Roma: é impossível pensar em outra coisa

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Kostas Manolas: redenção


É impossível trabalhar, é impossível pensar em outra coisa. Não tenho condições de articular um texto – e ainda me encontro não necessariamente sóbrio –, portanto eis algumas considerações separadas em tópicos.


Dzeko — Solidificação. A partida de ontem demarcou a definitiva mudança de estado do bósnio no panteão do clube. Se alguém ainda tinha dúvidas quanto ao valor de Edin Dzeko, elas passam a carecer de qualquer lógica. Além de ser basicamente o único centroavante consistente da Roma em muitos anos, foram dele uma assistência contra o Shakhtar, na ida, o gol salvador na volta e o gol em Barcelona que permitiu à Roma sonhar. Mas se faltava um rito de passagem, o jogo de ontem o eleva de vez. Não me refiro apenas ao gol e ao pênalti sofrido, mas à postura mantida durante a partida inteira. Dzeko foi uma desgraça para a defesa blaugrana e lutou os 90 minutos com força e inteligência. A presença de Schick como seu wingman lhe fez muito bem. Como cereja do bolo, a maneira como, antes do pênalti, entregou a bola a De Rossi, beijou-lhe o rosto e cravou que Daniele converteria demonstra a confiança com que tratava tudo à sua disposição.


De Rossi — Seu gol contra catastrófico sinalizava uma crueldade imensa do destino. Jogando como um leão usuário de cocaína e testado com um supercérebro eletrônico, foi um primor de volante. Um metrônomo que se antecipa; um regista que desarma; um verdadeiro trinco ligando a defesa ao ataque, o ataque à defesa e Brylcreem ao cabelo.


Manolas — Logo ele: quais eram as probabilidades? Que jornada individual. Minhas pálpebras pesam cada vez que assisto àquele desvio sutil de cabeça. Contenho as lágrimas quando o vejo correr em celebração. Seu choro solitário no banco de reservas é uma das maiores poesias que essa equipe já vivenciou.


Barcelona — É isso que dá jogar de azul celeste em Roma.


Di Francesco, três zagueiros, elenco — Sabendo que Messi só poderia ser parado por Deus, Di Francesco lançou Jesus. Mais do que isso, EDF alterou completamente o módulo de sua equipe na partida mais importante de sua carreira. De suas carreiras, aliás – a de jogador e a de treinador. Para tanto, sapiência, coragem e clareza foram imprescindíveis. O uso de três zagueiros se mostrou um acerto total: eles não só concederam mais liberdade a Kolarov, Florenzi, Strootman e Nainggolan, mas também participaram do ataque conforme o espaço era conquistado – e como foi conquistado! Exemplo disso são os dois belíssimos cruzamentos de Fazio, esse pivô de basquete: um na linha de fundo pela direita (para Schick), outro na linha de fundo pela esquerda (para De Rossi). Ademais, é preciso destacar que a Roma enfrentou o Barcelona sem contar com Nainggolan e Ünder na ida, e sem Perotti na volta. Ter mantido a marcação alta mesmo depois de fazer o terceiro indica a grandeza absoluta dessa partida e dos critérios táticos, físicos e mentais que fizeram dela, afinal, uma grandeza absoluta. Eliminar o Barcelona seria um absurdo; eliminá-lo revertendo um 4x1, algo inimaginável. Fazer isso jogando pra cacete, sem sofrer sequer uma chance clara de gol, é o êxtase puro.


Totti e Cassano — Com os dois juntos, era difícil ganhar da Roma no Olímpico. Aparentemente, continua sendo!


Ser romanista — Bastou o jogo acabar para que eu recebesse mensagens de antigos colegas de trabalho, ex-colegas de ensino fundamental e spam da Vivo. Digo, o spam não tem nada a ver com isso, mas as conversas reativadas me informaram bastante sobre o significado de acompanhar por tanto tempo uma equipe que não conquista títulos. E eu, que não esperava me emocionar tanto com o futebol d.T, sinto uma coceira no globo ocular apenas por lembrar dessa demonstração absoluta do futebol como um todo. Muito já se foi falado e muito ainda será dito sobre esse jogo. Mesmo assim, dificilmente algo superará a precisão do pronunciamento fornecido pelo Twitter oficial romanista: “DAJEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEeifefefbejfwjofnwjfnwjfbrufbwfubweufbewfuewbewbfwejfwjlfjfwfjlwfjbfjwfbwjfbwjofwjfnewjofnewjofnwjfnweAHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH!!!!!!!!!!!!!”. Que dia, meu Deus; que dia.