Na Roma, é a chance da prática acompanhar (com algum atraso) o discurso

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El Shaarawy, Pellegrini e Marcano foram titulares na vitória em ritmo de treino sobre o Barcelona; mesmo ritmo que, fora de campo, a diretoria da Roma se encontra desde que perdeu Malcom


A partida começou ainda na terça (31), mas foi já nesta quarta que a Roma venceu o Barcelona por 4 a 2 em um jogo, em tese, irrelevante. Já havia, nas últimas duas semanas, sido goleada pelo Tottenham (4 a 1) e empatado com o Avellino (1 a 1) – comentários aqui. Nenhum destes jogos deixou de fato algo aparente, por enquanto, do real desenvolvimento da equipe de Di Francesco, mas pelo menos ele está rodando o elenco, observando seus jogadores e tendo o mínimo de tranquilidade para fazer os ajustes necessários. Agora que entramos em agosto, afinal.


Mesmo com a cobrança desproporcional que há em Roma, a pressão é mínima por enquanto. Porém, se depender da narrativa de parte da imprensa e de alguns dos canais oficiais da própria Roma, a partida contra o Barcelona carregava um peso enorme. Tudo por conta de Malcom.


À essa altura, contar a história será notícia velha. Para quem não sabe o que ocorreu, aqui tem um resumo. No fim das contas, creio que Monchi e cia. agiram com correção em quase todos os passos do imbróglio que envolveu o jogador brasileiro: eu não teria anunciado nada nos canais oficiais do clube, mas o anúncio prévio do Bordeaux parecia ser um gesto de boa-fé quanto ao fechamento do acordo, gesto que é normal a Roma devolver; eu não teria subido oferta alguma após o Barcelona se intrometer em um negócio fechado e anunciado (ou o Bordeaux cumpriria o que já fora combinado ou nada feito), mas Pallotta, o chefe de Monchi, emitiu uma ordem e ele a executou – nem sempre concordamos com aquilo que temos de fazer. Mesmo com tudo isso e mais, o jogador foi para a Espanha. Faz parte também. Às vezes fazemos tudo certo e ainda assim as coisas dão errado.


Nada disso isenta Malcom e seu staff, o Bordeaux e o Barcelona da atitude antiética que cometeram. Alhos são alhos e nunca serão bugalhos, e quem terá de viver com isso é quem não honra a própria palavra. Mas da perspectiva romanista, não importa mais. E é aí que as circunstâncias se revelam mais complicadas. Malcom já é jogador do Barcelona há mais de uma semana, mas ainda ronda o clube – e vice-versa, o que é pior.


Na coletiva após o jogador se transferir oficialmente para o clube catalão, Monchi não poupou detalhes sobre a falta de ética dos outros lados envolvidos na situação, mas também não se escorou no caso como uma desculpa para eventuais fracassos do elenco que está montando. Uma postura louvável e importante, exatamente o que a Roma precisa; porém, ainda precisa haver reflexos na realidade.


Por um lado, se ficar se lamentando não leva o clube a nada, pelo outro, inflamar polêmica e alimentar o próprio ego com a falta de ética alheia também não. Afirmações com o tom de um garoto de treze anos que perde uma partida de Banco Imobiliário que ele "não queria ganhar mesmo" têm definido a última semana, do zagueiro ao presidente. Algumas delas podem até ser verdade – Malcom dificilmente elevaria, sozinho, o patamar da Roma nos campeonatos que ela disputa, por exemplo –, mas o esforço para fingir que tudo está melhor do que antes é inócuo.


Se o brasileiro tivesse sido contratado, o elenco estaria, sim, mais qualificado, e ignorar isso tende a diminuir um senso de urgência que, no momento, é importante para a instituição. Se for possível (e muitas vezes não é) acreditar no que tem sido reportado, inclusive, a reação imediata da Roma foi justamente vazar supostos interesses em inúmeros jogadores ainda no mesmo dia do imbróglio, como se meramente mudar o foco fosse a solução.


Não, Monchi não tem que fazer uma contratação qualquer como "resposta" para o que ocorreu, entretanto, há menos de vinte dias para a estreia na Serie A, o jogador que Di Francesco mais pediu desde maio, um novo ponta para ser titular e pilar do time, não está no elenco. Kluivert, embora promissor, não tem nem duas temporadas completas como profissional.


Este reforço não será Malcom, que é jogador do Barcelona, o que o torna irrelevante para as prioridades e objetivos da Roma. O próprio treinador, um dos únicos tendo espasmos de um mínimo de mentalità vincente, foi o primeiro a se declarar "sem amargor" sobre a decisão antiética do jogador, enquanto o presidente – que já possui mesmo um histórico de agir como um garoto de treze anos – passou dias a remoendo. Chega, a história acabou; enquanto isso, a Roma segue sem uma peça fundamental no elenco e fingindo que é melhor assim. Não é.


Mesmo com tudo isso, é inegável que o plantel atual já é melhor que o da temporada passada, embora ainda haja lacunas relevantes. Durante a pré-temporada, empatar com o Avellino, tomar quatro do Tottenham ou fazer quatro no Barcelona significam a mesma coisa: nada. Mas estamos cada vez mais perto da partida contra o Torino, na primeira rodada da Serie A, e ela significa muito.


Lembrar da vitória sobre o time catalão nas quartas-de-final da última Liga dos Campeões é um direito e privilégio nosso para sempre; relacioná-la com este jogo para fingir que são "fregueses" é a mentalidade infantil da qual precisamos nos livrar. Como não conseguiu ignorar ou mudar a narrativa, a Roma parece tê-la abraçado e não quer mais largar. E pior do que a falta de ética dos adversários talvez seja a própria incapacidade do clube – e de seu presidente pré-adolescente – de superar esta nova justificativa institucional para todos os eventuais fracassos da temporada.


Ainda há tempo para deixar de alimentar esta algema e quebrar o ciclo, mas não será com palavras. Será com postura e, principalmente, atitude de clube que quer vencer. Se bater o Barcelona era o que precisávamos para chegar lá, então a vitória no amistoso terá sido tudo, menos irrelevante.