Bale brilhou, mas Legia expôs a fragilidade do Madrid

Os portões fechados para a torcida do Legia no Estádio do Exército Polonês criaram baixa expectativa para o confronto. Esperava-se uma vitória tranquila do Real Madrid, com o controle absoluto do jogo, apesar de os legionários terem incomodado em diversas oportunidades na partida do Bernabéu.


O que se viu no segundo tempo, entretanto, foi um sistema defensivo madridista exposto por suas fragilidades e um ataque neutralizado pelo choque do inesperado. O Madrid esteve abalado a ponto de quase dar ao Legia sua primeira vitória em 21 anos na Champions League, mas Kovačić evitou o pior após jogada de extrema calma e sabedoria de Carvajal, em contraste com o caos do momento.


Zidane optou por um esquema mais fluido em Varsóvia. Dada à fragilidade do adversário, resolveu premiar Morata pela ótima fase e encaixou o atacante junto com o trio BBC, sem medo de ser feliz. A solução encontrada para contemplar os quatro atacantes foi uma espécie de 4-2-4 em que Bale partia da direita para o meio e os outros três trocavam constantemente de posição.


Embora o placar final de 3 a 3 – vergonhoso para o Madrid – tenha refletido outra realidade, o time funcionou muito bem no primeiro tempo, em atuação mais sólida que a do Bernabéu. A movimentação incessante do ataque confundiu a defesa polonesa e permitiu que Gareth Bale brilhasse, como pedido por aqui no último post.


Cinquenta e seis segundos foram necessários para o galês dar, de longe, uma chicotada na bola que morreu no ângulo do goleiro Malarz. Era o cartão de visitas para sua atuação mais completa na temporada. Foi, de longe, o melhor em campo. Desde o início, saiu de sua zona de conforto e participou da criação pelo meio, assistiu Benzema no segundo gol, foi à área para funcionar como referência em bolas aéreas, driblou com objetividade e ditou o ritmo nos bons minutos blancos na partida.


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É assim que se faz, Bale


Quem também se destacou foi Kovačić, mais uma vez. O gol de empate premiou o atleta que evolui a cada semana e se firma como peça importante do elenco após primeira temporada em que demonstrou irregularidade e desequilíbrio emocional em determinados momentos. Funciona muito bem ao lado de Toni Kroos na primeira linha de meio-campo e dá o dinamismo necessário durante a terrível ausência do compatriota Modrić.


Dados os destaques positivos, precisamos falar sobre o abalo sísmico acontecido no segundo tempo. O primeiro gol sofrido foi obra do acaso e fruto do brilhantismo individual de Odjidja, principal jogador dos poloneses, mas a etapa final escancarou por que o Real Madrid não consegue manter um clean sheet há dez partidas. A vitória por 2 a 0 diante do Espanyol, na quarta rodada de La Liga, foi a última vez em que não vimos o adversário balançar as redes.


É muito fácil apontar a lesão de Casemiro – e de Modrić, em menor escala – como causa para todos os defeitos defensivos da equipe, mas não pode ser assim. Evidente que o brasileiro é o único volante do elenco a unir capacidade de desarme acima da média e senso de posicionamento que neutraliza o jogo de entrelinhas dos rivais, porém, em um mês e meio, Zidane já deveria ter encontrado um antídoto para essa ausência.


Kroos é extraclasse como primeiro homem de meio-campo por dar fluidez à saída e elevar a criação de jogadas desde trás à máxima potência, além de preencher os espaços com eficácia. As 22 vitórias consecutivas de Ancelotti se deram com uma formação em que o alemão se colocava à frente da zaga.


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Zidane precisa arrumar a defesa


A chave para essa configuração não comprometer o sistema defensivo é uma compactação que poderia ter impedido a ação de Radović no gol de empate, mas Zidane ainda não conseguiu atingi-la. Nem mesmo os desfalques de Pepe e Sergio Ramos justificam tamanha fragilidade vista. Até a virada, todas as finalizações polonesas na direção da meta encontraram o caminho das redes.


Varane e Nacho não comprometeram e o foco deve ser na desorganização do sistema defensivo como um todo. Navas falhou, é verdade, mas jogar a culpa para cima do goleiro seria enxergar apenas a ponta do iceberg. Com o placar igualado e o time estático, o treinador foi para o tudo ou nada e abriu de vez a equipe ao trocar Coentrão por Asensio. Cada ataque do Legia era um dia a menos de vida para o torcedor madridista.


O Real Madrid tropeçou onde não podia e precisará vencer os difíceis jogos restantes contra Sporting, no Alvalade, e Borussia Dortmund, no Bernabéu, para assegurar a primeira colocação do grupo. Zidane terá 20 dias – com Data FIFA inclusa – para reparar os erros e chegar a Lisboa com um sistema confiável. Ou aguardar os retornos de Casemiro e Modrić e continuar sofrendo.