Talvez só o santista entenda Neymar. Problema do resto

"Pensei dez vezes. Ia quebrá-lo".


Essa frase foi dita por Nunes, um atacante que, no dia 24 de janeiro de 2013, data de tal sentença, tinha 30 anos. Experiente, não é mesmo? Mas disse essa frase, violenta, contra um companheiro de profissão. 


Este, no caso, Neymar. Dias antes, Nunes tinha levado um "chapéu inédito" de Neymar, então no Santos, em duelo com o Botafogo-SP na Vila Belmiro. O santista havia 'pisado' na bola com a sola da chuteira, a feito quicar no gramado e passar por cima de Nunes. Lance de gênio.


O que ouviu de volta? Que o cara que levou seu chapéu "ia quebrá-lo". 


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Bate no peito, meu caro


Aí eu te pergunto: o quão legal é você ouvir isso desde seus 17 anos, idade na qual estreou no profissional do Santos? Detalhe: aos 17 anos, ele ouvia isso de zagueiros e volantes de 20, 25, 30 anos. Todos mais fortes e mais velhos, mais experientes e, olha só, piores com a bola do que ele.


E o que Neymar fez? Resolveu que partir para cima era a solução. Ganhou de 1, de 2, 3, 4 ,5, 6, 7, 8, 9 e 10 usando a camisa do Santos. Apanhou, levantou. Apanhou, aprendeu a cair. Apanhou, xingou de volta.


Mecanismo de defesa.


O que você faria se, aos 17 anos, apanhasse de todo mundo enquanto cumpria sua profissão, seu trabalho? O que faria ao apanhar diariamente ao jogar bola no país que, veja só, diz que defende a alegria, o 'dibre', a festa em campo?


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Cai. Levante a anda.


Sim, o tempo passou. Entrou dinheiro, sonegou dinheiro, largou o Santos, largou o Barcelona, fez o que fez, não fez o que não fez. Eu sei lá, eu não me importo com a vida pessoal de nenhum jogador. Como diria João Saldanha, eu não quero nenhum deles namorando a minha filha, quero jogando bola.


Apesar de que Vampeta's, Edílson's e tantos outros não pagam pensão, dizem que "choram" ao pagar a pensão, são presos por negar a pensão.


E Neymar, fora de campo, tem uma relação ótima com a mãe do filho, com o filho. Ou você já viu notícia do Davi Lucca estar sem pensão? Eu não só nunca vi, como vejo sempre um garotinho gordinho, feliz, sorrindo com o pai.


Mas, veja, aparentemente isso não é "moralizador". Legal é não pagar a pensão e rir disso em programa de rádio. Ou falar que "goleiro negão é ruim". Mas eu não sei de nada, eu sou só um jornalista.


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"Iria quebrá-lo"


Aliás, falando em jornalismo... Sabe quando você, leitor, fã de futebol, vê jornalista reclamando que contratam ex-jogadores para comentar partidas, ou afirmando que ninguém pode dar opinião sobre o que for, pois essa é a profissão dele?


Pois bem. O que pensam de jornalistas fazendo análise psicológica de um atacante, sem ter diploma para isso, ou, digamos que tenham diploma, sem ser o psicólogo desse jogador?


Eu, particularmente, perguntando para amigos psicólogos, psiquiatras, o que for, aprendi que é cada um na sua profissão. Eu não tenho a menor condição de fazer análise psicológica de um atleta o qual só vejo pela tv ou das arquibancadas, tenho? Não, não tenho. Será que algum desses analistas de futebol têm? Bom, até onde sei... Não, não têm.


Não é cada um na sua?


Aliás, não é hora de repensarmos o que debatemos em mesas-redondas? Porque, veja bem, não somos nós, jornalistas, que reclamamos da falta de profundidade no debate futebolístico? Ou, fora do esporte, de notícias como "Caetnao Veloso estaciona carro no Leblon"?


Então por que o cabelo do Neymar é notícia? É por que ele é feio? Feio na opinião de quem? Do branco que tem cabelo "bom"? "Bom"? Por que "bom"? Existe cabelo ruim ou só na sua cabeça preparada, desde pequeno, para chamar o cabelo diferente do seu de "ruim"? 


Gazeta Press
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"Neymar é mascarado!", eles bravam. Na Vila, até isso significa outra coisa...


Eu não estou aqui para defender o Neymar. Eu queria entender por que atacam Neymar. Por que seu choro é criticado, e o de jogadores como Kroos e Falcao, não?


Por que seu cabelo é criticado e o olhar de Cristiano Ronaldo para o telão, não? Por que Neymar xingar rivais dos quais apanha no jogo é ruim, mas Messi (em teoria) e toda a seleção argentina se voltarem contra Sampaoli, não?


É o que digo: talvez, se você não for santista, você será incapaz de entender e admirar Neymar. Para sempre.


Por quê? Porque só aqui a cultura é do ataque, sempre. É a de apanhar, cair, levantar, arrebentar o rival com três gols? E, sim, xingá-lo. Porque o santista gosta de jogador folgado - e que responde o xingamento xingando de volta, mesmo. E, em seguida, metendo gol. Um, dois, três, quatro. Como Neymar fez durante seus 4 anos no Santos, constantemente.


Gazeta Press
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Será que se ele usar fita na Copa, vão xingá-lo?


O mecanismo de defesa do santista é botar os moleques pra cima dos carniceiros - e qual outro time no mundo revelou tanta gente quanto o Santos? La Masia? Aquela que teve Iniesta, Xavi, um argentino que tiveram que caçar aos 11 anos e... Mais ninguém? Entendo.


No Santos, você é xingado, apanha, e humilha de volta. E a torcida te apoia.


No resto do país, não há ninguém acostumado com isso. Temos times com mentalidade defensiva, mentalidade do dinheiro, mentalidades diversas - não erradas, diferentes.


Da ousadia, alegria, do xingar de volta e calar a maioria, pois nós, santistas, somos minoria - e temos orgulho disso.


Porque com Neymar e cia. a gente humilha, dribla, xinga de volta, dá chapéu, ouve ameaças e ganha na bola. 


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ele ganhou uma Libertadores com este cabelo. Por que não pode ganhar uma Copa com o cabelo que for?


Eu não sei se Neymar vai voltar um dia. Nem me importo, na verdade. Que jogue em rivais, aliás. O que eu quero dizer, é: ninguém vai entendê-lo como o santista. Nunca.


Que sigam se achando psicólogos, especialistas, cabeleireiros. Que reclamem, que xinguem.


Neymar vai pra cima, o santista vai dar risada, os chatos vão falar, falar, falar... Que arranjem retuítes, que ganhem audiência. Ninguém vê o Santos, mesmo. A gente sabe lidar com isso.


Que sejam chatos. Ser chato é opção. Tem quem goste.