O Real Madrid desaprendeu a vencer

O Real Madrid vai de mal a pior – jogue onde jogar, por qualquer competição. Arrancar pontos no Santiago Bernabéu ficou trivial para os visitantes. Em 2017/18, já são oito tropeços – cinco empates e três derrotas – em casa, um a mais do que em toda a temporada passada. No título de La Liga 2016/17, a equipe perdeu 11 pontos dos 57 que disputou sob seus domínios. Na Liga atual, por enquanto, desperdiçou 13 de 30. Tem apenas a sexta campanha como mandante. E a distância para a zona de rebaixamento é quase a mesma do que para o líder.


Essa enxurrada de informações negativas tem o objetivo de esclarecer o que alguns ainda evitam cravar: o Real Madrid está, sim, em crise. A temporada é, sim, até o momento, uma das mais tenebrosas do século. Por mais que, no Brasil, seja comum ouvir “o que importa é a Champions”, tal afirmação não condiz com a realidade. Semana a semana, o Real Madrid alterna entre desempenhos péssimos e resultados horríveis. Em todos os 37 jogos da temporada, se jogou bem em cinco, foi muito.


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Nacho foi um dos poucos que se salvou em nova derrota


Diante do Villarreal, um dos roteiros que mais se repete nessa agônica jornada: chances desperdiçadas, goleiro adversário se consagrando e defesa exposta. Os laterais pouco produzem na frente e deixam buracos atrás. Os meio-campistas não mais representam uma superioridade do Real Madrid em relação a qualquer rival. E os atacantes enxergam um gol minúsculo onde é impossível acertar o alvo e tirar do goleiro ao mesmo tempo.


Após uma temporada em que a equipe balançou as redes em 100% dos jogos, já são cinco nesta sem mexer no placar. Esses elementos retiram o que há de mais importante para um time que precisa ser competitivo em tempo integral: confiança.


Em 2016/17, o Madrid se destacou por ter convicção de que alcançaria seus objetivos e quase sempre consegui-los. As vitórias aos montes nos minutos finais eram a perfeita representação dessa característica. Já em 2017/18, o panorama se inverteu. Cada minuto que passa sem estar à frente no marcador aumenta o desespero dos jogadores, e o êxito parece inatingível.


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Dificuldade para marcar que nunca se viu


Quando um, dois ou três jogadores deixam a desejar, fica bem claro que os problemas se restringem a individualidades. Mas quando o elenco – de enorme qualidade – praticamente inteiro se mostra incapaz de produzir o que sabe, não deveria ser surpresa para ninguém que a crise está no plano do coletivo. Algumas informações a mais para referendar essa ideia: Morata já marcou dez gols na Premier League pelo Chelsea; Mariano possui 13 na Ligue 1 pelo Lyon. Em La Liga, os maiores artilheiros do Madrid marcaram míseros quatro tentos.


Mesmo nas partidas em que cria várias oportunidades, o time não dá a sensação de domínio. Prova disso é que, nos tropeços em casa, os adversários não precisaram de atuações maravilhosas para pontuar no Bernabéu, algo que deveria ser regra. O Villarreal conseguiu o 1 a 0 sem fazer muita força.


Considero extremamente superficial justificar a péssima fase – que já não é mais fase, é rotina – com uma suposta falta de vontade dos jogadores, que “não estão correndo” ou algo do tipo. É bem verdade que Marcelo vem pecando em demasia na recomposição defensiva, que Kroos está mais ineficiente do que nunca, que Isco não está desequilibrando, ou que Cristiano Ronaldo apresenta pífio aproveitamento nas finalizações. A maioria desses defeitos, porém, também é reflexo de um sistema em naufrágio. Dessa forma, todos os dedos apontam para um único alvo: Zinédine Zidane.


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Insiste em manter os olhos fechados


O francês segue prestigiado pela diretoria, e tem méritos para tal, mas a postura acomodada põe a credibilidade do treinador em xeque. E o passado reluzente não garante um futuro vencedor. Rodada após rodada, vexame após vexame, ele repete o discurso: nada está errado e o clube não precisa de reforços. É possível que esse posicionamento tenha o intuito de preservar seus jogadores, mas os próprios atletas admitem a necessidade de melhorias.


Nas atitudes, Zidane tampouco dá mostras de reação. O time é sempre igual – à exceção de desfalques – e as substituições são as mesmas em qualquer ocasião. Jogadores como Dani Ceballos pedem passagem e nunca recebem chances relevantes. A confiança nos reservas, uma das principais marcas da temporada passada, desta vez se limita a jogos menores da Copa do Rei. O técnico ainda não percebeu que deve se reinventar para manter o Real Madrid no topo. E será demitido ao fim de maio se mantiver os olhos vendados.


O título de La Liga já está perdido. A preocupação atual é pela vaga na próxima Champions League, que está em risco. Resta apenas um mês para as oitavas de final contra o PSG na competição continental. Com o nível atual, a soberania madridista na Europa corre sérios riscos. Na Copa, a equipe terá dificuldades para superar o Leganés nas quartas de final. A temporada ainda pode ser salva, mas essa façanha só será possível se o principal responsável se der conta do que deve fazer.