A Roma, os romanistas e o último presente de Totti

Getty Images
Getty Images

Totti no dia do adeus, com a torcida ao fundo, unida em prol do capitão: e unida, também, no abraço ao time após a aposentadoria do maior ídolo


No primeiro dia sem Copa desde que ela começou e faltando apenas dois dias para a janela do mercado de verão italiano se abrir oficialmente, a transferência mais irrelevante da Roma na temporada se oficializa. No contexto romanista, a saída do amigo Mateus Ribeirete deste espaço, dando lugar a mim, é totalmente comparável a Jonathan Silva deixando a Roma enquanto Gyömbér volta de empréstimo. Quase ninguém se importa e eu nem sei porque dediquei um parágrafo inteiro a isso. Na qualidade, confesso, é como o mesmo Gyömbér chegando e Nainggolan saindo. Mas vamos em frente...


Com tantas outras mudanças de fato relevantes na equipe, é inevitável destacar a saída do Ninja belga por um valor irrisório, além da mezzo empolgante chegada de Javier Pastore. Mas, acima de tudo, a aparente tranquilidade com a qual o diretor esportivo Monchi trabalha. Contando com o garoto William Bianda, que assinou contrato ontem, já são nove chegadas consideradas importantes pelo próprio diretor e apenas duas saídas. O dinheiro da campanha na Liga dos Campeões ajuda, mas há um raro ar de confiança entre os romanistas que independe do vil metal. Em outros tempos, por exemplo, com a cobrança desproporcional que há em Roma, a venda de um xodó da torcida para uma rival não passaria impune, não importando quantas carteiras de cigarro ele fumasse por dia.


A lua de mel entre clube e torcida se torna mais palpável ainda nos números de carnês de ingressos já vendidos, em comparação com as últimas temporadas. Para 2018/19, ainda na fase de reserva, já foram garantidos quase 17 mil, beirando o total (incluindo a fase de venda livre, que costuma durar até setembro) de 2016/17, a última temporada de Totti, que teve pouco mais de 18 mil. No ano passado, já havia tido um aumento, com pouco mais de 13 mil reservas, após a liberação das barreiras na Curva Sul. O trabalho de Carlo Feliziani, responsável pelo planejamento e execução da venda de ingressos da Roma, vem dando resultado, e a relação com o torcedor melhorou muito após diversas turbulências nos últimos anos – parte da torcida chegou a ativamente boicotar o time, com uma dose de razão, em alguns casos.


Mas me desculpe, Feliziani, ninguém se iludiu achando que este texto seria sobre você. Para (re)abrir este espaço, só há um homem sobre o qual eu poderia escrever. E simbolicamente, o reencontro espiritual entre clube e torcida, que culminou na semifinal da última Liga dos Campeões em uma campanha invicta dentro de casa, foi o último grande presente que Totti nos deixou como jogador de futebol.



"Em algum momento da vida, você cresce – isto é que o que me disseram e isso é o que o tempo decidiu. Maldito seja o tempo."



Naquele discurso eterno do adeus, o ser divino mais humano de todos os tempos admitiu o medo que sentia, declarou amor a todos nós e fez questão de ressaltar que o clube continua. Não ligou para o técnico toscano que agora treinará Nainggolan novamente, não ligou para qualquer atrito, dele ou da torcida, com diretoria e presidente. Pelo contrário. Agradeceu a todos, expôs a própria vulnerabilidade e, por tabela, a nossa. De certa forma, se nenhuma das amarguras entre torcida e diretoria deixou de existir, ele iniciou, naquele dia de tristeza, uma cura. Antes, com os pés, segurando a bola na bandeirinha de escanteio diante da Curva Sul, ele havia terminado de classificar a Roma para a Liga dos Campeões em que ela faria, já sem ele, como que para mostrar que podemos, a melhor campanha do clube em quase 40 anos. A catarse coletiva derradeira que ocorreu há treze meses, e tudo o que veio depois, trouxeram perspectiva para boa parte dos romanistas.



"Agora eu vou descer as escadas e entrar no vestiário que me recebeu quando criança e que agora eu deixo, como um homem."



Vem daí o embrião da razoável confiança com a qual Monchi trabalha hoje – apesar das últimas fracas atuações da Roma no mercado desde que ele chegou – e também da paixão renovada entre clube e torcedor. Por tanto tempo nos preocupamos como seria quando Totti parasse, mas até com isso é nosso ídolo histórico que nos ensina a lidar. Discordâncias e cobranças precisam existir, mas foram clube e torcida, unidos, que chegaram entre os quatro melhores da Europa em 2017/18. Não é fácil, mas a cada dia sentimos menos a ausência de Totti dentro de campo. E não é fácil porque é a realidade; não é mais um sonho, a infância acabou. E o último presente dele foi nos mostrar o caminho para seguir, não obstante sua própria ausência.



"Imagine que você é uma criança tendo um bom sonho... e sua mãe te acorda para ir à escola. Você quer continuar sonhando, tenta voltar para dentro do sonho, mas nunca consegue. Desta vez não é sonho, mas sim a realidade. E você não pode mais voltar para o sonho."



Obrigado pelos sonhos, capitão. E pela realidade também. É hora de encarar mais uma temporada.