Sem CR7, é hora do Real Madrid completar sua revolução

Os boatos de temporada - sim, temporada - também surgiram mais fortes do que nunca nos últimos dias. Muito pela declaração que o próprio atleta deu logo após a final da Champions League, contra o Liverpool. Pela enésima vez desde que foi apoteoticamente apresentado no Santiago Bernabéu, Cristiano Ronaldo estava de malas prontas para deixar o Real Madrid. A especulação com a Juventus me pareceu, de cara, uma das mais absurdas entre todas elas. Por mais que eu transmitisse ceticismo a quem tocasse no assunto, o medo só aumentava com o passar das horas. Até que, ontem, veio o tiro de misericórdia com o comunicado lançado no site oficial.


É impossível negar que fica uma parcela de profunda decepção por essa transferência. Depois de tudo que clube e jogador passaram juntos, de todo o apoio que a instituição Real Madrid, em todas as suas esferas, deu a seu principal jogador nas últimas nove temporadas. E com uma renovação de contrato até 2021, assinada há menos de dois anos.


Mas Cristiano Ronaldo é uma figura totalmente complexa. Aos 33 anos, seguia em altíssimo nível, com o grande auxílio de uma equipe montada em torno dele. Tudo terminava nas finalizações quase sempre precisas de Cristiano. Uma fórmula mágica que rendeu 450 gols ao Real Madrid em 438 jogos. Ninguém havia feito tantos na história do clube mais importante do futebol.


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Um temido e doloroso adeus


E mesmo com tudo a favor para manter o cenário mais cômodo para todas as partes, ele quis deixar o clube. Os motivos reais dificilmente virão a público, mas especula-se um descontentamento com Florentino Pérez pela dificuldade em renovar mais uma vez seu contrato.


Ceder a pedidos de sua principal estrela é uma prática comum no futebol, mas uma chantagem contínua tornaria a relação nada saudável com o passar dos anos. E renovar o contrato de um jogador como quem troca de roupa pode ser prática comum lá para outros lados, mas está longe de ser a postura do Real Madrid.


Não quero me prender a uma numeralha que você já deve ter lido em quinhentos lugares diferentes desde que os primeiros boatos da transferência começaram a pipocar. Só que um levantamento de Cristiano Ronaldo no mata-mata da Champions League desde que chegou ao Madrid, em 2009, é suficiente para sintetizar sua magnitude.


Nas últimas nove edições da principal competição interclubes do planeta, o Real Madrid participou de 29 confrontos eliminatórios, incluindo as quatro finais do período. Foram 54 jogos, nos quais a equipe marcou 112 gols. E desses 112, Cristiano Ronaldo foi responsável por nada menos que 53 — uma singela porcentagem de 47%. Vinte e um gols nas oitavas, 19 nas quartas, dez nas semis e três nas finais.


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Uma besta enjaulada com ódio


E outra coisa: de todos esses 54 jogos de mata-mata da Champions em nove anos, ele esteve fora de apenas DOIS. Na volta das quartas de final contra o Borussia Dortmund em 2013/14 e na ida da semifinal contra o Manchester City em 2015/16, ambos por lesões. Não por acaso, o Real Madrid passou em branco nos dois jogos.


Eu vou repetir para não' deixar qualquer dúvida: em 54 jogos do Real Madrid no mata-mata da Champions League, desde 2009/10, Cristiano Ronaldo esteve em campo em 52. E fez 53 gols. A média de mais de um gol por jogo no clube não é inflada por bolas na rede de times pequenos de La Liga. Cristiano fez gols e mais gols contra qualquer adversário. Inclusive contra os mais importantes, no torneio mais importante. Como frisei após os 3 a 0 contra a Juventus — maldita Juventus —, quando tudo parecia um interminável conto de fadas, é a combinação jogador-clube-torneio mais forte da história do futebol de alto nível.


Por tudo isso, é importante esclarecer que Cristiano Ronaldo NÃO TEM substituto. Ficar procurando alguém que assuma sua posição e faça exatamente o que ele fazia será inútil. E nem Asensio nem Bale, para citar alguns dos cotados no elenco atual, preencherão esse vazio. O português se despede do Real Madrid como o segundo jogador mais importante da história do clube, de forma disparada. Isso porque Don Alfredo Di Stéfano é inigualável, por todas as circunstâncias que precisariam de outro texto para serem explicadas.


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O destino é cruel


Recorrer ao discurso do “jogadores passam, clube fica” é extremamente superficial nesse caso. Funciona como clichê para reforçar o orgulho pelo time, mas Cristiano marcou uma era. E essa era acaba de chegar ao fim. O que fazer de agora em diante? Chorar? Sim, um pouco. Mas também é hora de completar a transição que já está em curso.


Faz tempo que o Real Madrid deixou de lado as contratações galácticas e concentrou seu foco nas jovens promessas ao redor do mundo, sem medir esforços econômicos para adquirir esses talentos. Vinícius Júnior e Rodrygo que o digam. Florentino vai manter essa postura mesmo sem o símbolo máximo de seu segundo mandato como presidente? É o que saberemos nos próximos dias, quando crescerão os rumores acerca de Neymar, Hazard, Mbappé e cia.


Contratar é obrigatório para o Madrid seguir como maior favorito de tudo o que disputar. Cristiano Ronaldo era responsável por uma cota de gols que ninguém do atual elenco é capaz de segurar. Pode ser o momento de apostar em um centroavante goleador, ao contrário do que Benzema representa nos dias de hoje — ainda é importante para a equipe, vale ressaltar. Kane e Lewandowski são os que mais se encaixam nesse perfil. Para levar o primeiro, o Tottenham sangraria o Real Madrid até não poder mais. E o desempenho do segundo em jogos grandes deveria deixar a diretoria com os dois pés atrás em uma possível transferência.


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A certeza virou dúvida


Há oito meses, escrevi aqui que Neymar seria o herdeiro perfeito de CR7 no Real Madrid. E dentro de campo é ele mesmo quem mais pode chegar perto dessa condição. Hoje, porém, tenho totais dúvidas da minha própria afirmação. Zidane no vestiário era um seguro de vida contra os problemas extracampo que acompanham o brasileiro desde sempre. Sem Zizou, o impacto de todo o pacote Neymar é incalculável, afinal a gestão de Lopetegui ainda é uma incógnita.


No cenário ideal, Hazard + Mbappé é a equação capaz de solucionar uma parte dos problemas causados pela saída de Cristiano. No mundo real, sabemos que a contratação da dupla é utópica. É enorme a falta que faz, agora, o próprio Mbappé, depois da tentativa fracassada de trazê-lo na última janela europeia de verão. Ainda assim, a Copa do garoto mostra que todo esforço é válido para seguir correndo atrás dele.


Ao fim e ao cabo, todas essas variáveis passarão pelo crivo de Julen Lopetegui. Depois da turbulência de sua chegada, o técnico agora será o responsável por tocar adiante a revolução que teve seus primeiros sinais na nova política de contratações e foi deflagrada pelo adeus de Cristiano Ronaldo. É tempo do Real Madrid virar uma extensa e gloriosa página. Para nossa sorte, Carvajal, Varane, Sergio Ramos, Marcelo, Casemiro, Kroos, Modric, Isco e cia continuarão na busca por escrever outros capítulos vitoriosos na história do clube. E vida que segue.