Santos coloca mulher em papel coadjuvante. Pouco para quem tem o brilho das Sereias

Caros, no Dia Internacional da Mulher, vou fazer o que considero certo: ficar  calado. E me posicionarei contra a postura recente do Santos, seu departamento de marketing e diretoria, por meio de uma pessoa que entende muito mais do assunto: uma mulher. Juliana Teixeira, uma pessoa que eu sei que entende do assunto e que eu tive certeza, ao pedir o texto abaixo, que colocaria no papel palavras muito melhores do que eu poderia.


O Santos criou uma promoção, por meio do Sócio Rei, em que homens indicam mulheres para ir a um jogo. Ué, as mulheres não podem se indicar? É preciso esse intermediário? Como uma promoção dessas foi aprovada? Para questionar e combater isso, Juliana me mandou estas palavras, que em minha opinião resumem muito bem o sentimento de todas as santistas.


Após isso, volto a minha postura de não escrever sobre extra campo, postura consolidade aqui no blog. Hoje, a exceção é validísima. 


Pedro Ernesto Guerra Azevedo/Santos FC
Pedro Ernesto Guerra Azevedo/Santos FC

Sereias da Vila terão técnica. Lindo


Por Juliana Teixeira


A equipe feminina do Santos Futebol Clube foi criada em 1997, apenas um ano após a modalidade se tornar esporte olímpico. De lá pra cá, o time tem se destacado não só pelos inúmeros títulos conquistados e por ser a base da seleção, mas por profissionalizar atletas e dar a elas o tratamento digno que a categoria merece. Hoje, somos referência. É ainda muito pouco em comparação com time masculino, mas já é mais do que a maioria dos clubes do Brasil faz.


Se somos famosos por ser o time do Pelé, hoje era um dia perfeito pra lembrarmos que fomos também o time da Marta, a maior jogadora que o mundo já viu. Mulher negra, de origem pobre, e que está onde está no futebol apesar de todos os obstáculos que a sociedade lhe impôs. Que o mundo predominantemente masculino do futebol continua impondo diariamente. Marta, a mulher que transformou o futebol feminino no Brasil. Que mostrou que nosso lugar é, sim, no campo, na arquibancada, onde nós quisermos. Ela é a melhor representação possível das torcedoras santistas. Das torcedoras brasileiras.


Ser mulher e gostar de futebol é ter sua capacidade testada o tempo todo. Ser mulher, gostar de futebol e torcer pro Santos é passar por isso em dobro. Especialmente na minha geração, antes de 2002, quando éramos as únicas num raio de quilômetros. Por outro lado, o Santos tem um legado de inclusão da mulher no futebol que deve ser constantemente lembrado, exaltado e ampliado. Não faltam histórias pra contar. De mulheres, para mulheres. No campo, na comissão técnica, na administração do clube, nas arquibancadas.


Em vez disso, as ações do Santos preferiram nos deixar num papel passivo e coadjuvante. Na primeira, o clube ofereceu um show de um cantor, com entrada gratuita para mulheres. Sim, a imagem é bem simbólica. O dia é nosso, mas vamos todas nos reunir ao redor de um homem e ouvir o que ele tem a dizer e cantar pra nós. Ninguém questiona o talento dele. Nenhum problema com o show. Todos os problemas em ser esta a homenagem às mulheres.


Na segunda o clube, por meio do programa Sócio Rei, pediu que sócios indicassem sócias explicando por que elas merecem ganhar um ingresso no camarote da Vila Belmiro. Nas duas promoções, as torcedoras santistas não têm a palavra. Na campanha do Sócio Rei, inclusive, não basta ser associada e adimplente. Só pode participar quem for indicada por um sócio. A torcedora só é torcedora suficiente para o Santos se outra pessoa – e, conforme esperado, em sua grande maioria, esta outra pessoa é um homem - assim o disser.


Faltou também informação, tanto sobre o programa de associação para mulheres, quanto sobre o cronograma do time feminino. Em momento nenhum a campanha diz que temos planos com descontos – o que não é nada menos do que justo, considerando que a disparidade salarial entre os gêneros é uma realidade. Nem uma palavra sobre a campanha das Sereias, que neste ano conta com uma mulher no comando da equipe: Emily Lima, ex-treinadora da Seleção Brasileira. A divulgação foi somente para o jogo do time masculino.


O 8 de março é uma data política, de luta por igualdade e reconhecimento das conquistas das mulheres. Representatividade e protagonismo fazem parte dessa luta. É muito importante que os clubes se posicionem, dado que o futebol ainda é um ambiente muito hostil para as mulheres. Mas é fundamental que esse posicionamento se dê de forma consciente, nos oferecendo mais espaço, dando voz, divulgando o trabalho das mulheres, e não reforçando estereótipos e posições secundárias. O Santos pode e deve fazer mais. Por respeito a cada uma de nós e à sua própria história.