Liderança mantida, mas o Madrid segue devendo

Depois de dez jogos, o Real Madrid, enfim, voltou a ter um desempenho defensivamente seguro, e o fato deve ser comemorado. O Leganés é, sim, muito fraco, mas o time de Zidane já havia sofrido contra adversários de nível semelhante, e todos eles conseguiram arrancar ao menos um gol do combalido sistema de proteção madridista.


A vitória tranquila representa a enorme disparidade técnica entre as equipes, mas o placar de 3 a 0 não reflete o que foi o jogo. Quem acordou mais cedo para acompanhar desde o início foi castigado por um primeiro tempo medonho no qual o Madrid demorou mais de 30 minutos para criar uma ocasião real de gol contra o 16º colocado de La Liga, debutante na competição. Faltou a intensidade tão pedida pelo treinador.


Não foi o caso de enfrentar uma retranca feroz que se entrincheirava em sua própria área e impedia lances mais agudos. Pelo contrário. O oponente cedeu espaços e o Real Madrid se mostrou incapaz de controlar as ações. Nem mesmo trocava passes para chegar com perigo até a meta de Serantes, e os laterais pouco iam ao ataque. Essa incapacidade de dominar o jogo, aliás, é um dos problemas crônicos que causam tantas oscilações na temporada.


No começo, o time parecia até não haver compreendido o caráter oficial da partida, valendo três pontos na disputa por um troféu que não vai para Chamartín desde 2012. Diversos passes errados no campo de defesa por pura displicência, que poderiam ter causado danos mais graves caso Nacho e Varane não estivessem ligados. A dupla de zaga mostrou solidez e foi responsável direta pela calmaria de Keylor Navas, que só precisou intervir em chute perigoso de Szymanowski, já na reta final.


Getty Images
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Contra a falta de inspiração, Bale; galês voltou a ser destaque


Salvo exceção na goleada imposta ao Betis no Benito Villamarín, são muitas as dificuldades para o time se impor e fazer valer sua superioridade. Contra o Leganés, a insistência foi nos lançamentos longos para tentar furar a linha de impedimento treinada por Asier Garitano. Em uma das tentativas, Cristiano Ronaldo recebeu livre e chutou por cima. Na outra, estava impedido.


O português chegou ao quinto confronto consecutivo no Bernabéu sem balançar as redes. É preocupante observar o jogador mais decisivo da equipe – e principal responsável por todos os títulos recentes – sem o faro de gol e a precisão cirúrgica que lhe são características. Porém, é um sinal de melhora quando CR7 participa ativamente do jogo e luta a todo custo por uma atuação para lhe dar confiança, como vimos hoje. Não obteve êxito imediato, mas esse é o caminho para voltar a ser o craque de sempre.


Sobre seu comportamento em campo, não é segredo para ninguém o modo peculiar como reage aos lances nos quais pede a bola e não recebe o passe, e jamais deixou de ser assim. Quando a fase não é boa, muitos recorrem aos estereótipos do atleta egoísta que só se importa com seus recordes individuais. Basta que ele volte a marcar com regularidade para as críticas desaparecerem e o “egoísmo” se transformar em “busca pela perfeição”. Como o próprio Cristiano disse, os haters são necessários para torná-lo melhor.


Quem deixou a má fase para trás foi Gareth Bale. Os gols premiam sua mudança de postura para voltar a ser fundamental na equipe. Antes reduzido a uma curta zona de influência na ponta direita, o galês agora flutua por todo o ataque e aparece onde é preciso para auxiliar na criação e na conclusão. O lançamento de Isco tirou o Real Madrid da inércia e lá estava Bale para movimentar o placar. Logo depois, oportunismo ao aproveitar desvio de Morata e praticamente liquidar a fatura em um primeiro tempo medíocre.



Os 45 minutos finais foram mero protocolo para assegurar os três pontos e garantir a liderança da Liga durante a pausa para as Eliminatórias da Copa do Mundo. Ainda deu tempo, no entanto, para Don Luka Modrić ter seus primeiros minutos em campo após grave lesão e agraciar a todos com sua santa presença.


Houve tempo, também, para Morata mostrar seus dotes de centroavante. Passou pela defesa e finalizou com propriedade - após mais uma assistência de Toni Kroos - para dar números finais ao confronto. A atuação do espanhol, assim como a de quase todo o time, deixou a desejar, mas impressiona sua qualidade para gerar oportunidades em meio a marcação cerrada. Sua escalação como titular aconteceu pois Benzema foi poupado após sentir incômodo muscular.


Zidane precisa aproveitar a Data FIFA para assimilar as debilidades coletivas demonstradas nos últimos jogos. Os maiores desafios do primeiro turno estão guardados para as rodadas restantes. Dos próximos oito compromissos, quatro são contra Atlético, Barcelona, Valencia e Sevilla – todos fora de casa. Os retornos dos lesionados deverão impulsionar uma necessária evolução para que o Madrid saia fortalecido da inglória sequência que se aproxima.


Oremos contra o “Vírus FIFA”. Amém.