Dorival e o uso de um só zagueiro: testes vêm de 2010

Na última segunda-feira (19), ao menos dois portais (Globo Esporte e Lance!) noticiaram que o técnico Dorival Jr. pretende implantar em 2017, desde a pré-temporada, algo que ele já usou no final deste ano: um volante como zagueiro, atuando com apenas um defensor de origem. Com essa informação, é possível relacionar várias situações já existentes, mas uma é muito importante de ser lembrada: ele já fez isso não só em 2016, mas em 2010, durante sua primeira passagem pelo Santos.


O plano consiste em usar a primeira linha defensiva com cinco jogadores. Mas, em vez de três zagueiros e dois laterais, Dorival utilizaria um único zagueiro, centralizado, e dois volantes colocados entre os laterais e o jogador do meio. Quando a bola fosse recuperada, esses dois volantes avançariam, dando mais uma opção de ataque. Yuri, em 2016, foi usado nessa função no final do Brasileiro.


A tática é inovadora, com poucos times europeus (nenhum outro brasileiro) e algumas seleções utilizando-a. Mas, para Dorival, ela não é tão nova assim. Em 2010, ele fez testes com essa ideia de apenas um zagueiro em campo. Foram poucos minutos, em jogos contra adversários em geral não tão fortes... Mas a ideia estava lá.


Getty Images
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Dorival aponta o n° de zagueiros que pretende utilizar


A primeira foi em um obscuro jogo contra o Oeste, pela 5ª rodada do Paulista. Com o time vencendo apertado por 1 a 0, Dorival primeiro tirou Marquinhos, meia, e colocou Arouca, volante. Em seguida, tirou o zagueiro Bruno Rodrigo e colocou o ponta Madson, ficando apenas com Durval como defensor fixo e três volantes: Arouca, Rodrigo Mancha e Wesley. Ou seja: como ele quer em 2017 - três volantes em movimentação, um zagueiro. Deu resultado: o time fez o segundo gol após as mudanças.


A ideia foi repetida no histórico 10 a 0 sobre o Naviraiense, na Copa do Brasil, pouco mais de um mês depois da experiência anterior. Naquele dia, com o placar já em 6 a 0, Edu Dracena deu lugar a Giovanni. Poucos dias depois, no 9 a 1 sobre o Ituano, Dracena saiu para a entrada de Roberto Brum, volante, enquanto Arouca saiu dando lugar a Maikon Leite, atacante. E foi além: tirou o lateral Pará e colocou Zé Love. O time acabou o jogo com só um zagueiro (Durval), um volante na direita (Wesley) e dois recuando para fechar o meio (Mancha e Brum), sem lateral esquerdo.


Há exemplo em que a ideia deu errado - ao menos não transformando o placar final da partida. Na 5ª rodada do Brasileiro, o Santos perdeu para o Corinthians por 4 a 2. Com o placar em 4 a 1, Dorival tirou Edu Dracena e colocou Zezinho, meia. Com um só zagueiro, o Santos ainda diminuiu o placar (em explicação rasa, "venceu" por 1 a 0 com a formação).


Em resumo: Dorival já colocou em prática essa formação. Só que fez aos poucos. Maturou a ideia. E agiu como Guardiola.


"Como Guardiola? Por quê?"


Pep Guardiola, no livro "Guardiola Confidencial", conta que não implementa todas suas ideias de uma vez. Ele apresenta uma, a treina com seu elenco e, no futuro, adiciona outra ideia, para que ela seja entendida quando a anterior já está assimilada por completo. 


Dorival faz isso: usou uma tática em 2015, focada em triangulações; aumentou a posse de bola e a trouxe a flutuação dos laterais para o meio em 2016. E em 2017, adicionará outra possibilidade, ainda mais ofensiva. Aos poucos. Maturando. 


"Em cada sessão (de treino), Guardiola explica aos jogadores um movimento específico e, em seguida, passa à sua execução. Depois de algum tempo, retoma cada um dos conceitos. Desse modo, o elenco acabará conhecendo e dominando as mais variadas ações de jogo e, quando for necessário, terá segurança para pô-las em prática".


Você pode acreditar que estudar o futebol não é necessário. Mas quem estuda, e bem como Dorival, é quem traz inovação. O santista precisa confiar. E não ter medo do novo. O novo assusta, mas a longo prazo dá prazer.