Venda de Ricardo: exemplo da necessidade do Porto vender e do que se tornou o futebol atual

FC Porto divulgação
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Venda de Ricardo Pereira vai ajudar o Porto nas contas do fair play financeiro da UEFA


Neste sábado, 19, o FC Porto anunciou a venda do lateral direito Ricardo Pereira ao Leicester, da Inglaterra. Em comunicado à Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM), a SAD portista informou que o atleta português foi negociado por €20 milhões, mais cinco milhões por objetivos (R$ 110 milhões no total). Mais uma venda milionária do clube que, desde que foi campeão europeu em 2004, já faturou € 901 milhões (R$ 3,96 bilhões) em vendas de jogadores. Transação que simboliza o que se tornou o futebol “pós-moderno” (Richard Giulianotti): os clubes periféricos e semiperiféricos se transformaram em meros fornecedores de commodities (futebolistas) aos clubes do centro do poder financeiro do futebol mundial.


Quando vi o anúncio oficial da venda de Ricardo, fiquei triste. Afinal, trata-se de um dos melhores laterais direitos do futebol europeu na última temporada, um dos jogadores essenciais na conquista do título português e que ainda pode jogar na lateral esquerda ou como ponta direita (função que exerceu em alguns jogos na época que acabou de se encerrar). Ainda por cima, o versátil e talentoso jogador vai estar na Copa do Mundo a serviço da seleção portuguesa e poderia se destacar, valorizando-se no mercado.


Porém, passado o impacto da perda de um dos pilares do time Campeão Nacional e analisando racionalmente a situação, a tristeza passou a ser conformismo. Infelizmente, o Porto, na última temporada, teve que cumprir compromissos orçamentários por conta do fair play financeiro da UEFA. Além disso, Ricardo entraria em seu último ano de contrato e se não renovasse, poderia assinar um pré-contrato em seis meses e deixar o clube de graça ao fim de 2018/19.


Sem dúvida, foi uma venda que nos enfraquece para a luta pelo bicampeonato português, mas foi um mau necessário. Afinal, no mundo do futebol cada vez mais financeirizado, a lógica do mercado se impõe de forma devastadora e um clube de um país pequeno e periférico em seu continente não tem como lutar contra a avidez das equipes de ligas muito mais ricas.


Em “Sociologia do Futebol”, Richard Giulianotti aponta que o período pós-Copa do Mundo 1990, caracterizado pelo crescimento financeiro, marcava a era do “futebol pós-moderno” (p. 137), em grande parte impulsionado pela revolução dos direitos de transmissão televisiva. Esta revolução, segundo este mesmo pesquisador, aprofundou o fosso que separa o centro da periferia em todas as escalas – global, continental e nacional. Isso porque a “distribuição desigual dos pagamentos feitos pela televisão entre os clubes resulta em uma concentração ainda maior de riqueza financeira e do sucesso no futebol” (Giulianotti, 2010, p. 127). Algo que percebemos no Brasil com suas cotas de TV injustas e desiguais ao que denominei “apartheid futebolístico” em meu livro “Cotas de televisão do Campeonato Brasileiro”.


Dentro da Europa, tal fenômeno também ocorreu entre seu centro e sua periferia (Giulianotti, 2010, p. 139). A Lei Bosman permitiu que clubes ingleses, os grandes espanhóis e italianos, o Bayern de Munique e o PSG, turbinado pelo dinheiro do Catar, detentores de mais recursos financeiros, virassem concorrentes inalcançáveis para os clubes até mesmo da “semiperiferia” europeia (para utilizar o termo empregado por Giulianotti, 2010, p. 139).


Não é por acaso, portanto, que o modelo de negócio do Porto se sustente na venda de jogadores para os clubes do centro do poder financeiro europeu. Esse contexto de “globalização do futebol e a circulação de capital internacional de desportos” (Giulianotti, 2010, p. 116) marcado pela concentração dos recursos financeiros no centro – Europa Ocidental – reforçou o contexto de dependência de um clube como o Porto, de um país da semiperiferia europeia.


Deco, Ricardo Carvalho, Pepe, Ricardo Quaresma, Lucho González, Hulk, James Rodríguez, Falcao García, Danilo, Alex Sandro, Ricardo Pereira… Só para citar alguns dos jogadores que o Porto teve que vender desde a conquista da Liga dos Campeões de 2004 para se manter minimamente competitivo no cenário continental. Acumulando em vendas desde então quase R$ 4 bilhões (segundo o site Transfermarkt).


No futebol “pós-moderno”, diante das disparidades financeiras, resta aos clubes de países periféricos o papel de fornecedor de commodities (jogadores). Por essa razão, não deixa de ser simbólico que o Porto tenha vendido Ricardo Pereira ao Leicester. Um clube da rica Premier League, a liga de futebol que mais fatura no planeta. Clube que, embora tenha sido campeão nacional em 2016, não está sequer entre as 10 maiores da história do seu país. Mas que somente de vendas de direito de transmissão, o tal impulsionador da revolução do futebol-financeiro, recebeu em 2017/18 R$ 593 milhões, R$ 71 milhões a mais do que todo o orçamento do Porto nesta temporada, em que se sagrou campeão português.


O futuro da lateral direita portista pode passar pelo que já tem em casa. O garoto Diogo Dalot, 19 anos, promovido ao time principal na atual temporada é bastante promissor e demonstrou ter talento e personalidade quando teve que jogar, improvisado, frise-se, no período em que Alex Telles esteve lesionado. Pena é saber que daqui a dois anos, o Porto já vai ter que procurar o sucessor do sucessor de Ricardo Pereira. Afinal, esta é a lógica do futebol atual. Infelizmente.