Karsdorp: o reforço que vem da própria Roma

Divulgação / AS Roma
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Karsdorp carrega a bola pela lateral do campo em amistoso contra o Latina: setor carente e importante do elenco romanista pode ser preenchido com o retorno do holandês


Em 28 de junho de 2017, a Roma foi a compradora na venda mais cara da história do Feyenoord: o lateral-direito holandês Rick Karsdorp. Foram 14 milhões de euros com mais 5 milhões em possíveis bônus. Poucos dias depois, o clube anunciou que o jogador havia passado por uma cirurgia no menisco direito, o mesmo que já tinha tirado o lateral de três jogos decisivos na reta final da Eredivisie 2016/17. À época, ficou claro que o clube sabia da situação ao contratá-lo, mas minimizou o grau do problema físico de Karsdorp até depois do anúncio oficial. Operação padrão. Afinal, era uma recuperação curta, de pouco mais de um mês. Ele estaria à disposição de Di Francesco para o início da temporada.


Assim, a Roma iniciou sua preparação sem o lateral holandês, que passou os próximos 40 dias se recuperando. Nada de pré-temporada. Em meados de setembro, já com a Serie A em andamento, Karsdorp foi liberado clinicamente e iniciou o fortalecimento muscular. Mais 30 dias o separaram do retorno ao banco de reservas, contra o Napoli, dia 14 de outubro, exatos cinco meses após a última partida em que havia atuado, ainda pelo Feyenoord, contra o Heracles – e por menos de dez minutos. Ele entrou no final do jogo do título nacional do clube de Roterdã após 18 anos de seca. No fim das contas, a parada “curta” que acabou durando cinco meses sequer terminou naquele dia, pois nem dez minutos Karsdorp teve condição de jogar. Ficou no banco contra o Napoli e também na partida seguinte, diante do Torino. Entre esses dois jogos, a Roma foi até Londres e arrancou um empate espetacular frente ao Chelsea, chegando a vencer por 3 a 2 após estar perdendo por 2 a 0.


Foi apenas no jogo ante o Crotone que o holandês assumiu a lateral da Roma, de imediato como titular. E fez uma boa partida, em um time carregado por Kolarov e Perotti. Sofreu alguns baques, mas nada que parecesse grave, e foi substituído no fim por Florenzi. Saiu normalmente do estádio com o time, até dando entrevistas na zona mista e falando sobre a próxima partida, contra o Bologna. Segundo o clube, imediatamente após o fim do jogo, entretanto, já havia uma suspeita de lesão no outro joelho, o esquerdo. Mais tarde, no mesmo dia, uma visita noturna à clínica Villa Stuart revelou que Karsdorp havia rompido o ligamento cruzado. Após cinco meses de parada e apenas um jogo, no mínimo mais sete meses de recuperação o aguardavam. Na semana seguinte, foi a vez do Chelsea ir até a capital e ser depenado: 3 a 0 para a Roma, fora o baile, com Manolas improvisado na lateral-direita no final, após a saída de Florenzi.


Enquanto Karsdorp se recuperava, o time aurirrubro brilhava no palco mais importante, mesmo que com os altos e baixos de sempre. Quase não vence o Qarabağ em casa, mas passou como líder em um grupo difícil. Sempre perdendo a primeira partida fora de casa e depois ganhando no Olimpico, a Roma deixou para trás Shakhtar e Barcelona, até bater na trave contra o Liverpool. Em todo esse período, a lateral-direita era uma questão. O sucesso da equipe não escondia a má fase de Florenzi e as limitações óbvias de Bruno Peres. No campeonato nacional, o time garantiu vaga na próxima Liga dos Campeões com duas rodadas de antecedência, após vitória do Sassuolo sobre a Inter. Karsdorp estava prestes a voltar. Ou não.


Ele ficou apenas no banco contra o próprio Sassuolo, na partida final da Roma na última Serie A. E só voltou a jogar de fato neste sábado, 14 de julho de 2018, embora ainda não em um jogo oficial. Foi no primeiro amistoso da pré-temporada romanista, diante do Latina, exatos 14 meses após a partida do título holandês do Feyenoord – a última vez que o lateral entrou em campo em dois jogos consecutivos. Na Roma, desde o único jogo que tinha disputado, foram mais oito meses e meio parado. Nos últimos 14 meses, ele esteve disponível para jogar por apenas duas semanas. Agora, finalmente, Rick está em condições de jogo para a pré-temporada com o time de Di Francesco e iniciou a partida de hoje como titular. Deve sê-lo também contra o Avellino, no próximo amistoso. Hoje, fez bom jogo (mais comentários aqui), mas não importa. E não apenas pelo que o retorno significa individualmente para o jogador; porque foi uma partida contra um time de Serie D que recentemente chegou a falir. A Roma venceu por 9 a 0. Nenhuma análise deste jogo é parâmetro para nada. Porém, aparentemente, a via-crúcis de Karsdorp está acabando.


Enquanto o lateral vivia seu calvário, o clube aurirrubro passava por um dos melhores momentos de sua história recente. A “chegada” do holandês ao elenco, a partir desta pré-temporada, é um reforço interno que pode fazer grande diferença. No jogo de hoje, Di Francesco usou todos os novos contratados, com exceção de Zaniolo (na Finlândia com a seleção italiana se preparando para a disputa da EURO Sub-19): Mirante, Marcano e Pastore foram titulares, enquanto Fuzato, Bianda, Santon, Cristante, Ćorić e Kluivert entraram no segundo tempo. O ano número dois do trabalho do técnico abruzzese está apenas começando e é sempre difícil acreditar em qualquer coisa sobre o futuro da Roma, um clube que constantemente atira no próprio pé. Mas em meio a tantas aquisições, um dos trunfos de Di Francesco para montar o time pode ser justamente o jogador que esteve lá o tempo todo.


Se os contratempos tiverem mesmo ficado para trás, é a hora de Karsdorp assumir seu papel na Roma. Na temporada atual, o clube completa tristes 18 anos sem ser campeão da Serie A, como o Feyenoord estava ano passado, quando quebrou o tabu na Holanda. E mesmo antes de voltar a vencer seu campeonato nacional, o time de Roterdã, com Karsdorp, já havia sido campeão da Copa local após oito anos sem título de espécie alguma. A Roma está na mesma situação há dez. Lá, a seca foi quebrada. Aqui, vive-se em uma eterna reconstrução que ainda não se traduziu em taças. Só que o fim do túnel parece cada vez mais próximo. Quem sabe desta vez não seja, como sempre é, apenas uma miragem.