A explosão. O abraço em meu pai. Enfim, Santos campeão

Minha mãe tocou o interfone. Eu repeti insistentemente "alô" e ela não respondeu. Abaixei a cabeça e comecei a rezar. "Deus, se você existe, deixa a gente ganhar essa. Só uma. Não aguento mais". Ela enfim respondeu, dizendo que a porta estava trancada. Comecei a descer a escada para abrir. E tudo explodiu. O maior barulho que ouvi na vida. Era nosso? Era deles? Corri de volta e meu pai estava parado no meio da sala, com os braços abertos: "É campeão, filho. É campeão". Pulei e o abracei. Pendurado nele, esperei o replay mostrar que Robinho havia driblado e tocado a bola para o meio da área, e que Elano a colocou no gol. Éramos campeões, enfim.


O dia 15 de dezembro de 2002 - exatos 14 anos atrás - é o dia mais feliz da minha vida que dura quase 27 anos. Já me apaixonei perdidamente por mais de uma garota. Já me formei na profissão dos meus sonhos. Já escrevi textos dos quais me orgulho muito. Nenhuma alegria, nenhum momento de felicidade, porém, bate a que eu senti naquele domingo. O domingo no qual o Santos foi campeão brasileiro comandado por meninos poucos anos mais velhos que eu.


Lembro com detalhes de toda aquela tarde/começo de noite, por isso afirmo sem medo toda a felicidade sentida. Um amigo meu, corintiano, ficou em casa insistindo em jogar videogame até 15h59, quando finalmente o expulsei. Não por torcer pelo adversário do dia, mas sim porque eu precisava assistir àquele jogo sozinho.


Me fechei no quarto de minha mãe e não consegui parar na cama na qual sentei para assistir. Pouco mais de meia hora depois, eu me escondi. Sim, porque Robinho pedalou, foi derrubado e eu não soube o que fazer. Fui para a sacada e me escondi atrás da porta, enquanto via os vizinhos gritarem. Vejo o pênalti? Não vejo o pênalti? Não vou ver. Vou. Vi. "Meu deus do céu, estamos ganhando a final do Brasileiro".


Getty Images
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Sorrisos que valiam mais que diamante


Passei o intervalo quieto, nervoso. Meu pai chegou em casa e foi ver na sala. Gritou muito, fechei a porta. Eu não sabia como lidar com sentimentos além dos meus naquele dia.


Exatamente 30 minutos depois da bola voltar a rolar, ela viajou pelo alto e, enfim, passou por Fábio Costa, o melhor em campo naquele dia. E eu lembro exatamente o que aconteceu, e só de lembrar e colocar no papel/tela percebo que a dor que senti não era exagero. Eu comecei a passar muito mal. Muito. Não sei se biologicamente é possível alguém de 12 anos ter um ataque cardíaco, mas, se é, fiquei muito próximo naquele momento.


Contrariando todo meu amor por futebol, saí de frente da tv e fui para um quartinho em que ficava o computador de casa. E comecei a jogar mini-golfe. Foram horas jogando aquilo na minha cabeça, mas na realidade, aparentemente, nove minutos, até que gritos me fizeram correr para a sala.


"Acabou, filho, acabou. Deram um jeito". Meu pai deixou claro que eu não poderia sorrir naquela tarde.


E aí o interfone tocou. O mundo explodiu. Corri. Abracei meu pai. Voltei para a TV. Pedi um gol para que acabasse da melhor forma possível. Léo chutou. Foi gol. Acabou da melhor maneira possível. Corri de novo. Pulei. Gritei.


E fui para a rua jogar bola. Com aquele amigo do videogame. Eu com camisa do Santos, ele com a do Corinthians. Passou um cara caminhando com seu cachorro. Eu protegia a bola desse amigo quando o desconhecido diz: "Não deixa ele pegar, não deixa. Pra eles não. É nossa. Nunca mais. Nunca mais a gente perde".


Sorri. Feliz como nunca fui de novo.


*Recomendo a todos que ouçam a narração dos gols de Elano e Léo, na final de 2002, na voz de Jorge Lunardi, da Rádio Atlântica AM. Que me perdoem Galvão Bueno e o narrador islandês da Eurocopa, mas nem eles conseguiram tirar um grito tão do fundo da alma como Lunardi: