Após meia temporada, verificamos quão triste foi o mercado da Roma

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Contra a Atalanta, o principal jogador da Roma assistiu à partida no camarote. Nainggolan também ficou de fora


Já estamos em janeiro: acabou o Natal, passou o ano novo, você engordou 300 quilos e seu post emocional sobre renovações não surtiu efeito na vida de absolutamente ninguém – muito menos na sua, incapaz de largar os vícios que te arrastam a ser uma pessoa consistentemente lamentável.


Falando em vícios que te arrastam...


Roma-Atalanta representou o ponto mais baixo da temporada: derrota em casa – depois de um passeio do adversário –, vaias, atletas visivelmente frustrados, Nainggolan utilizando o Tinder no camarote. Mais uma partida sem superar a marca de um gol marcado, dessa vez com a defesa atuando sob os efeitos de ayahuasca. Nem a expulsão injusta de de Roon, no minuto final do primeiro tempo, impulsionou uma equipe novamente estéril, inofensiva tanto em jogadas trabalhadas quanto em chuveiradas.


Se Monchi é mesmo um mago, a Roma talvez seja o imbecil que socou o apêndice de Harry Houdini. A verdade é que o primeiro mercado do espanhol não só foi incapaz de melhorar a equipe, como se notabilizou por retroceder o elenco entre uma temporada e outra. Claro que ele não carrega a culpa sozinho, tendo assumido com a obrigação imediata de vender uma peça importante para fechar o balanço da temporada passada.


Salah foi o sacrificado – por €42M + €8M de bônus. Não há necessidade de pontuar como o egípcio faz uma falta estrondosa à Roma, e como seu valor duplicou em questão de alguns meses. Depois dele, saíram Paredes (€23M + bônus de €4M) e Rüdiger (€35M + bônus de €4M).


Na defesa, projetavam-se dois objetivos: repor a perda do alemão e suprir a carência na lateral-esquerda, dado que Émerson Palmieri se lesionou na última rodada da temporada anterior, enquanto Mário Rui, seu substituto imediato, foi cedido ao Napoli (empréstimo de €3.5M + obrigação de compra de €5.5M).


Chegaram Kolarov (€5M) e Moreno (€5M). O sérvio, titular absoluto, é o destaque da temporada a ponto de aparecer como principal referência ofensiva nos momentos de aperto. No entanto, Kolarov já interessava a Walter Sabatini havia anos — sua negociação provavelmente estava encaminhado sem participação de Monchi. Foi Sabatini quem descobriu Kolarov e o levou à Lazio por apenas €925 mil em 2007 (e o vendeu por €23M em 2010). Por sua vez, Moreno pouco jogou. Quando jogou, não foi bem.


Karsdorp (€14M + bônus de €5M), contratado como uma solução definitiva e longeva para a lateral direita, chegou lesionado e só estreou no fim de outubro. Quando estreou, arrebentou o joelho (como, antes dele, Florenzi, Rüdiger, Mário Rui, Émerson Palmieri, Nura e Luca Pellegrini, isto é, todos os laterais da Roma exceto Bruno Peres). Ele só volta no fim da temporada, configurando a transferência como um fracasso absoluto.


Quanto à perda de Paredes, bem vendido, tudo pareceu resolvido com maestria: Lorenzo Pellegrini retornou a seu clube de formação por €10 milhões, enquanto Gonalons (€5M) voou à capital italiana como um investimento seguro.


O francês, entretanto, não se impôs na marcação da maneira esperada, ao passo que alguns erros bobos na transição permitem desconfiar de seu passe, mesmo que sua porcentagem de acerto nesse fundamento seja alta. Ele também falhou feio no gol do Qarabag (2x1), num momento em que concentração na competição mais importante do continente era crucial para evitar, justamente, que o adversário acreditasse em sua reabilitação – a qual não ocorreu por pouco.


Já Pellegrini, apelidado de Cartório (por mim, neste momento), apresenta um futebol burocrático que custa a se soltar. Suas últimas atuações trazem um ânimo maior: ele entrou muito bem contra a Juventus e certamente foi o melhor meio-campista contra a Atalanta, crescendo tanto na quantidade de desarmes quanto na de passes mais ambiciosos.


O ataque, eterno calabouço de chorume, segue como a frustração maior. Aparentemente, Iturbes, Bojans e Destros não são atletas, e sim cargos anualmente renovados na instituição que rejeita o Panta rei. Vejamos o desempenho de Under, Defrel e Schick, os reforços do setor:



Cengiz Under: €13.4M + bônus de €1.5M. Serie A: 12 partidas, 4 delas como titular. 342 minutos: 0 gol, 0 assistência. Coppa Italia: 1 partida como titular. 61 minutos: 0 gol, 0 assistência. Não jogou na Liga dos Campeões. Status: provavelmente será emprestado para um clube menor.


Grégoire Defrel: Empréstimo de €5M + €15M de obrigação de compra não especificada + €3M de bônus [€20M + bônus de €3M, provavelmente]. Serie A: 7 partidas, 3 delas como titular. 281 minutos: 0 gol, 0 assistência. Liga dos Campeões: 3 partidas, 2 delas como titular: 146 minutos: 0 gol, 0 assistência. Não jogou na Coppa Italia. Status: Lesionado há quarenta dias.


Patrick Schick: Empréstimo de €5M + €9M de obrigação de compra + €8M de bônus + €20M à Sampdoria em 2020 [a confusão pode totalizar €42M]. Serie A: 8 partidas, 3 delas como titular. 333 minutos: 0 gol, 0 assistência. Coppa Italia: 1 jogo como titular. 90 minutos: 1 gol, 0 assistência. Não jogou na Liga dos Campeões. Status: Contratação mais cara da história do clube. Finalmente em condições de jogo, ficou até novembro no departamento médico.



Juntos, os três atacantes com nomes de Pokémon contabilizam 956 minutos de Seria A sem qualquer gol ou assistência. Ao todo, são 1.253 minutos e um gol – inútil – tendo em vista a derrota de 2 a 1 para o Torino que desclassificou a Roma da Coppa Italia. Mas não é justo julgá-los apenas por números: é justo julgá-los pelas atuações terríveis que colecionam. Até que ponto carecem de qualidade e até que ponto Di Francesco não sabe utilizá-los é uma questão a ser esclarecida num futuro próximo. Até o momento, o técnico carrega o benefício da dúvida.


Quem começa a sentir a pressão é Monchi, bastante infeliz em sua primeira janela de transferências. Para piorar, não há qualquer estimativa de avanço que não envolva a venda de outra peça importante – seja Nainggolan, Strootman ou Florenzi. À Márcio Braga, o que está acontecendo na Roma é exatamente o seguinte: acabou o dinheiro. Não tem dinheiro. Hora de usar a magia.