O brasileiro não se interessa com a Seleção, apenas com Neymar

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Neymar se equilibra entre o céu e o inferno na opinião pública


Foi suado, mas o Brasil venceu nos minutos finais a Costa Rica, pela segunda rodada da fase de grupos da Copa do Mundo. A apreensão dos jogadores esteve nítida do início ao fim, mas o gol de Coutinho (mais um) e o derradeiro de Neymar garantiram um fôlego à Seleção em uma Copa onde todas as vitórias parecem vir a fórceps. Mas antes, durante e depois do jogo, mais do que a falta de gols, ou o sofrimento, um assunto foi e ainda é a pauta entre jornalistas e torcedores: Neymar.


Na rodada passada, no empate diante da Suíça, o camisa 10 jogou mal. Era sua primeira partida oficial após quase quatro meses, e logo em uma Copa do Mundo, em uma equipe que jogou unicamente em função dele. Mas o responsável pelo seu mau desempenho (e o de toda a Seleção) foi para muitos o seu corte de cabelo, que chegou a virar tema principal em mesas de debate esportivo.


Contra a Costa Rica, Neymar foi mal mais uma vez. Errou várias jogadas, perdeu gols, sofreu faltas (e simulou outras mais, inclusive um pênalti), levou um cartão amarelo por reclamação. Mas em momento algum se escondeu da responsabilidade, que por um tempo foi somente sua, até a entrada de Douglas Costa, e marcou o segundo gol da partida. Após o apito final, desabou em prantos. Algo parecido com o que ocorreu após o pênalti convertido na decisão das Olimpíadas 2016. Chorou como alguém que sabe que carrega todo o peso da esperança de um país nas costas, que se esforçou muito para se recuperar a tempo e ainda está buscando um ritmo, em um time que precisava vencer e conseguiu com um gol seu, em tarde pouquíssimo inspirada.


Mas, mesmo após o gol marcado e o choro de alívio próprio de um ser humano comum sob altíssima pressão, muitos torcedores brasileiros se viram na posição de liberar sua raiva diante do jogador, ao ponto de, mais uma vez, julgarem o seu caráter, que aparentemente é falho até mesmo nos acertos, ou quando demonstra comprometimento com o Brasil na Copa, diferentemente de muitas estrelas que, em 2006, não ligaram para o seu povo e hoje viraram símbolo de uma Seleção “raíz”.


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A emoção de quem sabe o peso que carrega


Durante os 90 minutos, o Brasil jogou em função de Neymar, e a cada bola perdida, era um desespero, como se um falso Messias estivesse enganando as esperanças de um povo. Quando o gol saiu, mais do que exaltar Coutinho, que vem fazendo um ótimo Mundial, o coro era de críticas a um “Neymar que não resolve”. Tão importante quanto isso fora o fato de gente da transmissão esportiva quase embalar no colo o camisa 10, suplicando para que parassem de fazer-lhe faltas, pois se tratava de um “bom menino”.


O brasileiro não tem olhos para sua seleção. Durante todo o tempo, o foco é em Neymar. Se ele irá nos salvar e “trazer a Copa para nós”, como diz uma propaganda, ou se será o vilão da vez, incapaz de buscar o hexa nas costas. O foco em seu cabelo, sua namorada, seus amigos, seu sanduíche preferido, seu xampu anticaspa, seu desodorante. Seu caráter definido por uma descoloração capilar ou falta cavada. Sua canonização caso brilhe em algum jogo, ou martírio se for cortado em caso de lesão provocada por um defensor colombiano.


Não existe uma Seleção. Existe um Neymar, responsável por todos os milagres e pecados de um time, de um país. Quando erra, é um ato de menino sem caráter ou alguém que só precisa de colo. Quando acerta, é o ápice da falsidade, do narcisismo, de quem faz de tudo para aparecer, ou aquele que está aquecendo os motores para trazer, sozinho, uma sexta estrela.


Mal se fala da partidaça da dupla de zaga Thiago Silva e Miranda, da boa proteção (e erros de passe) de Casemiro, do bom desempenho de Marcelo, das ousadas e certeiras alterações de Tite, com Douglas e Firmino mudando totalmente a equipe, ou até de mais uma linda partida de Coutinho. Mais importante do que isso é posicionar o divã e buscar esmiuçar a fundo todos os aspectos de um atleta, menos o seu lado humano. É esperar que 10 jogadores em campo orbitem ao redor de uma estrela, unicamente responsável por todos os fracassos e brilhantismos de um conjunto.


O futebol, com suas táticas e nuances, fica em segundo plano, diante de uma pessoa prontamente preparada por um país para ser crucificada ou erigida nos próximos dias.