Sérgio Conceição, o grande arquiteto do título do Porto

FC Porto divulgação
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Sérgio Conceição superou a descrença da imprensa e as limitações financeiras do clube


Quando foi anunciado como novo treinador do FC Porto, Sérgio Conceição teve que enfrentar a suspeição lançada pela imprensa portuguesa. “Não era a primeira opção”, disseram muitos. “Ninguém queria assumir o clube na situação em que se encontra”, iam mais longe alguns. “Temos que ver se o seu temperamento não vai ser prejudicial”, especulavam, ainda. A desconfiança era construída através da narrativa midiática. Mas, a verdade é que o desafio imposto ao técnico era enorme. Chegava a um clube que não vencia nada há quatro anos (situação incomum nos últimos 35 anos). Via os dois rivais de Lisboa apontados como franco favoritos. E não teve um único reforço contratado.


De personalidade forte, Conceição disse logo a que veio na coletiva de imprensa de sua apresentação. “Não venho para aprender, venho para ensinar”, afirmou, rejeitando o rótulo de inexperiente por nunca ter treinado um clube grande. Mesmo já tendo consciência das dificuldades financeiras enfrentadas pelo Porto e sem saber com quem contaria para a temporada, garantiu um time competitivo e disparou: "O penta não vai acontecer", em um recado direto ao rival, que tinha como desejo repetir o feito alcançado pelos portistas em 1999.


“Não se faz omelete sem ovos”, disse certa vez Otto Glória, o brasileiro que comandou a seleção portuguesa em sua melhor campanha na história das Copas e que também comandou o Porto. Hoje em dia, porém, os veganos fazem omeletes sem ovos. E mesmo sem ser adepto do veganismo, Sérgio Conceição se mostrou capaz de fazer não apenas uma omelete, mas um banquete completo sem ovos. Que é como quem diz, o Porto não foi ao mercado se reforçar e o técnico teve que se virar com os jogadores que tinha à disposição, dentre eles os retornados de empréstimos, alguns até desprezados pela torcida.


E foi com o que tinha à disposição que o arquiteto da reconquista do título nacional moldou a sua equipe. Em um clube cuja torcida tem apreço pelo 4x3x3, o treinador, que até preferia o 4x2x3x1, viu no 4x4x2 a fórmula ideal para assaltar o Campeonato. E, à imagem do que foi o Conceição jogador, o time portista logo se notabilizou pela intensidade e raça com que se entregava ao jogo, com enorme disposição física. Um Porto ofensivo. Como o momento do clube pedia. Era preciso se impor perante os adversários. O ataque impiedoso e incansável era o caminho.


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Campeão português quatro vezes como jogador, Conceição montou um time à sua imagem: ofensivo e raçudo


Conceição pegou no patinho feio Marega, muitas vezes alvo de chacota, e o transformou na locomotiva do título. Um verdadeiro monstro, com sua força e velocidade, levando o time sempre para a frente. A profundidade ofensiva vinha dos laterais que subiam sempre em apoio ao ataque. O meio de campo sólido se segurava com Danilo à frente da defesa e um Herrera “box-to-box”. E quando perdeu o pêndulo Danilo por lesão, conseguiu fazer de Sérgio Oliveira uma peça fundamental na caminhada para o título. O tal “temperamento” que poderia ser “prejudicial” incutiu nos seus comandados a gana de vencer. Um “Porto à Porto”, que come a grama e se entrega do primeiro ao último minuto, até a última gota.


Quando Soares esteve em rota de ruptura e quase a caminho da China, Conceição soube gerir a insatisfação do brasileiro e fez dele um reforço para o elenco justamente no momento em que Aboubakar se lesionou. Também foi inteligente e humilde em reconhecer o erro que cometia ao ter tirado Casillas da titularidade e apostado no inexperiente José Sá. Na fase crucial da temporada, recolocou o espanhol debaixo das traves.


A identidade ganhadora se viu ao longo de todo o Campeonato. Mas foi nos clássicos que se evidenciou. No primeiro turno, o Porto foi avassalador em Alvalade, mas não passou do empate. No Dragão só não bateu o Benfica porque os erros de arbitragem e do VAR não o permitiram. Entretanto, no segundo turno, foi diferente. O triunfo sobre o Sporting no Dragão foi a mensagem clara de que o Porto era o melhor time no país. E mesmo quando foi à Luz atrás na tabela classificativa, Conceição e sua equipe mostraram personalidade e, acima de tudo, mais vontade de vencer. O gol de Herrera aos 45 minutos do segundo tempo premiou quem procurou a vitória e selou a caminhada rumo aos Aliados.


Sérgio Conceição foi uma aposta do Porto. Uma aposta que muitos previam ser fracassada. Os profetas do apocalipse falharam. Sob o comando de Conceição, o Porto liderou o Campeonato praticamente de ponta a ponta. E foi o justo campeão. Havia quem sonhasse com o penta. Mas o penta é de Conceição. Dele que foi três vezes campeão como jogador na sequência do pentacampeonato do Porto. Dele que foi o grande obreiro do triunfo que manteve os Dragões como únicos pentacampeões em Portugal.


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Treinador teve contrato renovado com o Porto: até 2020 e cláusula de rescisão de €15 milhões


A renovação do seu contrato até 2020 é o reconhecimento do clube ao seu técnico. É a demonstração de confiança em seu trabalho. Um prêmio merecido para o arquiteto do título. Agora, convém à SAD azul e branca dar uns bons ovos ao treinador. É que, por melhor que ele seja, Conceição também merece fazer um banquete com mais ingredientes.