Compra de Vinicius Jr. escancara a nova face do Real Madrid

A reação ao ler sobre o assunto pela primeira vez foi a mais cética possível. Pagar 45 milhões de euros em um moleque de 16 anos que sequer tinha estreado no profissional era absurdo e inimaginável até pros padrões do Real Madrid. Fake news, logo pensei. Mas não era.


A notícia saiu do Brasil, ganhou força na Espanha, o garoto estreou no profissional e a confirmação veio quando o Madrid anunciou, no site oficial, a contratação de Vinicius Júnior. A promessa do Flamengo ganhou notoriedade no Sul-Americano Sub-17, quando seus dribles desconcertantes, assistências e gols deram o título à Seleção Brasileira. Na Copinha, em janeiro, já havia deixado ótima impressão em meio a jogadores que estavam uma categoria acima de sua idade.


Era o que bastava para o menino de São Gonçalo ter seu nome ligado aos principais times europeus. Até aí, tudo normal. Toda revelação brasileira passa por isso desde que começa a aparecer na mídia, e é difícil separar a verdade dos milhões de boatos que surgem nessas circunstâncias.


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45 milhões: coisa de doido?


Para entender a persistência e o altíssimo investimento do Real Madrid para contar com Vinicius Jr. em 2018/19, assim que ele atingir a maioridade, é possível enxergar a questão de duas maneiras. Uma delas é o receio de perder o novo Neymar. Afinal, todo mundo lembra daquela honestíssima negociação que levou o brasileiro ao Barcelona, conduzida pelos honrados e íntegros dirigentes catalães.


O outro fator está diretamente ligado à nova política madridista de contratações. Com a palavra, o presidente Florentino Pérez, em entrevista à rádio COPE após a janela de transferências de 2015/16:



“Alteramos a estratégia de contratações. Precisamos ter os jogadores da Espanha e do mundo que serão muito bons. Acompanhamos e investimos neles. Caso se saiam bem, se revalorizam. Se não, estamos assegurados de que não perdemos dinheiro. Temos que começar a nos reinventar dessa maneira para seguir competindo com essas equipes que têm tanto dinheiro. Acreditamos que assim seguiremos ganhando títulos e manteremos nossa posição atual como clube mais valioso do mundo".



Naquela janela, além das recompras de Casilla, Casemiro e Lucas Vázquez, foram contratados Danilo, Jesús Vallejo (emprestado ao Eintracht Frankfurt), Kovačić e Asensio. Um total de 85,5 milhões de euros gastos em sete jogadores. À exceção de Casilla (28), todos tinham de 18 a 24 anos de idade. Em outros tempos, era normal ver o clube gastar esse valor em apenas um ou dois jogadores badalados, independente das necessidades do elenco.


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Ele sabe o que faz


Logo depois, em janeiro de 2016, aconteceu a absurda punição da Comissão Disciplinar da Fifa. O Real Madrid estava impedido de contratar novos jogadores pelas três janelas seguintes. Só Morata chegou naquele ano, já que havia uma cláusula de recompra que permitia a transferência. Em dezembro, porém, o recurso madridista foi aceito e o clube ficou livre para contratações a partir da janela que está prestes a ser aberta.


Para a próxima temporada, a imprensa espanhola dá como certa a chegada de Theo Hernández, lateral-esquerdo de 19 anos que pertence ao rival da cidade e teve ótimo desempenho no empréstimo ao Alavés. Zidane já tem muitos craques consagrados à disposição e corrobora a tese de que o foco das contratações deve estar em jovens promissores.


A aquisição de Vinicius Jr. representa a ação mais ousada da diretoria desde que a nova filosofia começou a ser implementada. Um risco enorme, é claro. Ninguém pode cravar que o brasileiro alcançará todo o potencial que levou ao valor de 45 milhões de euros. Mas se tem um clube com condições de sobra para correr o risco, esse é o Real Madrid. Florentino pagou pra ver, e a paciência é fundamental para não queimar o menino antes mesmo de ele atravessar o oceano.