O Liverpool mordeu a jugular da Roma, mas deixou de decapitá-la

Ansa
Ansa

Apenas um ente divino, infalível e transcendental pode salvar a Roma. Ao lado dele, o Papa Francisco


O salmão do Pacífico tem um dos ciclos de vida mais poéticos da natureza. Criado em água doce, migra para o oceano e lá permanece por alguns anos. Desenvolvido, retorna para o rio onde nasceu ao atingir maturidade sexual. Ele muda de cor; seus músculos se alteram e ele deixa de se alimentar; o salmão macho desenvolve dentes para proteger seus futuros herdeiros.


Essa migração de retorno, no entanto, toma-lhe absolutamente tudo: o salmão do Pacífico morre após desovar no leito de cascalho, já sem forças por conta da jornada em torno da qual viveu. Ele se deteriora e chega a apodrecer no rio em que havia nascido – e no qual agora aguarda a própria morte. A partir do cascalho, o ciclo se inicia novamente.


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Quando a Roma foi derrotada pelo Barcelona, quem assistiu à partida carregou a desconfiança de que o placar não refletia o confronto. Não obstante a vitória justa dos mandantes, o 4-1 parecia excessivamente cruel. Os romanistas fizeram dois gols na meta errada, criaram chances e contestaram a não marcação de dois pênaltis no mínimo discutíveis.


Hoje, a Roma reviveu seus piores momentos continentais. Apesar de ter perdido por 5-2, é o Liverpool quem lamenta a oportunidade de não enfiar 8-0 em uma semifinal de Champions League.


Isso precisa ficar claro: não houve jogo. O Liverpool amassou a Roma. Vimos um espancamento; uma coça. Não existe “mas”, “e se”, “naquele lance…”. O sinônimos.com.br não oferece uma quantidade de sinônimos de “surra” capaz de contemplar a prestação asquerosa da Roma.


Quando o placar apontava 5-0, nada indicava qualquer possibilidade de reação. Não sei se faltou fôlego ou se faltou interesse, mas o time da cidade de Echo & The Bunnymen, The La’s e Appollo 440 (estou esquecendo alguma coisa...) poderia ter embrulhado a Roma em plástico e atirado o cadáver na margem do rio que corta Twin Peaks.


O esquema com três zagueiros, carta na manga de Di Francesco na virada histórica contra o Barcelona, apresentou-se como um fracasso retumbante na partida de hoje.


Se a Roma tentou ganhar o meio-campo, o Liverpool mostrou que não precisava de meio-campo: bastava acionar Salah e Firmino. Com espaço, ambos enfrentavam os zagueiros no mano a mano e, juntos, destruíram a Roma.


Quando seus alas não funcionam, seus volantes não marcam e nem apoiam e seus zagueiros estão sempre no sufoco, não é presunçoso chegar à conclusão de que seu esquema não atingiu o objetivo desejado.


Di Francesco deveria ter repensado sua estratégia após o primeiro gol, pois àquela altura (35’) o Liverpool sufocava com chances cristalinas. (Surpreendentemente, os primeiros 20 minutos da Roma foram ótimos.) Faltou-lhe coragem para fazê-lo ainda no primeiro tempo. Faltou-lhe competência para fazê-lo no intervalo, quando trocou Under por Schick, mas sem mover o módulo.


No segundo tempo, o espancamento ganhou um pacote de expansão: quando o Liverpool chegou ao quinto gol – perdão por me repetir –, nada indicava qualquer possibilidade de reação. Os gols de Dzeko e de Perotti não alteram o prognóstico de desclassificação, pois o Liverpool não enfrentará a Roma com o desinteresse que o Barcelona a enfrentou.


Esses dois gols, porém, servem de duas maneiras: antes de mais nada, para reduzir a vergonha. É inacreditável que a Roma tenha lutado tanto para abandonar o posto de piada continental apenas para correr para ele novamente – e tão rápido. Esse time, que terminou na frente de Chelsea e Atlético e que reverteu resultados negativos contra Shakhtar e Barcelona, não merece uma desonra tão caricata.


Por outro, acende uma débil, pálida, lânguida chama de esperança. Se os jogadores da Roma emularam uma verdadeira alcateia contra o Barcelona, neste momento a equipe veste a figura de um lobo golpeado, sangrando; as patas quebradas e o olhar baixo – um pobre animal palpitando ferido. O Liverpool, no entanto, desperdiçou a chance de eliminar todas as dúvidas, de apagar todo e qualquer “vai que...”, de exterminar qualquer cenário negativo.


Somente um milagre salva a Roma, e um milagre foi gasto neste mesmo mês. A partida de hoje, por si só, de maneira alguma concede o direito agridoce de acreditar. Essa tortura característica do sonhar, contudo, foi despertada: para quem já abraçava a morte, a chance de lutar pela própria dignidade é um primeiro passo esplêndido. Ao contrário do salmão do Pacífico, uma singela minoria dos salmões do Atlântico consegue retornar ao oceano.