A dupla que reanimou o Real Madrid

O Real Madrid de Santiago Solari virou o ano como um paciente terminal. Desorganizado, ineficiente e frágil, a enganação do Mundial de Clubes rapidamente ficou para trás após dois tropeços contra equipes da parte de baixo da tabela de La Liga - Villarreal e Real Sociedad. Não é que o time tenha evoluído, nas últimas semanas, a ponto de ser real candidato ao tetracampeonato da Champions, mas a entrada de Vinícius Júnior produziu o impacto da descarga elétrica de um desfibrilador. Aquela mesma que você acompanha com o coração na boca quando alguém está prestes a morrer em sua série médica favorita.


Um choque tão forte que foi capaz de ressuscitar, também, este blog. E antes de me aprofundar no tema do texto, já peço desculpas pelo longo e tenebroso inverno sem publicações. O que menos faltava era motivo para criticar o Real Madrid e assunto para estimular a corneta, mas uma sequência de obrigações acadêmicas e profissionais me impediu de tratá-los por aqui.


Mas enfim.


O futebol apresentado por Vinícius é absurdamente impróprio para um garoto de 18 anos. Há de ser levada em conta a limitação de alguns dos adversários, é verdade, mas se trata de um brilho crescente no maior clube do mundo, contra equipes da primeira divisão de uma das principais ligas do planeta. Jogo a jogo, Vinícius Júnior expõe os infelizes que insistiam em uma lamentável comparação com outra certa promessa do Flamengo, que não vingou no futebol.


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Olho no gol


Era utopia imaginar uma adaptação tão rápida como a de agora. No pico do meu otimismo, esperava, para esta temporada, uma alternância entre Castilla e equipe principal, com participações pontuais no time de cima e mais frequentes de acordo com o nível apresentado. Pois bem, não é que Vinícius tenha pedido passagem; ele escancarou a porta que vinha sendo teimosamente trancada por Julen Lopetegui, e obrigou Solari, à base de dribles, assistências e gols, a escalá-lo.


Como não estou nem um pouco a fim de conceder méritos ao técnico, pois o Real Madrid ainda coleciona defeitos, o destino abriu um largo sorriso para Vinícius com as lesões de Bale e de Asensio. Sem mais pontas de origem no elenco, além de uma birra inexplicável de Solari com Isco, a vaga caiu no colo do brasileiro. Poucos toques foram necessários para se transformar em unanimidade na exigente plateia do Santiago Bernabéu.


Vinícius Júnior é drible, é velocidade, é ousadia, é verticalidade, é fantasia. Assim que domina a bola, o único objetivo é o gol, e é para lá que seus olhos apontam. Se vai limpar a defesa, cruzar, finalizar ou enfiar, não importa: Vinícius aproxima o Real Madrid da meta adversária em cada ação. Características que andaram em falta mesmo durante a vitoriosa trajetória dos últimos anos. No começo desta temporada, sem os gols de Cristiano Ronaldo, nem se fala.


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A redenção do 9


Além do impacto individual imediato, o brasileiro encontrou em Benzema, incontestavelmente o melhor do time em 2018/19, o parceiro ideal para seu jogo – e vice-versa. Vinícius lê muito bem as movimentações de Benzema, e preenche os espaços que o francês deixa quando sai da área para se associar aos demais companheiros.


Nos terríveis momentos vividos pelo Madrid nos últimos meses, o camisa 9 sentia falta de alguém com esses atributos – tão perfeitamente executados por Cristiano Ronaldo ao longo de anos e anos. Vinícius Júnior, é claro, ainda está bem longe de ser Cristiano. Para chegar ao menos perto dos números do português, precisará evoluir bastante de frente para o gol, onde está o grande porém de sua ascensão meteórica. Não que sua finalização seja uma catástrofe, mas certamente tem a evoluir.


A comparação, aqui, diz respeito à compatibilidade com Benzema, cujo nível é uma das grandes surpresas de 2018/19. Aos 31 anos, após duas temporadas em que esteve bem abaixo, Karim joga como o verdadeiro dono da camisa 9 do Real Madrid. Além do já conhecido talento na organização das jogadas, tem dado à equipe aquilo que mais se cobrava: gols. São 18 em 35 jogos, número que lhe confere o posto de segundo maior goleador do futebol espanhol nesta temporada — não preciso dizer o nome do primeiro.


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Carne e unha, alma gêmea


Mantido o rendimento da dupla, somado à recuperação de jogadores fundamentais como Sergio Ramos, Casemiro e Modric, forja-se uma improvável luz no fim do túnel de uma temporada, até então, marcada por humilhações e tragédias. Falta, ainda, encontrar o terceiro elemento do ataque. Lucas Vázquez é esforçado, já mostrou em diversas oportunidades ser uma peça útil para o elenco, mas não tem capacidade de ser titular absoluto. Bale, em tese o dono da vaga, precisa da tão sonhada sequência com regularidade de atuações. O mesmo vale para Asensio.


Outro fator positivo tem sido o desempenho dos jovens (além de Vinícius). Odriozola (23), Reguilón (22), Marcos Llorente (24) e Ceballos (22) em nada estão devendo aos medalhões de suas posições. Reguilón, inclusive, tomou com justiça o posto de titular antes ocupado por Marcelo.


Chegou fevereiro, chegou o Real Madrid. Já virou rotina. Mas a prova de fogo está por vir. Será um mês de confronto eliminatório com o Barcelona na Copa do Rei, clássico com o Atlético por La Liga e oitavas de final da Champions contra o Ajax. Hora de Solari, mais do que nunca, escalar quem está jogando melhor, e não quem tem o nome mais pesado. Hora de mostrar que está preparado para o cargo.