Por que o Real Madrid oscila tanto?

Ao assumir o Real Madrid em janeiro, Zidane tinha como objetivos de curto prazo recuperar o nível dos principais jogadores e dar à equipe uma regularidade que Rafa Benítez jamais conseguiu atingir. A conquista da Champions League e a disputa por La Liga até a última rodada comprovaram o acerto na escolha por um ídolo identificado com o clube, que dava seus primeiros passos na comissão técnica.


Para a nova temporada, entretanto, o francês precisaria ir além. Com o comando desde o início e uma pré-temporada para testar opções e adaptar o elenco ao seu estilo, teria tempo para implementar seus conceitos de futebol e desenvolver um modelo de jogo sólido. Os resultados não chegam a decepcionar, uma vez que o Madrid segue invicto em 2016/17 e acumula 11 vitórias em 16 jogos, além de liderar La Liga.


Porém, o treinador segue devendo ao analisarmos o desempenho de seu time. A defesa só não foi vazada em duas oportunidades. Muitas das vitórias foram mais apertadas do que deveriam e alguns empates com adversários inferiores eram evitáveis, como o do último dia 2 com o Legia Varsóvia. A questão é a seguinte: até que ponto as circunstâncias desfavoráveis prejudicam o andamento do trabalho de Zidane?


Já estamos em novembro e não houve sequer uma oportunidade em que o técnico contou com todos os jogadores à disposição. Para se ter uma ideia, o time considerado ideal – com Navas, Carvajal, Pepe, Ramos e Marcelo na defesa, Casemiro, Kroos e Modrić no meio e o trio BBC no ataque – ainda não foi a campo na temporada, e em poucas partidas chegou perto disso. 


Os torneios continentais de seleções durante o período de férias do calendário europeu de clubes causaram sérios danos ao Real Madrid e inviabilizaram uma pré-temporada adequada. Keylor Navas só voltou a jogar no final de setembro e apresenta clara falta de confiança em algumas ocasiões. Castigados por uma exaustiva Eurocopa em que deram o inédito título a Portugal, Pepe – que já se machucou de novo – e Cristiano Ronaldo também retornaram com a temporada em curso.


Somam-se a esse conjunto de eventos as graves lesões sofridas por Casemiro e Modrić quando a equipe ainda se encaixava. A baixa de Casemiro toma maiores proporções por não haver nenhum outro atleta com suas características no elenco e obrigar a escalação de Kroos em qualquer jogo, sem receber descanso. Em suma, de todos os titulares, apenas Carvajal, Kroos e Bale não enfrentaram problemas mais sérios na temporada, e só os dois primeiros mantêm regularidade em termos de atuações mais destacadas.


Por falar em Bale, com esperanças renovadas após grande performance contra o Legia, é notório que o trio BBC está rendendo abaixo do seu potencial, coletiva e individualmente. Cristiano Ronaldo deixou de marcar na maioria das partidas em que atuou e esse é um cenário inédito desde sua chegada ao Real Madrid. Benzema – outro a retornar com a temporada em andamento – apresenta melhora gradativa, por mais que muitos não enxerguem, mas os números ainda não refletem essa realidade.


Getty Images
Getty Images

Ainda não foi possível tirar uma foto igual a esta na temporada atual


A solução momentânea para os problemas no ataque está vindo do banco de reservas, mais especificamente com Lucas Vázquez e Morata. Lucas sempre é motivo de preocupação para as defesas adversárias por aliar velocidade, dribles objetivos e cruzamentos precisos. Promove verdadeira revolução na ponta direita quando entra e cria muitas ocasiões de gol, mesmo recebendo uma quantidade de minutos em campo bem inferior ao que merece.


O caso de Morata é um pouco mais complicado por haver verdadeiro clamor público por sua titularidade. É muito bom apreciar cada momento seu em campo por ser um jogador que leva o Real Madrid no coração e sente a camisa como ninguém, disputando cada bola como se fosse a última e nunca deixando de agregar à equipe. O estilo do canterano, no entanto, me parece propício para a entrada no segundo tempo. Prova disso é que alterna bons e maus momentos quando atua desde o começo.


No meio-campo está a chave para entender tantas oscilações. Como dito, a ausência de Casemiro se agrava por não haver um substituto natural. Marcos Llorente, potencial bom suplente da base, está emprestado ao Alavés. Quem sofre com isso é a defesa, que sempre é vazada mesmo sem as peças estarem em má fase. O maior erro de Zidane é a incapacidade demonstrada para solucionar esse problema após quase dois meses sem o brasileiro.


Sobre Modrić, é chover no molhado falar sobre a importância do melhor meio-campista do mundo na equipe. É ele quem dita o ritmo e faz com que o time todo jogue. Dentre as ausências, a sua sempre será a mais sentida por influenciar diretamente em todas as fases do jogo. Lukita, contudo, já está apto e sua presença é quase certa no próximo compromisso, diante do Leganés. O impacto deverá ser imediato.


É verdade que o treinador francês amenizou um pouco a situação ao posicionar Kovačić ao lado de Kroos, em um esquema que varia entre 4-2-3-1 e 4-3-3, e assim extrair o máximo do croata, defensiva e ofensivamente. Junto a Isco, a configuração com os três meias se repetiu nas últimas partidas e uma evolução começava a ser mostrada, mas foi interrompida com a troca de Isco por Morata contra o Legia, em decisão que muitos apontaram como política.


Cauteloso nas entrevistas, Zidane evita dar explicações mais específicas para a reconhecida irregularidade. Elege a falta de intensidade como justificativa. Só na coletiva pós-jogo em Varsóvia, por exemplo, foram cinco repetições do termo. De fato, falta intensidade em alguns momentos, mas esperamos que esteja ciente de todos os problemas por trás de sua palavra favorita. Apesar de as circunstâncias atípicas da temporada serem um obstáculo a mais, o francês precisa provar que está à altura do cargo que ocupa.