O vexame que dá fim a uma era no Real Madrid

O Real Madrid completou ontem, quarta-feira, 117 anos da mais gloriosa história do futebol mundial. E em todos esses 117 anos, dificilmente houve uma semana tão dura como a que acabou de passar. O aniversário representa, de fato, o fim de um ciclo e o início de outro.


A era melancolicamente encerrada na terça foi extremamente vitoriosa. Mais de mil dias como rei da Europa. A etapa iniciada ontem ainda é imprevisível. Qual será o estilo da equipe? Quem será o líder dentro de campo? E fora dele? Haverá mudanças drásticas no elenco? Tais questionamentos vindos à tona no começo de março, com dois meses de temporada por jogar, deixam bem clara a gravidade da situação.


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Um vexame gigantesco – e merecido


O temor de passar por dificuldades sem uma reposição para Cristiano Ronaldo existia. E negar a óbvia influência dessa escolha no desastre em que se transformou a temporada é tapar os olhos para a realidade. Mas também é tapar os olhos para realidade concluir que todos os milhares de problemas do Real Madrid são única e exclusivamente por esse motivo. As três chances de título pulverizadas em apenas uma semana — encerrada com uma eliminação absolutamente vergonhosa dentro de casa para um time que, sim, jogou muita bola, mas é extremamente inferior — são fruto de uma série de decisões erradas que não condizem com a história (antiga e recente) da instituição.


De cima a baixo, do presidente aos jogadores experientes, (quase) todos têm sua parcela de culpa na sequência mais vexatória da equipe em toda a década. E uma humilhação que, neste século, talvez só fique atrás do Alcorconazo. De sangue quente, depois de uma pancada com essas proporções, a reação inicial foi pedir a cabeça de todo mundo. Uma reformulação completa. Ao juntar os cacos, no entanto, vale refletir com mais calma sobre o processo que se desencadeará nos próximos meses.


O ponto mais elementar é o do grupo de jogadores. E não me parece prudente virar o time de cabeça pra baixo. Courtois, Carvajal, Varane, Ramos, Casemiro, Kroos, Modric e Benzema, titulares com mais experiência, possuem totais condições de acrescentar um rendimento de alto nível à equipe. Isco, por sua vez, certamente recuperará prestígio com um técnico que não ignore sua existência. Os jovens foram todos ótimas notícias, principalmente Reguilón, Llorente e Vinícius Júnior, que tornaram-se titulares com muitos méritos. O segundo, lamentavelmente, perdeu as partidas decisivas por lesão.


Casos especiais, como os de Marcelo e de Bale, realmente aparentam ser típicos de fim de trajetória. O brasileiro, com 30 anos, ainda tem lenha para queimar, e seria incrível acompanhar mais uma de suas voltas por cima no Madrid, mas todo o desgaste pelo qual vem passando deve pesar ao fim da temporada.


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Fim da linha


A situação do galês é mais simples. Falhou na hora de assumir o protagonismo que dele era esperado. Foi uma figura crucial na maior parte dos títulos recentes, com gol(aços) históricos, e será sempre lembrado por esses momentos inesquecíveis. Nunca alcançou, porém, a tão sonhada regularidade em alto nível, seja por lesões ou por oscilações técnicas. Uma boa venda ao futebol inglês viria a calhar como forma de viabilizar a contratação de outra estrela, capaz de elevar o patamar da equipe.


O tema reforços, entretanto, é mais complicado do que parece. É o óbvio ululante a necessidade de, ao menos, um jogador que garanta mais de 30 gols por temporada. Assim como deveria ser prioridade a procura por alguém que assuma a responsabilidade e tenha condições de conduzir a equipe a títulos.


Neymar, Mbappé, Hazard, Kane, Icardi. Sobram opções que se encaixam nesses quesitos e já foram especuladas. O problema é que, por decisão de Florentino Pérez, o Real Madrid deixou de ser o clube das contratações de impacto. Todas as aquisições mais recentes foram de jovens com potencial. Eu, você e a torcida inteira sabemos que é preciso abrir exceção para solucionar os problemas relatados. Mas Florentino vai dar o braço a torcer? Sinceramente, não sei. Essa dúvida se estenderá até a abertura da janela. Só que é essencial esperar a definição do novo técnico para planejar as ações no mercado de transferências.


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Três anos de contrato


Parece mentira, mas ainda há, oficialmente, um cidadão empregado como "treinador" do Madrid. O contrato, inexplicavelmente, é de três (TRÊS!) temporadas. Vai ser difícil, ao longo de décadas e mais décadas, alguém justificar esse absurdo. E o fato é que Santiago Solari chegou a – me – enganar na pequena sequência de vitórias e boas atuações no começo de 2019. Não que alguém tenha acreditado estar surgindo ali um gênio da profissão. Eram apenas alguns bons indícios em meio a várias falhas, que desabaram como um castelo de cartas quando o calo apertou. A demissão, portanto, é mera questão de tempo.


Já começou a busca pelo próximo corajoso. E nesse futuro distópico ao qual estamos presos, até Zinédine Zidane aparece fortemente cotado para assumir o comando da equipe. De antemão, afirmo que a ideia não me agrada nem um pouco. Deixo o assunto engatilhado para o próximo texto, em que analisarei mais detalhadamente as possibilidades para o cargo. Sinta-se à vontade para sugerir seu preferido até lá.


Voltamos a qualquer momento.