Volta de Zidane é um erro do Real Madrid

Buscar no passado a solução para problemas do presente é o que há de mais retrógrado no futebol. Foi esse o caminho que o Real Madrid resolveu seguir com a contratação de Zinédine Zidane, apenas nove meses depois de o francês pedir demissão. A assumida incapacidade de resolver ditos problemas, que se multiplicaram desde então, foi o principal motivo de sua saída. O que leva, portanto, alguém a acreditar que Zidane seja capaz de superar as adversidades que ele mesmo colocou como obstáculos para sua permanência? A incoerência e a absoluta falta de lógica são gritantes.


Os méritos do último trabalho são inegáveis. E ninguém em sã consciência os questiona. A partir de uma gestão de elenco próxima da perfeição e do aprimoramento individual de jogadores cruciais, atingiu uma sequência inimaginável de títulos europeus, além de todos os Mundiais e Supercopas possíveis e da valiosa Liga de 2016/17. Entendo, também, o entusiasmo pelo retorno de uma das figuras mais identificadas com o madridismo em toda a história, especialmente neste século. Inclusive enalteci essa característica no momento da sábia decisão de se retirar do cargo.


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Legado difícil de superar


São várias as boas recordações do período entre 2016 e 2018. Eu mesmo sinto saudade da elegância na beira do campo e da fala mansa nas coletivas. Mas é preciso tomar cuidado com a memória seletiva. Zidane nunca excedeu expectativas em alguns dos aspectos fundamentais para um treinador. A força mental da equipe nas grandes partidas, fruto do trabalho do francês, atenuou problemas coletivos que cobravam o preço nos jogos cotidianos.


Embora o Real Madrid tenha empilhado taças no período, raramente apresentou um futebol convincente de forma regular. A exceção foi a ótima sequência no primeiro semestre de 2017. Nos compromissos semanais por torneios domésticos, Zidane se mostrou incipiente em termos táticos, seja pela desorganização defensiva ou pela falta de criatividade do ataque, quase sempre dependente de brilhos individuais e de cruzamentos aos montes para Sergio Ramos, Cristiano Ronaldo e cia.


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Foram muitos títulos, mas também vários problemas


Para recuperar o prestígio abalado pela desastrosa temporada que ainda se arrasta, Florentino Pérez deveria entregar o comando do time a alguém capaz de desenvolver um padrão de jogo sólido e competitivo, com resultados lineares durante todo o ano, e não só em parte dele. Ao procurar um novo treinador, precisava ter como objetivo que as vitórias nas partidas importantes viessem como consequência do nível semanal da equipe, e não pelo rendimento acentuado em contextos bastante específicos. E que ficar quase 20 pontos atrás do Barcelona é inaceitável.


O presidente, entretanto, preferiu a solução cômoda, preguiçosa. Afinal, é fácil recorrer ao ídolo multicampeão que já tem o enorme respeito de boa parte do elenco e da torcida. Tranquilidade garantida até os tropeços renderem questionamentos.


Valia muito mais esperar pelo término de 2018/19 para tentar novas cartadas por Mauricio Pochettino ou por Massimiliano Allegri, treinadores que mostram condições de comandar um processo de plena reestruturação no Real Madrid. Ou até mesmo apostar em um profissional que já venha obtendo sucesso no futebol espanhol, como Pepe Bordalás. A volta de José Mourinho, extremamente polêmica, nunca me pareceu ir além da boataria. Todas essas opções, Mourinho à parte, fariam mais sentido para um clube que deseja seguir em frente. A busca tinha de ser por evolução, e não pelo que já funcionou no passado.


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Retorno precoce


Agora o leite está derramado, então nos cabe projetar o futuro com a realidade que se apresenta. Não descarto a possibilidade de Zidane ter assimilado seus erros e trabalhado para consertá-los, mas nove meses parece um tempo bastante curto para uma transformação desse porte. Principalmente porque os dois anos e meio como treinador deixaram poucas pistas a respeito de uma tentativa de se reinventar.


Quando aceitou o desafio de assumir o Madrid, em janeiro de 2016, Zizou tinha uma página em branco para preenchê-la da forma como achasse melhor. O cenário atual é semelhante, com plenos poderes para tocar um processo de retomada, mas os tempos são outros. Há muito mais a perder, uma vez que seu legado é ainda maior. Ao contrário daquela época, o elenco possui carências a serem eliminadas na janela de transferências. E o francês precisará ter a coragem que lhe faltou para dispensar quem não faz parte de seus planos.


O novo vínculo só termina em 2022. Para quem havia dado três anos de contrato para Solari, porém, um simples prazo formal não vale de nada. Até lá, espero olhar para este texto que acabei de escrever e dar boas risadas de minhas apostas furadas. No momento, gostaria de estar contagiado pela euforia do retorno de um ídolo. Por ora, no entanto, é a razão que fala mais alto.