Dorival Jr: Vícios & Virtudes

"Nem tudo lhe cai bem
É um risco que se assume
O bom é não iludir ninguém
Às vezes faço o que quero
Às vezes faço o que tenho que fazer"


Parece (e é) apenas uma letra escrita por Alexandre Magno Abrão, o Chorão, para que os fãs adolescentes da banda Charlie Brown Jr. acreditassem que ele era o poeta de toda uma geração. Há quem acredite nisso, há quem não. 


Assim como há quem acredite que o trabalho de Dorival Jr. no Santos é ótimo. E há quem pense que não. E esse trecho da música 'Vícios & Virtudes' acaba por resumir o 2016 do treinador no clube: assumiu riscos com suas opções, por vezes nada convencionais, que não agradaram a todos na torcida, mas nunca escondeu que se manteria fiel às próprias ideias; e soube balancear entre fazer o time jogar da maneira necessária e jogar da maneira que gostaria de manter sempre.


Ivan Storti/ Santos FC
Ivan Storti/ Santos FC

Dorival nem sempre está calmo, mas nunca preocupado


O principal ponto é que Dorival nunca teve todas as peças para usar suas ideias continuamente. O exemplo mais recente e, por sorte, mas fácil de ser explicado, é o uso de Yuri na defesa, sendo que o jogador é originalmente volante. Ele perdeu seus zagueiros titulares e fez o que teve que fazer: improvisar. Mas não deixou de fazer o que quis: avançou Yuri e chegou a jogar com penas um zagueiro fixo, algo raríssimo e até ousado no futebol brasileiro.


Números indicam: Dorival fez muito com a vaga na Libertadores


O que não lhe caiu bem foi a dificuldade de manter o time base: Vanderlei; Victor Ferraz, Gustavo Henrique, David Braz e Zeca; Thiago Maia, Renato e Lucas Lima; Vitor Bueno, Gabriel e Ricardo Oliveira era o onze ideal no começo do torneio. Ele só teve esse time completo por uma rodada, a 15ª.


Depois, com a saída de Gabriel e a consequente entrada de Copete, só conseguiu escalar esse onze na 26ª rodada. 


Com as lesões de Gustavo Henrique e Vitor Bueno, David Braz e Jean Mota passaram a ser titulares no 'onze' planejado. O time com os dois e todos os outros titulares só jogou nas rodadas 30, 32 e 33.


Assim sendo, Dorival conseguiu escalar o time titular apenas em cinco das 37 rodadas já disputadas no Campeonato Brasileiro. Detalhe: ganhous os cinco jogos: contra Ponte Preta, Santa Cruz, São Paulo, Chapecoense e Palmeiras. E, mesmo com problemas constantes, levou o time à Copa Libertadores de 2017 como vice-campeão ou 3° colocado - lembrando que o Santos não passava da 7ª posição desde 2007, quando foi vice.


Dorival tem seus vícios, pode ter feito escolhas duvidosas ou não-ortodoxas, mas teve virtudes o suficiente para que o Santos alcançasse seu objetivo, nada esperado no início do torneio, apesar do título Paulista.


O técnico, em 2017, pode ter a chance de levar a América com um time bancado, desde o início, por ele. Usando quem ele vê encaixado em seus ideais. E, isso se concretizando, poderá usar outra letra de Chorão para justificar o feito: "Só o que é bom dura tempo o bastante pra se tornar inesquecível".


Se ele for esperto - o que é -, não usará, mesmo com esse direito. Pois se há uma frase clichê da banda, é esta. Acontece.


*Como este é o primeiro post do blog, achei de bom grado usar a referência a Charlie Brown Jr para justificar o nome do espaço, 'Eu Vim de Santos!', uma frase marcante do vocalista Chorão. Espero que entendam.