O Santos dos últimos anos é a antítese da sua própria história

Perder no futebol faz parte, especialmente quando o adversário é superior. No entanto, perder de forma apática e com postura de time da Série D não é aceitável. Não é normal.


Em cinco meses de trabalho, Jair Ventura fez 24 partidas no comando da equipe, sendo 10 vitórias, nove derrotas e cinco empates. Fez 28 gols e tomou 25. Dá para contar nos dedos a quantidade de jogos que a equipe, de fato, jogou bem.


A desconfiança que pairava sobre o trabalho do treinador já virou ódio, sobretudo pela partida execrável que o Santos “desempenhou” contra o Grêmio. Era tudo desilusão? Excesso de paciência?


Gazeta Press
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Protagonistas de várias discussões durante a semana, Luan passeou no jogo enquanto Sasha caiu na pilha da partida


O papelão protagonizado no Uruguai, na terça-feira passada, foi reiterado com juros em Porto Alegre. No confronto contra uma equipe limitada, pior tecnicamente, foi um sufoco e uma derrota merecida. Contra um time melhor tecnicamente, foi um baile. O time do Jair Ventura não é reativo, ele é covarde e monotemático.


Entretanto, sempre vem aquela velha questão “poxa, cinco meses e já estão culpando o treinador?”. Falar de fora, sem acompanhar o dia-a-dia do clube, é confortável para julgar. Houve momentos interessantes, porém, pouquíssimos nessa relação entre o treinador e o clube. A falta de paciência é completamente compreensível.


Há muito tempo reclama-se da apatia dos jogadores santistas, bem antes de Ventura assumir o comando. Ela era comum com Muricy, Dorival, Levir, Elano... E ela voltou nos últimos jogos acompanhada de outro agravante: a covardia do comando técnico.


O Santos está mais para “rezativo” do que para reativo. Os jogos fora de casa são terríveis de se assistir, justamente porque não há jogo do Santos para se assistir. É uma retranca absoluta, que depende de uma estocada do Rodrygo e, quiçá, do Gabriel. Os jogos como mandante, salvo circunstância, dão uma maquiada porque o adversário ainda respeita o histórico do clube.


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O contraste entre os treinadores está cada vez mais evidente. Renato sabe muito bem o que quer e o que a equipe pode fazer. Nem lá no fundo e desfocado está Jair Ventura, que parece não conhecer o time ou ter ideia do que fazer


Uma coisa é dar certo, por tempo limitado, no Botafogo. Outra coisa é subaproveitar o que tem. É um mundo completamente diferente agora, algo que ele não está sabendo lidar.


Assim como é difícil contar as boas partidas do time, também é difícil lembrar quando foi que o treinador santista utilizou outro esquema que não fosse o fadado 4-1-4-1, que na realidade não passa de um 4-3-3 torto. Por que torto? O Santos só usa um lado para atacar. E para piorar, perdem em número os jogadores no meio-campo, local mais nebuloso da equipe. Por que ele não muda, ou adequa, a equipe de acordo com a proposta de jogo? Existem equipes que jogam bem num 4-4-2, 3-5-2, 3-4-3 e tal, especialmente porque elas se encaixam no propósito do jogo.


É só fazer a matemática: postura covarde menos variação tática = futebol pobre. Para não colocar tudo nas costas do treinador, a diretoria tem grande parcela de culpa também. Da mesma maneira como foi em outras administrações, o alvinegro praiano é limitado em ideias até fora de campo, possuindo um dos piores planejamentos do futebol nacional.


O treinador e os diretores atuais se apoiaram na balela de que faltava um “10” para ajeitar essa equipe, sendo que se tivesse um, provavelmente, ele estaria recuado na cabeça de área para marcar o volante adversário.


O time perdeu duas vezes seguidas para times que não tem um “10” fixo. Viu o Independiente esmagar o rival na casa deles sem um “10” fixo. Pega um jogador por empréstimo, com história no clube, para jogar de centroavante, sabidamente uma função que ele não sabe fazer muito bem.


Não basta fazer uma limpeza no elenco se, de forma mais ampla, nem o treinador e muito menos a diretoria sabem compreender o que o Santos é. O problema é maior do que fulano ou sicrano, não é de hoje que a postura do clube está em xeque, pois ela vem de outros carnavais.


Esse assustador cenário é um reflexo de outras campanhas, que sobreviveram de lampejos de bom futebol. Um time que quer conquistar algo grande, primeiramente, deve definir o que quer. Nem antes e muito menos agora, parece que o clube entendeu o que essa agremiação significa e o que ela pode e deve fazer.