Zidane mostrou que conhece o Real Madrid como ninguém

Sem tempo para escrever logo depois de La Decimotercera, eu pensava qual aspecto abordar para não fazer um texto que já nascesse ultrapassado. As atuações exuberantes de Varane, Ramos (não entro no mérito do lance com Salah), Benzema, Bale, a dúvida plantada por Cristiano Ronaldo, a soberania que só cresce na Europa mesmo sem um coletivo de encher os olhos. Até que, anteontem, tive um estalo ao repassar notas antigas do meu celular.


Em uma que datava de 8 de janeiro de 2016, guardei as principais declarações de Zidane em sua primeira coletiva como treinador do Real Madrid. "Boa pauta", pensei. Resgatar algumas frases e trazê-las à luz dos dias de hoje para saber o que foi cumprido e o que ainda faltava cumprir.


"O papel que vou ter é dar confiança total aos jogadores. Para mim, o mais importante é o grupo. É normal e vai acontecer que uns joguem mais do que outros". "O que vou fazer é melhorar os jogadores a cada dia. Eles têm uma margem de melhora impressionante. O que quero é transmitir que todo mundo é importante. Os jogadores têm um bom desempenho (nos treinos) porque estão comprometidos dentro de uma grande energia coletiva e, entre eles, se complementam muito bem dentro do vestiário”. Essas palavras talvez resumam os dois anos e meio de Zizou no comando técnico. Parecem premonição.


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Ao lado de Butragueño, na coletiva em que antecipou seus passos


Estava tudo adiantado para ontem, quando eu faria uns ajustes finais e compartilharia a reflexão aqui neste espaço. Dormi muito, já que o feriado me permitiu várias horas de sono a mais do que o habitual. Lá pelas tantas, minha mãe me acorda com uma porrada (figurativamente, é claro). “Zidane saiu, né? Tão falando no rádio”.


A primeira fase foi a da negação. Afinal, repercutem cada besteira da mídia lá de fora aqui no Brasil, então devia ser mais uma dessas especulações miseráveis, acentuadas nesta época do ano. Mas depois não tive raiva. Não era luto o que eu sentia.


No futebol, reconhecer fraquezas logo depois de um título enorme é bastante raro. Abrir mão de um contrato milionário com total respaldo da diretoria e da maior parte da torcida chega a soar como insanidade. Mas a decisão de Zidane foi carregada de inteligência, sabedoria e humildade. Um cenário semelhante ao de sua aposentadoria como jogador, em 2006.


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Três de três


O francês provou ter total conhecimento do que deu errado na temporada recém-terminada. Ele sabia da responsabilidade de terminar 17 pontos atrás do Barcelona em La Liga, e de cair em casa para o Leganés nas quartas de final da Copa do Rei. E admitiu que não se sentia capaz de manter a equipe em alto nível nos próximos anos. Nível esse que ele havia prometido logo após ser efetivado como técnico.


A escolha foi a melhor possível para todas as partes. O desgaste sob o comando de Zidane ficou nítido, dada a dificuldade de o time manter atuações regulares, inclusive na Champions League. E uma transformação desse quadro com o mesmo homem na dianteira era improvável.


Zizou não queria o melhor para ele. Queria o melhor para o Real Madrid. Porque tem em suas veias a mentalidade vencedora da instituição. Por isso, nem Florentino Pérez o convenceu do contrário ao ser comunicado da decisão.


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Relação vitoriosa


Em um período dominado por técnicos que são cada vez mais protagonistas, Zidane marcou época por permitir que cada jogador brilhasse à sua maneira. Havia algo de desorganização por causa disso, mas também muito da confiança que ele transmitiu a seus pupilos.


Falar da evolução de cada jogador desde que Zidane assumiu o Madrid renderia um texto inteiro. Varane, Nacho, Marcelo, Casemiro, Kovacic, Isco, Lucas Vázquez, Asensio e Cristiano Ronaldo são os maiores exemplos, cada um de formas diferentes. Sobre o volante brasileiro, por sinal: “Makélélé não joga mais, mas tenho outros jogadores no meu plantel que podem dar equilíbrio”, disse Zidane na primeira coletiva. Outra das afirmações que se provaram com o tempo.


E até os atletas que não estavam exatamente em sua melhor forma, ou careciam de minutos em campo, seguiram com 100% de comprometimento. A magistral gestão de elenco de Zidane acabou sendo a principal responsável pelo sucesso em 2016/17 — a melhor das duas temporadas e meia — e pela sobrevivência em 2017/18. Todos tinham confiança de sobra e estavam preparados para triunfar mesmo nos contextos mais desfavoráveis.


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Até logo


A transição agora é imprevisível. Pela primeira vez, Florentino e sua cúpula se veem obrigados a escolher um novo treinador sem que este seja o desejo. Mas deixarei para comentar as possibilidades em outro texto, a não ser que o Pochettino seja anunciado até lá.


Os agradecimentos a Zidane, que já eram muitos pelos seus feitos como jogador, tornaram-se eternos pelo que agregou como técnico. O que era um risco de queimar sua imagem se converteu em extensão de seu legado. As portas ficaram abertas e o dia do retorno fatalmente chegará, para assumir a liderança entre os mais vencedores da história do clube. Gracias, Zizou.