Ao renovar com o Porto, Casillas escreve definitivamente seu nome no rol de ídolos do clube

FC Porto divulgação
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Casillas deixou claro seu objetivo para 2018/19: conquistar o bicampeonato português


Se dependesse das notícias da sempre insuspeita (quando se trata do FC Porto) imprensa portuguesa, Iker Casillas, um dos maiores goleiros de todos os tempos, sequer teria conquistado o título de Campeão Português na temporada 2017/18. Mas, como sabiamente certa vez afirmou o eterno capitão portista João Pinto, “prognóstico só no fim do jogo”. E a verdade é que “ao fim do jogo” soubemos que Casillas seguirá mais uma temporada de Dragão ao peito. Nem Major League Soccer, muito menos Premier League ou futebol italiano. San Iker renovou seu vínculo com o atual campeão de Portugal e vai seguir na cidade Invicta. Colocando-se, definitivamente, no rol de ídolos dos Dragões.


Abanão! A chegada de Casillas ao Porto, em 2015, causou um enorme abalo no futebol português. Como um dos maiores goleiros da história, o maior do Século 21 (ao lado de Buffon), optava por jogar a Liga Portuguesa?! Incrédula, a imprensa sediada em Lisboa especulava como o Porto era capaz de pagar o alto salário do “guarda-redes”. Sabendo-se que os Merengues pagavam parte substancial dos rendimentos do guardião, as notícias passaram a falar do destino futuro de San Iker. O homem mal havia chegado à Invicta, mas já se falava de uma travessia ao Atlântico, rumo a Major League Soccer (MLS), nos Estados Unidos.


A contratação de um futebolista tão icônico teve efeitos imediatos no Porto. As redes sociais do clube tiveram acréscimos de seguidores/curtidores impressionantes, com os Dragões passando a liderar os rankings das redes sociais entre clubes portugueses. As vendas de camisas também dispararam. 10% de incremento, resultando em um faturamento de 500 mil euros.


Com dois anos de contrato e a opção de mais uma temporada, a época 2016/17 foi marcada por especulações. O Real Madrid havia se comprometido a pagar parte do salário apenas nos dois primeiros anos. Então, segundo se noticiava, era certo que Casillas iria se mudar para a terra do Tio Sam, já que o Porto não teria como pagar seu salário.


Eis que veio o segundo abalo. Contrariando as convicções de quem não espera pelo “prognóstico só ao fim do jogo”, em julho de 2017 o próprio jogador revelou, em suas redes sociais, o acerto para vestir de azul e branco por mais um ano. Para seguir de Dragão ao peito, o goleiro aceitou receber apenas a parte que o Porto já pagava do seu salário. Mesmo assim, ainda houve quem publicasse que os azuis e brancos não queriam a renovação: só renovaram por imposição contratual, disseram.


Em seus dois primeiros anos no Porto, Casillas não conquistou nenhum título. Certamente um incômodo ao atleta tão acostumado a levantar troféus, fosse com a camisa do Real Madrid (18), ou com a camisa da seleção da Espanha (uma Copa do Mundo e duas Eurocopas). Insatisfação que o espanhol não escondia. O goleiro sempre expressou seu desejo de marcar sua passagem pelos azuis e brancos com a conquista do Campeonato. E sempre manifestou seu espanto com alguns fatos curiosos do futebol português - na temporada que recentemente se encerrou, por exemplo, Casillas recorreu mais de uma vez à sua conta no Twitter para ironizar a dualidade de critérios da arbitragem portuguesa.


Quando foi, incompreensivelmente, relegado ao banco de reservas nesta temporada, Casillas se mostrou um profissional digno de respeito. Em momento algum o goleiro expressou insatisfação com a situação. Nunca colocou em causa as opções do treinador Sérgio Conceição. Em uma caminhada árdua do Porto na luta pela reconquista do título nacional, lutando contra tudo e contra todos, o goleiro manteve o espírito coletivo, não criando atritos internos. A imprensa, naturalmente, especulava. Inglaterra e Itália seriam os destinos mais prováveis em janeiro de 2018, segundo se publicava. A janela de inverno abriu. O mês de janeiro acabou. A janela de transferência fechou. E Casillas seguiu de Dragão ao peito. Afinal, “prognósticos, só no fim do jogo”.


A permanência no Porto, contudo, não cessou as elucubrações. Com o clube azul e branco apertado pelo fair play financeiro da UEFA, seria impossível manter em seu elenco um dos jogadores com mais títulos no futebol mundial ao fim da temporada. Era o que conjecturava a imprensa. Premier League? Serie A italiana? MLS? Não se sabia o destino. Certo mesmo, no fantástico mundo da imprensa portuguesa, era que Casillas dificilmente seguiria na Invicta.


Porém, há coisas que não têm preço. "Humanidade é uma palavra que assenta na perfeição a este grupo. É um vestiário cheio de gente nobre e isso é difícil de encontrar no futebol atual. Em todos os vestiários há problemas, mas quando tivemos os nossos, soubemos falar sobre eles, ultrapassá-los e nunca nos desunimos em momento nenhum", afirmou Casillas ao site oficial do FC Porto. E esse sentimento de um dos maiores jogadores da história do futebol mundial ajuda a explicar a decisão tomada.


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82 títulos numa foto: Pinto da Costa (59), Casillas (23), 5 Mundiais e 5 Champions League


O goleiro, que já ganhou três Ligas dos Campeões e levantou a Taça FIFA de campeão do Mundo em 2010, acrescentou que para ele, “pessoalmente, este título [de Campeão Português] é algo grande. Desde o primeiro dia em que cheguei aqui que queria dar esta alegria ao clube, aos adeptos e à cidade. Era isto que todos queríamos: ser campeões e sair à rua para festejar com os nossos adeptos".


Durante as comemorações do título português, Casillas pegou o microfone e falou diante de 250 mil portistas na Avenida dos Aliados que queria ser bicampeão. Estava dado o mote para a renovação. Mas, como o goleiro iria renovar com um salário tão alto? O Porto não teria condições de bancar um jogador tão caro, dizia a imprensa. Entre o mundo ideal e real haveria uma distância que os cifrões separariam, especulava-se.


No dia 17 de maio, as especulações chegaram ao fim. Casillas, que em 2017 já havia aberto mão de parte substancial do que ganhava nos tempos de Real Madrid e nos seus dois primeiros anos de FC Porto, aceitava reduzir ainda mais o seu salário. E o goleiro, que neste domingo completa 37 anos de idade, acertou sua permanência no Dragão para a temporada 2018/19.


MLS, Premier League, Serie A… Casillas tinha mercado para seguir ganhando um caminhão de dinheiro. Porém, pela segunda vez, o mais icônico goleiro do Século 21, um dos jogadores com mais títulos no futebol mundial, optou por reduzir o salário para poder perseguir o desejo de ser bicampeão português. "É fantástico estar vinculado a um clube e a uma cidade fantástica, que desde o primeiro dia me receberam muito bem. Havia rumores de que poderia sair, mas a minha intenção sempre foi a de continuar. Felizmente pude continuar e estou feliz por isso”, disse ao site oficial do Porto.


Afinal, como escreveu o poeta Pedro Homem de Mello. “Azul e branca, essa bandeira avança... Azul, branca, indomável, imortal, como não pôr no Porto uma esperança se daqui houve nome Portugal?”. Com este ato, San Iker deixa seu nome, definitivamente, na imortalidade deste clube que em seu brasão leva o escudo da cidade que deu o nome a Portugal.