Roma: não cessaremos nunca de explorar

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O embarque de Ulisses (Departure of Ulysses from the Land of the Pheacians), Claude Lorrain, 1646



O que chamamos de princípio é quase sempre o fim
E alcançar um fim é alcançar um princípio.
Fim é o lugar de onde partimos.
T.S. Eliot, “Little Gidding”



Há não muitos ciclos da sociedade, poeta não era sinônimo de egocêntrico do centro acadêmico, ou usuário de sandálias berrando em um sarau carente de dedetização. Ser poeta significava, afinal, revelar-se um artista das palavras e dispor da qualidade técnica para talhá-las; esculpi-las de modo a extrair uma experiência estética na qual não se chegaria por outros caminhos. (Àquela época, não havia Kubrick, Bowie ou Mass Effect 2.)


É de 1833, pois, o poema que conduz este texto (muito mais próximo de um centro acadêmico malcheiroso do que de um grande poeta). O trecho selecionado é belíssimo, e eu encorajo você a segurar o sono e dar a ele uma chance. Se por um momento você baixar a guarda (e minimizar a janela do Dota), é muito provável que concorde comigo. Refiro-me à última estrofe de “Ulisses”, composto por Lorde Alfred Tennyson. A tradução cabe a Rubens Canarim.


No poema em questão, Ulisses – o Odisseu da Mitologia Grega – encontra-se já idoso e, reinando na ilha de Ítaca, contrasta seu passado com seu futuro. Frustrado com o cotidiano pacato após a Guerra de Troia (e as diversas peregrinações pelas quais se tornou, afinal, um herói), ele expõe sua inquietação quanto à vida tranquila, dado que “De nada serve a um rei ficar inerte / No lar quieto, em meio à rocha infértil”.


Impávido, Ulisses não resiste ao próprio rompante e convoca demais marinheiros para acompanhá-lo em uma nova aventura. Não há qualquer garantia de segurança à sua nova tripulação, cujo maior estímulo recorre a assumir que “A morte é o fim: mas antes, algum feito / Notório e nobre está por se fazer”. Eis o trecho:



(...) Venham, homens,
Não tarda a busca por um novo mundo.
Partam, em ordem todos, e fulminem
As sonoras esteiras; Meu intento
É navegar além-poente, e sob
Estrelas do ocidente, até morrer.
Talvez vorazes golfos nos devorem,
Ou então, nas Afortunadas Ilhas,
Vejamos grande Aquiles, caro a nós;
Mesmo perdendo muito, há muito à frente,
Ainda que como antes não movamos
A Terra e o Céu; O que nós somos, somos;
O mesmo heroico peito temperado,
Fraco por tempo e fado, mas forte a
Lutar, buscar, achar, e não ceder.



Não tenho grande interesse em falar do jogo – como, aliás, é o padrão deste espaço, resignado a encarar como redundantes as próprias análises futebolísticas. Nossa experiência em participar da partida como espectadores me é mais intrigante, e com ela tecemos as narrativas que, de valor completamente estimativo, conferem coerência às nossas (bastante insignificantes) vidas.


A queda da Roma nas semifinais da Liga dos Campeões foi uma das maiores demonstrações de grandeza para uma instituição que – finalmente – caminha em direção ao respeito continental. Traçou-se um ponto de referência; viu-se um farol em meio à neblina.


A arbitragem (e, entre todos os outros parênteses, seus imperdoáveis três minutos de acréscimo) pode ter prejudicado – como, desastrosa, também prejudicou o adversário –, mas não foi ela quem eliminou a Roma. Levar cinco gols em 68 minutos da ida eliminou a Roma (um irregular? Dois?); entregar um gol com 9 minutos do retorno eliminou a Roma; facilitar outro gol aos 25 minutos eliminou a Roma.


E ainda assim, contra todas as desventuras, contra si mesma e contra um fantasmagórico retrospecto de vexames, não faltou ímpeto a um grupo capaz de atingir seu limite na competição mais almejada do planeta. A Roma foi mais longe que PSG, Juventus e a dupla de Manchester. Foi mais longe que Szczesny, Marquinhos, Rüdiger, Benatia, Pjanic e Lamela. Não foi mais longe que Salah.


À Ulisses, essa Roma venceu várias batalhas: ela nunca foi favorita num grupo com Atlético de Madrid e Chelsea, muito menos dela se esperava a liderança. Posteriormente, eliminou um audacioso Shakhtar ao reverter o revés inicial. Contra o Barcelona, viveu a epopeia pela qual essa trajetória será lembrada.


Não houve um romanista envergonhado com a postura da equipe hoje, bem como nenhum romanista se esquecerá dessa campanha, a qual, à “Ulisses”, isto é, o Ulisses de Tennyson, possibilita sonhar com um futuro honroso, porém inquietante. Um futuro sobre o qual não dispõe de qualquer garantia, mas com o qual passa a sonhar corajosamente.


T.S. Eliot, outro poeta brilhante, inicia e encerra este texto (e, por que não, este espaço?). De “Little Gidding” (1942), poema capaz de amortecer os pômulos de um marmanjo, extraio a realização transcendental que permeia todas as narrativas significativas desta vida. Ivan Junqueira responde pela tradução, e Max Richter, pela explícita inspiração musical.



Não cessaremos nunca de explorar
E o fim de toda nossa exploração
Será chegar ao ponto de partida
E o lugar reconhecer ainda
Como da vez primeira que o vimos.



Não é o destino final que nos move, e sim a exploração externa por meio da qual conseguimos reinterpretar aquilo que já nos rodeava. O movimento para fora permite, enfim, olhar para dentro e enxergar a beleza que não podia ser vista. Lutar, buscar, achar, e não ceder: que este fim alcance o mais belo dos novos princípios.