O Real Madrid tem vocação para ser vilão

Pensa naquele ator que você já imagina fazendo maldade em algum filme ou novela só de olhar para cara do sujeito. Algo como um Willem Dafoe. É muito fácil para qualquer diretor ou autor colocar esse cidadão num papel de antagonista. Todo mundo vai comprar a ideia, seja qual for a trama.


No futebol atual, toda polêmica caminha para um desfecho que expõe as malvadezas e vilanias do Real Madrid. As narrativas sempre se encaixam. Enquanto o resto do mundo luta por um esporte totalmente ilibado e fiel a todos os bons costumes, esses malditos sempre chegam para estragar tudo no fim do dia. A diferença é que, nesse caso, o vilão é quem sempre — ou quase sempre — se dá bem no final. A Europa vive uma triste fase em que o Mal impera há três temporadas.


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O sorriso malévolo já contamina Lopetegui


Parece até mentira, mas não é a primeira vez que um clube paga uma cláusula de rescisão prevista em contrato para contar com os serviços de um técnico ou jogador. Você não vai acreditar nessa loucura, mas também não seria a primeira vez que um treinador comandaria uma seleção em torneio importante já acertado com um clube — e em nenhum dos principais casos (van Gaal, Conte) a transferência afetou o desempenho.


É evidente que comunicar à federação cinco minutos antes do anúncio oficial não é das decisões mais sábias. Nem precisa somar dois mais dois para ter conhecimento disso. Mas o presidente da RFEF resolveu mostrar que, logo depois de assumir, ele é quem manda na Espanha. E que vá pro escambau o desejo dos jogadores a dois dias da estreia na Copa. Se o clima já está ruim, por que não estragar tudo de uma vez?


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Sentou na janela


Tudo perfeito para mais um festival de bravataria. Óbvio que já sobrou até pro Sergio Ramos, esse verdadeiro anticristo do futebol.


Desfecho caótico à parte, se é que dá para fazer isso, a contratação de Julen Lopetegui é uma surpresa que faz todo o sentido. Assim como a saída de Zidane, a (futura) chegada do novo treinador ao Real Madrid se deu sem nenhum prenúncio, apesar de ter toda a lógica do mundo.


Nem uma simples especulação antes do anúncio oficial, algo raro em uma época de vazamentos e de chutes a torto e a direito. Uma negociação silenciosa que ressalta a seriedade e a competência do trabalho executado por Florentino Pérez, José Ángel Sánchez e cia. E que talvez explique porque houve uma tempestade em copo d'água por parte dos veículos espanhóis. 


Lopetegui, obviamente, não era a primeira opção para o cargo. Mas ainda não foi dessa vez que os caminhos de Real Madrid e Mauricio Pochettino se cruzaram — infelizmente. A extensão de acordo recém-assinada com o Tottenham inviabilizou a transferência que seria quase unânime entre o madridismo.


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Não foi dessa vez


Dadas as impossibilidades causadas por contratos vigentes com grandes clubes ou estilos que causariam uma ruptura muito grande com o padrão de treinadores do Madrid, a lista de opções decentes e viáveis ficou minúscula. Justamente por esse aspecto, não há como negar a coerência de contratar um técnico que já passou pelo clube como jogador e treinador do Castilla, tem a confiança e o respeito de alguns dos principais jogadores do elenco, está respaldado pelo ótimo trabalho na seleção e identifica-se totalmente com a filosofia de apostar em jovens promessas.


A transição da equipe já está em andamento. Mas aí entra o fator Cristiano Ronaldo. Não há como planejar as futuras temporadas sem saber se ele ficará — tomara que fique. Com Cristiano, é improvável que haja uma grande transformação, visto que o time manterá um modelo que deve boa parte das conquistas a sua maior estrela. Sem Cristiano, é hora de avançar de vez para a etapa seguinte do processo. Uma grande estrela consolidada (aka Neymar) viria para seu lugar? Ou a aposta seria em desenvolver um conjunto forte de talentos, rodeados dos craques consagrados remanescentes? Nesta última opção, um obstáculo bem semelhante ao que ele superou com maestria na Espanha.


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Eterna indefinição


Ainda que Cristiano Ronaldo fique, Lopetegui terá, de cara, a missão de extrair o melhor e aumentar gradativamente a importância de Jesús Vallejo, Theo Hernández, Marcos Llorente, Dani Ceballos e Marco Asensio. E também de tomar uma decisão a respeito de Vinícius Júnior, que pede passagem, ao menos, como uma opção esporádica entre os reservas. Tudo isso deverá ser natural para alguém com a experiência de ter comandado com sucesso as seleções espanholas de base.


A principal ressalva em relação ao novo técnico está no desempenho aquém das expectativas pelo Porto, o único clube treinado por Lopetegui, à exceção de uma rápida passagem pelo Rayo Vallecano em 2003/04. Para um time que precisa urgentemente voltar a vencer ligas nacionais com regularidade, é um tremendo risco. Mas o desempenho da Espanha, invicta nos 20 jogos sob seu comando, alivia boa parte desse temor.


E ele que se cuide da pressão externa que vai sofrer — já sofre — pelo crime de ter aceitado uma proposta irrecusável. Já seria uma barreira a superar por conta dos resultados que seu antecessor atingiu. Agora, mais ainda, pelo circo midiático que foi montado. Suerte, Lopetegui.