Expectativa x Realidade: o eterno embate entre as contratações do Santos

Assim como em praticamente todos os clubes brasileiros, o Santos não tem noção nenhuma de suas finanças. Um clube cujo planejamento está em xeque há tempos e que continua pensando da mesma maneira.


Faz tempo que a palavra "contratação" dá calafrios na torcida. Muito porque o Peixe erra mais do que acerta. Isso sem contar que muitas vezes faz contratações a esmo, seja para dar satisfação a torcida (Leandro Damião) ou por um simples capricho do treinador (Vecchio, Leandro Donizete e Cleber Reis).


O Santos até tem gente capacitada que trabalha no clube, mas parece que a proatividade para fazer o mal dos responsáveis diretos pela contratação é maior do que qualquer coisa.


O erro principal é do diretor de futebol. Ele é o principal responsável por filtrar tudo o que acontece antes que o presidente tenha que fazer algo definitivo. Em qualquer lugar no mundo é assim. Entretanto, no Santos as coisas parecem mais tensas e turvas.


Sem medo de errar, a única contratação impactante que o Santos fez em muito tempo e que deu certo foi a aquisição do Bruno Henrique, do Wolfsburg, por R$ 14 milhões. Era muita grana e que foi potencializada pela expectativa do torcedor, que já tinha experiências traumatizantes e recentes. Para a sorte do clube, Bruno Henrique foi o melhor jogador de linha do Peixe na temporada.


Divulgação/Wolfsburg
Divulgação/Wolfsburg

A expectativa que virou realidade. Bruno Henrique custou caro, mas valeu cada centavo


Contratação é um negócio muito sério, pois ela pode mudar o futuro do clube tanto para o bem quanto para o mal. O Santos esteve muito próximo do fundo do poço justamente por conta de uma contratação lunática. Além disso, toda contratação deve ser examinada minuciosamente, desde a qualidade técnica ao comportamento do jogador. Outro detalhe que muitas vezes passa batido é a necessidade dele no elenco - se ele se adequa ao estilo do clube ou se já não existe alguém melhor na base.


Eu sou um eterno defensor da base, mas há momentos em que ela deve ser preservada. Muitas vezes um jogador é alçado as pressas e acaba não correspondendo as necessidades do time. Como a torcida é muito "oito ou oitenta" o jogador acaba sendo queimado.


Esse discurso também serve para as contratações de jogadores estrangeiros. É legal buscar alternativas no mercado sul-americano, até porque o futebol evoluiu bruscamente em outros países do continente. No entanto, assim como é com jogadores da base, existem defensores e odiadores, mas sem meio-termo. Se o jogador não vier para resolver, esquece porque na visão de muitos ele já é inútil e dispensável. O torcedor esquece que muitos deles dependem da adaptação a cultura do país, do clube e também tática.


Levando em consideração que no último campeonato brasileiro o Santos foi treinado por um técnico que não gostava de treinar, o convite para o pandemônio seria evidente. E foi. Dois exemplos colombianos explicam como o treinador é fundamental para o sucesso da contratação.


Copete e Hernández viveram momentos distintos na temporada passada. O primeiro chegou em 2016 para suprir a saída do Gabigol, sendo um pedido do Dorival Junior. No entanto, Copete jamais será um Gabigol. Não apenas pela qualidade técnica, mas pelo comportamento em campo. O colombiano, primeiramente, sempre foi ponta-esquerda na vida, enquanto Gabigol jogava pela direita. Além disso, Copete sempre foi um jogador voluntarioso e famoso entre os treinadores por ajudar na parte tática da equipe. Nisso é inegável a importância dele, mesmo sendo tecnicamente fraco. É um jogador de circunstância e não de protagonismo, como acabou virando no Santos. A expectativa sobre ele aumentou duma maneira absurda, fazendo com que ele fosse pintado como um craque que não é, apesar de ter se tornado no maior artilheiro estrangeiro do clube, o que já é um grande feito. Ele foi do céu ao inferno drasticamente muito porque Levir o escalou a maior parte do tempo na direita. Se ele já é fraco tecnicamente no habitat natural dele, o que esperar numa posição inédita? Problemas.


Gazeta Press
Gazeta Press

Raça e disposição nunca faltaram ao Copete, mas a técnica... 


Com Hernández a situação foi similar. Se destacou num amistoso contra um clube marroquino e depois como 12º jogador do Dorival, que rasgava elogios ao colombiano, que entrava muito bem no segundo tempo. Assim como deveria ser até ele se ambientar por completo. Entretanto, Dorival saiu e Hernández foi escanteado por Levir Culpi, que preferia Thiago Ribeiro. Aliás, Thiago Ribeiro custou R$ 14 milhões aos cofres do Santos, que na época achou que ele seria um bom substituto para o Neymar. Ledo engano, não? Para piorar a situação de Hernández, ele não recebeu uma chance sequer de atuar no lado esquerdo, função e posição que ele se destacou e atuou a vida inteira no Junior. No único jogo que Hernández entrou como titular com Levir, na partida contra o Fluminense, no 0x0 no Pacaembu, ele atuou pelo lado direito e foi desastroso. Por mais que ele tivesse se caracterizado por ter versatilidade na Colômbia, aqui ele não teve sequência e oportunidades para recuperar a auto-estima que caiu visivelmente depois daquele jogo (enquanto Thiago Ribeiro continuou jogando abaixo da crítica e recebendo mais chances).


Outro detalhe. Você percebeu que eu só citei jogadores do lado esquerdo, certo? Todos os pontas que o clube contratou foram para esse único lado. Um erro absurdo de planejamento. Copete, Hernández e Bruno Henrique, todos cuja principal característica é jogar pelo flanco esquerdo, enquanto o lado direito sofria, pois não tinha nenhum jogador da função para preencher a lacuna minimamente bem. Todo mundo que jogou ali acabou se queimando.


Se você puxar pela memória, isso não é recente na história do Santos. Em 2013, sob o comando de Muricy Ramalho, Montillo chegou a atuar como ponta, em vez de meia-atacante, função que ele se destacou na La U e no Cruzeiro antes de chegar por uma fortuna. Obviamente ele não desempenhou nem a metade do que poderia. Aliás, como se ele não jogou na posição dele? O ex-treinador do Santos, inclusive, conseguiu queimar Renê Junior e Felipe Anderson nesse processo todo, colocando ambos como laterais para ajudar o argentino. Quem armava o time era o "possante" Cícero.


Gazeta Press
Gazeta Press

Montillo foi um pedido exclusivo de Muricy, que acabou subaproveitando o jogador numa posição em que ele não se encaixou no clube antes de sua venda à China


Claro que no meio desse caos total o Santos acertou em algumas contratações, porém, foram poucas. E também nessa trajetória ficou evidente que tinham jogadores da base que eram melhores. Ou vão dizer que Cleber Reis e Noguera são melhores do que Lucas Veríssimo? O zagueiro, aliás, se reencontrou no clube após lutar contra a incerteza de vários torcedores após começo claudicante. O futebol é cíclico também.


Enquanto o Santos não levar o planejamento mais a sério, seja para contratar jogadores caseiros ou estrangeiros, e sobretudo para promover atletas da base que estão pedindo passagem há séculos (escrevi sobre alguns aqui  e aqui), a expectativa vai entrar em conflito com a realidade.


A bola da vez é Eduardo Sasha, ex-Internacional, que vem por empréstimo. Enquanto os colorados soltam fogos no RS, vários torcedores do Santos se descabelam nas redes sociais. No entanto, o histórico de Jair Ventura com jogadores limitados tecnicamente, porém, com muita aplicação tática é bom. Vide os casos de Pimpão e Lindoso no Botafogo. É uma aposta arriscada, pois Sasha já vem com uma pressão muito grande da torcida e isso pode influenciar diretamente no seu desempenho dentro de campo, que vai depender exclusivamente da sua compreensão tática. É mais um caso de jogador do treinador. Pode ser que dê certo em um momento e errado em outro, tal qual foi com o Copete, por exemplo.


Outro exemplo que é dado e que nutre as esperanças do torcedor santista é o Grêmio. Vários jogadores contestados renderam tão bem que o clube gaúcho conquistou a Libertadores.


Resta esperar pelos jogos no Paulistão, onde Jair obviamente vai entrar com o intuito laboratorial para testar e conhecer os jogadores mais aptos para jogos grandes. Até porque cravar alguma coisa no Santos é bastante complicado.