Como entregar uma Liga de bandeja? O Real Madrid te ensina

A torcida do Real Madrid recebeu um presente muito amargo neste Natal. Uma acachapante derrota por 3 x 0 para o Barcelona, em pleno Santiago Bernabéu. Perder um clássico, um duelo entre times de mesma grandeza, é algo que simplesmente acontece. Qualquer um dos times pode sair vencedor e, sinceramente, o time da capital tinha totais condições de garantir os três pontos. Mas, assim como vem acontecendo no restante da La Liga, está tudo sendo entregue de mão beijada para os catalães.


Tanto poderia ter saído vencedor, que na primeira vez que os times se encontraram na atual temporada, na decisão da Supercopa da Espanha, a vitória merengue foi ampla e totalmente incontestável. E no primeiro tempo do recente clássico, o Real Madrid foi muito melhor, avançando a marcação, sempre pressionando a saída de bola do Barcelona e criou grandes dificuldades para os comandados de Ernesto Valverde. Mas sem conseguir reverter o domínio em gols.


Getty Images
Getty Images

Ele fez o que dava


É bem verdade que a furada histórica de Cristiano Ronaldo, aos 10 minutos de partida, poderia ter mudado os rumos da partida. Não é um lance onde ele costuma falhar, mas falhou feio dessa vez. Ainda assim, não dá pra colocar a culpa na conta dele. O português teve uma boa exibição no primeiro tempo e, ao contrário do seu companheiro de ataque - que teve uma boa chance e quase marcou, justiça seja feita - não foi um peso morto durante todo o jogo. Porque essa foi a função de Benzema na partida: ser um homem a menos em campo. As vaias que a torcida direcionou ao francês no momento da sua substituição foram totalmente justificáveis. Não há mais nenhuma possibilidade de continuar a defendê-lo como titular.


Esse foi apenas um dos erros de Zidane. O time foi a campo com incompreensíveis quatro volantes: Casemiro, Kovacic, Kroos e Modric. É claro que todos eles também são importantes no esquema ofensivo da equipe, chegando como surpresa na área e criando jogadas para os homens de frente, porém seria crucial ter atletas com maior potencial de decisão lno ataque. Se é pra insistir em Benzema, que tem acertado uma jogada a cada passagem do cometa Halley, a presença de Isco seria fundamental. O malaguenho está numa fase maravilhosa e faria diferença, junto com Modric e Kroos na chegada ao ataque.


Getty Images
Getty Images

Não há mais argumentos que o defendam


A lógica de Zidane, acredito eu, era a de que, se o time pressionaria o adversário ainda no campo de defesa, o que incluía Marcelo e Carvajal nessa estratégia, o meio deveria estar fortalecido para eventuais coberturas. Além disso, esses mesmos jogadores do meio também eram responsáveis por essa marcação, de forma organizada para não desguarnecer a defesa e oferecer algum contra ataque. Até aí faz certo sentido. Se vamos pressionar o adversário, é necessário, sim, uma atenção redobrada na defesa para evitar contra ataques. Mas o elenco do Real Madrid é talentoso e com cosciência tática o bastante para não precisar de quatro volantes para fazer isso. Utilizar Isco no lugar de Kovacic supriria perfeitamente essa necessidade.


O croata, além de tudo, estava como cão de guarda ao redor de Messi, o que funcionou bem no primeiro tempo, mas quando o Barcelona abriu o marcador, já na segunda etapa, foi catastrófico. Kovacic seguiu na cola do argentino e abriu uma avenida para a passagem de Rakitic, que avançou sozinho, sem nenhuma preocupação, até quase a área merengue. Pela rapidez da jogada, mesmo que o compatriota deixasse a bola com Messi, isso atrasaria um pouco o contra ataque e daria tempo de uma recomposição defensiva. Kovacic não pensou e o caminho para o fim começou a ser desenhado ali.


Zidane também demorou a mexer. Quando Gareth Bale e Marco Asensio saíram do banco e prepararam-se para entrar em campo, uma luz de esperança se acendeu, apesar do Barcelona já ter virado o panorama em relação ao domíno em campo. O placar ainda era 1 x 0 e dava perfeitamente pra ser revertido, mas Carvajal, com aquela bela defesa dentro da área, foi expulso e fez Zidane segurar as duas alterações e lançar Nacho no lugar de Benzema. Mas se o time já estava com quatro volantes em campo, porque não recuar um deles, no caso, Casemiro, para a zaga e deixar Kovacic mais plantado na defesa, sem lançar-se tanto ao ataque? Dessa forma um dos dois homens de frente poderia entrar na vaga do atacante francês e dar mais mobilidade no ataque. Novamente, Zizou errou. Pecou pelo conservadorismo.


Getty Images
Getty Images

Não tinha nem do que reclamar


Asensio e Bale entraram logo depois, é verdade (e Isco, coitado, assistiu o jogo todo do banco). E aqui vemos, mais uma vez, como a vitória era possível se o time tivesse sido bem escalado ou, miseravelmente, se as substituições não tivessem demorado tanto. Mexer no intervalo teria sido a melhor opção, já que Benzema nada produzia. Com a entrada desses dois jogadores o Real Madrid mostrou uma certa evolução e não sentiu tanto assim o fato de ter um jogador a menos. É claro que as dificuldades eram maiores, mas um time como o Barcelona normalmente capitaliza muito mais a superioridade numérica de jogadores, o que não aconteceu dessa vez. O Real Madrid até teve a bola, quase marcou com Bale, mas a pressão e o estrago psicológico já eram grandes.


Agora estamos aí, 14 pontos atrás do líder, com um jogo a menos. Uma distância quilométrica e, mesmo que o discurso dos atletas não diga isso, o título espanhol está muito encaminhado para ficar na Catalunha.


O Real Madrid entregou o título de presente para o Barcelona, mas, apesar disso a derrota de ontem não reflete a distância técnica entre as duas equipes. O time de Valverde não é nada fora do normal e pode ser batido, mas as convicções de Zidane nos fizeram chegar a essa situação. Se o meio campo sólido, combativo e criativo ao mesmo tempo, foram a tônica da temporada passada, na atual tudo se tornou previsível. Zizou tem méritos pelas conquistas e pela imprevisibilidade do time nas Champions e na La Liga vencidas, mas tem-se mostrado estagnado a essa estratégia, sem oferecer as variações que o elenco proporciona.


Getty Images
Getty Images

Quando o goleiro é o melhor em campo, algo está errado


Por mais que tenhamos perdidos peças mais experientes, os jogadores que compõem o atual plantel tem grande qualidade, mas precisam jogar para provar do que são capazes. Insistir sempre nos mesmos, com outros de qualidade pedindo passagem, não me parece a estratégia mais inteligente. Torço para que depois dessa chinelada Zidane perceba isso, afinal, é o dele que está na reta. E todos os torcedores do Real Madrid torcem pelo sucesso do comandante e do time.



Siga Rodrigo Rebelo no Twitter | Siga o Conexão Merengue no Twitter | Curta o Conexão Merengue | Curta o ESPN FC