto os maiores sucessos! Um abraço desde Nurnberg, Alemanha, on the road!