Deixa que digam: Modric é o melhor do mundo

Ano após ano, crescia a demanda para que o prêmio de melhor jogador do mundo fugisse do oligopólio estatístico extraterrestre de Cristiano Ronaldo e Messi. Pois bem, esse momento finalmente chegou. Graças a alguém que sintetiza tudo de melhor que aconteceu no futebol na última década, à parte dos gols e mais gols e assistências e mais assistências da dupla que criou uma soberania nunca antes vista.


Na era dos números, é totalmente compreensível que esses dados, de fato, tenham grande importância para uma eleição individual. Mas o futebol vai muito além disso. E o desempenho na década, é claro, não pode ser motivo para a eleição do melhor de UMA temporada. Não foi o caso, embora colabore para a sensação de felicidade com a justiça sendo feita.


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O troféu do merecimento


Imagine você que exista um meio-campista capaz de transformar em ouro todos os seus toques em qualquer parte do campo. Alguém que determine a partir de seus pés e de sua mente a qualidade de atuação de toda uma equipe — e de uma seleção. A equipe que ganhou quatro Champions League das últimas cinco. A primeira a vencê-la em sua nova era por três vezes consecutivas. E na única eliminação das últimas cinco, ele estava fora por lesão. A seleção que atingiu uma final de Copa do Mundo de forma inédita, deixando campeãs pelo caminho.


O prêmio é individual, mas é necessário reforçar os feitos do time e da seleção porque um jogador é a pedra fundamental na construção de ambos.


A temporada 2017/18 realmente não foi a melhor da carreira de Luka Modric, tecnicamente falando. Ainda assim, o nível apresentado foi de quem está acima de qualquer outro na posição há vários anos. Enquanto diversos meias se destacam pela excelência em determinados aspectos, Modric é a soma de todos esses aspectos.


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Quatro de cinco


Comecemos pelo campo de defesa. Ali bem perto da área, onde ele sabe se posicionar ou dar o bote se for necessário. Ao recuperar a posse, tem um arsenal de possibilidades para colocar o time no ataque e criar situações de superioridade. E faz parecer todas simples ao eleger a melhor. Movimentação inteligente, eficiência para aliviar a pressão, lançamento preciso ou arrancada com a bola nos pés. Todos esses elementos, repito, em um jogador só.


Mas se o time vai fazer uma marcação agressiva, pressionando a saída adversária, não tem problema. Pois o mesmo jogador que sabe dar o combate lá atrás também consegue sufocar o rival em campo contrário como ninguém.


E mesmo dentro das oscilações inerentes a qualquer um do plano terrestre, nunca faltaram essas características no jogo de Modric ao longo da temporada pelo Real Madrid e pela Croácia. Fechar os olhos para essa realidade é um desserviço ao futebol.


Por falar em plano terrestre, foi também em 2018 que se destacou uma versão mais humana do croata. Um vilão em potencial que desperdiçou um pênalti na prorrogação de uma partida de oitavas de final de Copa do Mundo. Um vilão em potencial que, poucos segundos depois, já estava preocupado em encontrar a melhor forma de se recuperar. E que teve a coragem típica dos grandes para pegar a bola e converter sua cobrança na disputa decisiva.


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Uma trivela que conquistou o mundo


O simbolismo é outro ponto essencial para entender por que quase um terço dos capitães, treinadores e jornalistas que formam parte do colégio eleitoral escolheram alguém para receber a honraria máxima do futebol no âmbito individual.


E você tem o direito de achar que qualquer outro jogador foi o melhor da Copa, ou até mesmo que algum outro croata tenha sido o melhor da seleção, afinal vivemos numa democracia — e espero continuar vivendo. Mas a cara da maior surpresa do Mundial em vários anos foi a de Luka Modric. Porque representou a capacidade de triunfar de diferentes maneiras. Pela técnica, pela tática ou pela força de vontade. E a cara do melhor do mundo também. A história já foi escrita: Modric é um dos grandes do futebol.