Zidane comete perigosa injustiça com Ceballos

A vitória por 3 a 1 sobre o Getafe foi tranquila. À exceção dos poucos minutos de instabilidade após pênalti duvidoso de Nacho recolocar os azulones no jogo, o Real Madrid teve total controle da posse e atuou com inteligência, já com o Parc des Princes em mente.


A água molhou, o fogo queimou e Cristiano Ronaldo decidiu. A recuperação do português foi o ponto de inflexão entre os primeiros meses da temporada e o momento atual. Antes de Cristiano engrenar, a dificuldade era enorme para superar a maioria dos adversários, principalmente em casa, e o time acumulou uma sequência de tropeços que o afastou do topo da tabela. Desde que CR7 recuperou sua forma goleadora, o Madrid passou a desperdiçar menos pontos e voltou a ganhar com certa naturalidade. Uma prova dessa dependência é que a equipe venceu todos os jogos nos quais o português balançou as redes em La Liga.


Mas a exaltação ao principal jogador e a celebração de uma vitória contra um adversário bastante organizado não são o foco dessa publicação. Nem o confronto decisivo com o PSG, ao menos diretamente.


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Muito talento, poucas chances


Na janela de transferências do verão europeu, o Real Madrid conseguiu Dani Ceballos, o craque da Euro Sub-23, por uma barganha: 16,5 milhões de euros. Uma aposta totalmente coerente com a filosofia de contratar os melhores jogadores jovens do mundo. Além disso, um reforço para preservar a soberania madridista no setor dominado por Kroos e Modric nos últimos anos, embora alguns acreditem tolamente que a contratação se deu por mera competição com o Barcelona.


O meio-campo também ganhou Marcos Llorente após empréstimo bem-sucedido ao Alavés. No começo da temporada, parecia haver uma receita pronta para a temporada. Casemiro, Kroos e Modric titulares e Llorente, Ceballos e Kovacic como os substitutos de cada um deles, respectivamente. Mas não era exatamente isso que Zidane estava preparando.


Sem Casemiro, o esquema se altera. Sem Kroos e/ou sem Modric, joga Kovacic. Contra o Getafe, com alguns jogadores poupados para a decisão de Paris, Marcos Llorente recebeu rara chance de iniciar uma partida contra um adversário de primeira divisão, na Liga. E Ceballos? Nem relacionado. É isso mesmo. Kroos e Modric machucados, jogo com rotações no elenco e ele sequer ficou no banco.


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Dois gols e partida no bolso contra o Alavés


Na temporada inteira, Ceballos só perde em minutos jogados para Jesús Vallejo, zagueiro que possui sério problema com lesões. Já o meia espanhol se machucou só uma vez, e não estava apto a atuar em apenas quatro das 45 partidas. Jogou em sete oportunidades como titular, sendo quatro delas contra equipes de divisões inferiores na Copa do Rei. Em um dos três jogos que iniciou contra adversários da elite, o pecado cometido foi decidir com dois gols um duelo apertado com o Alavés fora de casa.


Mesmo com pouquíssimo tempo para mostrar seu futebol, Ceballos aproveitou os minutos que recebeu para oferecer técnica, inteligência com a bola nos pés e passe qualificado. E nada de ser recompensado com oportunidades decentes. Na vitória por 3 a 1 sobre o Leganés fora de casa, a situação beirou o ridículo quando Zidane deu incríveis 28 segundos ao garoto em campo. Precisou pedir desculpas pela atitude.


Os escassos minutos de Ceballos seriam compreensíveis, caso se tratasse de um atleta recém-promovido ao profissional, ainda em fase de transição. Mas não é esse o caso. Chegou ao Real Madrid após duas temporadas como titular em La Liga, e uma delas em altíssimo nível. Para “aproveitá-lo” desse jeito, o empréstimo a outro clube da primeira divisão era o melhor caminho, assim como foi feito com Asensio. O próprio Betis demonstrou interesse em continuar com Ceballos por empréstimo, mas o Madrid fez questão de já tê-lo em definitivo.


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Na Copa do Rei, a maioria dos jogos de titular, como contra o Numancia


Chegamos à reta decisiva da temporada sem Zidane ter dado rodagem suficiente a Ceballos — e também a Llorente. Como consequência, a subutilização impede que o treinador considere colocá-los em campo nos jogos grandes, ainda que titulares do setor estejam lesionados. Caso Kovacic não renda o esperado, o francês vai olhar para o banco e achar dois jogadores com enorme potencial, mas que não foram preparados para esse momento ao longo da temporada. E, ainda assim, podem entrar e desempenhar um bom papel, pela qualidade de sobra.


O perigo de negligenciá-los dessa forma — principalmente Ceballos — é que diversas propostas chegarão na próxima janela de transferências. Na hora do atleta avaliá-las, vão pesar os poucos minutos jogados e a perspectiva de crescimento na carreira, em um clube que o permita desenvolver seu futebol. E assim o Real Madrid desperdiça um jovem talento. Pela má condução do treinador em um aspecto que supostamente é seu grande ponto forte. #FreeCeballos