25 de Abril: Revolução dos Cravos trouxe a democracia a Portugal e a hegemonia do Porto

Reprodução Twitter FC Porto
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Pedroto, que sempre combateu o "centralismo lisboeta", com um ramo de cravos vermelhos


“Grândola, vila morena / Terra da fraternidade / O povo é quem mais ordena / Dentro de ti, ó cidade / / Dentro de ti, ó cidade / O povo é quem mais ordena…”. Quando às 00h20 do dia 25 de abril de 1974 a Rádio Renascença transmitiu a primeira estrofe de “Grândola, Vila Morena”, de Zeca Afonso, estava dada a senha do alvorecer de um novo Portugal. Era o sinal para que a Revolução dos Cravos entrasse definitivamente em operação, livrando o país de 48 anos de ditadura, ao por fim aos 41 anos do Estado Novo, ou “Salazarismo”. Portugal celebra hoje 44 anos de democratização. Um marco que mudou o país completamente. Ao qual o futebol não ficou alheio. Com as transformações no país, veio também a deslocação do centro magnético do esporte bretão lusitano. A agulha deixou de apontar para a região de Lisboa/Margem Sul do Tejo, virando-se para o Norte. E o FC Porto, o grande clube do Norte, transformou-se na força hegemônica do Portugal democrático.


A Revolução de 25 de Abril foi liderada pelo Movimento das Forças Armadas. Comandado por um grupo de cerca de duas centenas de capitães, a insurreição apresentava três pontos: democratização, descolonização e desenvolvimento. O movimento depôs o ditador Marcelo Caetano (sucessor de António de Oliveira Salazar) e deu início ao processo de democratização de Portugal que culminou na Constituição de 25 de abril de 1976.


A Revolução dos Cravos (assim conhecida porque a população, ao saber das intenções democráticas dos militares, distribuiu cravos aos soldados, que colocaram as flores em seus fuzis) marcou o início daquilo que o cientista político Samuel Huntington denominou “terceira onda de democratização”, fenômeno que se verificou na Espanha, Grécia, Leste Europeu, América Latina, Ásia e África ao longo do último quarto do Século 20.


Após o 25 de Abril, as indústrias da Margem Sul do Tejo (o rio que banha a cidade de Lisboa) estagnaram e perderam força no cenário econômico nacional. Por outro lado, o país viu surgir com muita pujança as indústrias na região Norte, alavancadas pelo setor têxtil. Até hoje, o Norte é a região portuguesa mais industrial e exportadora.


Esse fenômeno se refletiu também no futebol. No livro “Soccernomics”, Kuper e Szymanski explicam porque as grandes cidades industriais se tornaram cidades do futebol. No futebol europeu como um todo, uma das principais características para um clube ser competitivo é precisamente estar em uma área industrializada.


Isso nos permite compreender porque após a Revolução dos Cravos, os clubes da Grande Lisboa e Margem Sul do Tejo, que dominavam o cenário futebolístico português desde os princípios da Liga Portuguesa (a liga foi fundada em 1934, enquanto o Salazarismo impôs o Estado Novo em 1933), perderam expressão em relação aos clubes das zonas “urbano-industriais do Norte Litoral, particularmente nos distritos do Porto e Braga”, como já observavam, no início dos anos 1980, Gaspar et al. em “Transformações recentes na geografia do futebol em Portugal”.


Basta olharmos para os clubes que disputaram a edição 1973/74 do Campeonato Português e compararmos com os que estão atualmente em competição na temporada 2017/18 para constatarmos como houve, de fato, essa transformação do centro geográfico do futebol português.


Em 1973/74, metade das equipes eram da Grande Lisboa/Margem Sul: Belenenses, Sporting, Oriental e Benfica (Lisboa); Vitória de Setúbal, Montijo, Barreirense e CUF (Sul do Tejo). Havia ainda dois clubes do Algarve (Sul): Olhanense e Farense. E apenas quatro do Norte: Porto, Boavista, Leixões (no Grande Porto) e Guimarães.


Na atual temporada, o Grande Porto/Distrito do Porto tem seis representantes: Porto, Boavista, Rio Ave, Aves, Feirense e Paços de Ferreira. O Distrito de Braga tem três: Sporting Braga, Vitória de Guimarães e Moreirense. E o Chaves ainda surge como o 10º representante do Norte entre 18 clubes. A Grande Lisboa/Margem Sul tem cinco equipes (Sporting, Belenenses, Estoril, Benfica e Vitória de Setúbal). Os outros três participantes são do Centro (Tondela), Algarve (Portimonense) e da Ilha da Madeira (Marítimo).


Porém, não foi apenas no número de representantes que se verificou esse deslocamento do eixo do futebol português. A hegemonia nos títulos também viu a agulha mudar de direção. Não mais Lisboa, a capital de um país centralizador, representada principalmente pelo Benfica, mas a “Antiga, Mui Nobre, Sempre Leal e Invicta Cidade do Porto”, simbolizada pelo FC Porto.


Até 1974, os clubes de Lisboa haviam conquistado 35 dos 40 Campeonatos disputados. O Benfica, com 20 títulos, tinha metade de todos os campeonatos. Depois do 25 de Abril, o FC Porto, que até então havia ganho apenas cinco vezes, celebrou o título de campeão nacional 22 vezes, ou seja, concentrando 51,2% dos troféus. Durante o Estado Novo, apenas um clube fora dos “três grandes” foi campeão português: o Belenenses, de Lisboa, em 1946. Já no período democrático, este feito ficou a cargo de um clube do Porto, o Boavista, em 2001.


FC Porto divulgação
FC Porto divulgação

Porto foi o único clube português que conquistou títulos internacionais desde o 25 de Abril


As mudanças, porém, não ficam por aí. A hegemonia do FC Porto é acachapante quando se olha para os títulos internacionais. Na era do Salazarismo, Portugal havia conquistado apenas três troféus internacionais, todos por intermédio dos clubes de Lisboa: Benfica, com duas Taças dos Campeões Europeus (1961 e 1962), e Sporting (Recopa Europeia, em 1964). Desde a democratização, somente um clube português conseguiu triunfar fora de casa. Foi o FC Porto, que conquistou: dois Mundiais de Clubes (1987 e 2004), duas vezes campeão Europeu (Taça dos Campeões em 1987 e Liga dos Campeões 2004), duas Ligas Europa (2003 e 2011) e uma Supercopa da Europa (1987).


Além de ter sido mais vezes campeão português e o único clube do país a vencer competições internacionais, a diferença no total de títulos oficiais conquistados desde o 25 de Abril evidencia como o Porto é o clube hegemônico em Portugal no período democrático. Até 1974, em 53 temporadas, o Benfica tinha 40 títulos, o Sporting 28 e os portistas apenas 12. Depois da Revolução dos Cravos, em 43 temporadas (a 44ª está em andamento) o Porto levantou 62 troféus, o Benfica 41 e o Sporting 20.


O Porto tem 86,5% dos seus títulos ganhos em tempos democráticos (aqui contando os 62 pós-25 de Abril e os dois Campeonatos de Portugal antes da ditadura militar imposta em 1926). Não é por acaso, portanto, que no Museu do FC Porto existe uma área temática chamada “Azul ao Fundo do Túnel”, espaço em que mostra o futebol português antes e depois do 25 de Abril, num túnel que se inicia tenebroso, dominado pela escuridão da ditadura, e caminha rumo à luz da democracia e da liberdade.


Pronúncia do Norte
Pronúncia do Norte

Quadro de títulos dos três grandes portugueses: Porto hegemônico depois do 25 de Abril