Real Madrid não pode depender da sorte

O Real Madrid não jogou o suficiente para estar na final da Champions League. À exceção da segunda partida contra o Paris Saint-Germain, no Parc des Princes, raros foram os momentos em que a equipe transmitiu segurança em campo, sobretudo defensiva. Uma sensação constante de que estava sendo dominado e ficaria próximo da eliminação a qualquer momento. Até nos 3 a 0 em Turim foi assim, mas a bicicleta de Cristiano Ronaldo mudou o curso do confronto.


E mesmo diante de todas as deficiências demonstradas, aí está o Real Madrid para sua terceira final consecutiva de Champions. Muito por conta do desequilíbrio que muitas das individualidades causam, é claro. Ou por conta do pacto com entidades subterrâneas, como alguns gostam de dizer. Dos três times finalistas — quase iguais em jogadores, muito diferentes em coletivo — este é, de longe, o mais caótico.


Em 2015/16, o pragmatismo garantiu La Undécima. Em 2016/17, brilho e enorme superioridade nos grandes duelos para faturar La Duodécima. Em 2017/18, Zinédine Zidane passou longe de encontrar uma formação sólida que explorasse todo o potencial do grupo e tornasse a equipe segura. A prova cabal está na classificação de La Liga: ridículos 15 pontos de distância para um Barcelona que é, no máximo, bom. E uma eliminação vexatória para o Leganés na Copa do Rei, em pleno Santiago Bernabéu.


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Um dos grandes responsáveis pela classificação


Um desempenho muito abaixo do que se esperava no início da temporada. A expectativa era de ampliar os domínios doméstico e internacional, e com o Real Madrid fazendo valer essa soberania a partir de um alto nível de atuações. Nem chegou perto disso. E as oscilações em termos de resultados só diminuíram quando Cristiano Ronaldo voltou a fazer gols e decidir jogos com regularidade.


A classificação contra o Bayern na semifinal da atual edição foi totalmente diferente do avanço nas quartas de final de 2016/17. Naquela ocasião, o Madrid foi melhor que os alemães em três dos quatro tempos e se classificou com todos os méritos, em que pese a péssima arbitragem para ambos os lados. Neste ano, o período de pressão adversária, a todo momento rondando e entrando na área, durou duas eternidades. E a sorte e a atuação de Keylor Navas eram tão gigantes que o goleiro certamente defenderia o pênalti ignorado pelo juiz após Marcelo colocar a mão na bola. Falo com tranquilidade.


Mas nada ilustra melhor essa “sorte” do que Karim Benzema marcar um doblete decisivo na partida mais importante da temporada — tirando a final de 26 de maio, é claro. É uma lástima que esse seu lado goleador só tenha reaparecido agora. É o sexto maior artilheiro da história da Champions. Só que a fase era de dar pena, e a confiança do camisa 9 ocupava um lugar desconhecido. O madridismo inteiro espera que essa noite marque um antes e depois para o francês.


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Aleluia!


Assim como deveria marcar um antes e depois para Zidane, que não pode ficar refém do imponderável e da capacidade de sua equipe “saber sofrer”. O discurso é bonito e cola para quase todo mundo, mas um técnico de alto nível não pode se prender apenas a isso caso queira estender seu legado no clube e no futebol. De fato, saber sofrer e resistir mentalmente são recursos fundamentais na hora de encarar rivais do porte de Juventus e Bayern, mas não precisava sofrer tanto.


E é o histórico campeão do Real Madrid que me permite fazer essa enorme ressalva em meio a resultados raramente alcançados por qualquer um na história do esporte. Eliminar grandes adversários e ganhar a Champions League sempre será maravilhoso, é claro. Só que o o Real Madrid pode — e deve — jogar mais do que vem jogando. As conquistas serão ainda mais naturais e farão do clube ainda mais soberano do que já é.