Santos: a "Geração do Quase" e a aceitação do mediano

Sou um eterno insatisfeito: me cobro constantemente, acho que posso melhorar em tudo que faço. E transfiro essa exigência ao que gosto: relacionamentos, família... Clube de futebol.


Por isso, um comentário me chamou atenção em meu mais recente texto, 'Cuca comete série de erros, queima estrangeiros e se mostra o mesmo de sempre', escrito após a derrota do Santos para o Atlético-MG. 


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Nele, fui criticado, junto a outros que analisam o Santos, por reclamar da "Geração do Quase", um time muito famoso dentro da história do Santos: o elenco que perdeu a Copa do Brasil de 2015, abandonou a vaga na Libertadores via Brasileiro de 2015, perdeu o Brasileiro de 2016, jogou mal o Brasileiro de 2017 inteiro e tomou postura de geração salvadora após dois títulos no ínfimo e inútil Paulista.


O curioso do comentário é que ele tratou as críticas à "Geração do Quase" como errôneas, por ela ter colocado o Santos na briga por títulos (fato) e conquistado boas posições no Brasileiro (também verdade), e que deveríamos ser gratos a isso pois não é todo ano que o Santos levanta taças.


E essa última parte me pegou.


Gazeta Press
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Ricardo Oliveira é, para mim, o melhor 9 do século no Santos - por 2003, principalmente, mas também pela segunda passagem. O que não me impede de ver que seu ciclo havia se encerrado - e isso não é errado


E me deixou curioso porque isso significa que a aceitação ao mediano é algo muito comum de ser vista em nossa sociedade - e, como sempre digo, não há maior espelho da sociedade que o futebol.


Por que o santista deveria ser grato à "Geração do Quase"? Porque há dois lados pelos quais a ótica deste time pode ser analisada: a primeira, a de cima, de posições conquistadas após anos abaixo; e a segunda, na qual toda a esperança e fé do torcedor foi sendo trucidada quase como em forma de tortura: aos poucos, pedaço a pedaço, com momentos de pausa para que a ilusão voltasse e, logo depois, fosse despedaçada quase com toques de sadismo.


O santista passou três temporadas assistindo um time que tinha tudo para ser campeão, mas que optou por fazê-lo chorar quando estava a um toque da glória.


E isso, meus caros, eu vejo como algo maior do que leves e curtos instantes de felicidade. Porque o sonho é tê-la plena - e este time nunca permitiu.


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David Braz não foi o pior jogador dessa geração - em 2015, por exemplo, se lesiona na final da Copa do Brasil e o santista viu Werley e Paulo Ricardo falharem. Eles eram piores, é claro. Mas Braz se tornou símbolo da "Geração do Quase". Porque "quase" sempre falhava. E isso, meus caros, é que míngua sonhos aos poucos


O que incomoda o torcedor quando se lembra deste time não são as derrotas - elas acontecem. É a maneira com que ocorreram: o time era melhor que o Palmeiras na Copa do Brasil, mas perdeu gols e mais gols no jogo de ida, perdeu no Allianz, também, antes mesmo da abertura do placar, e só correu para levar o jogo aos pênaltis quando o afogamento já era impossível de ser impedido; na verdade, apenas deu um último respiro antes da morte dolorosa.


O que incomoda é a postura de arrogância, de nunca continuar atacando após a abertura do placar, de sempre querer colocar para a toricda qualquer resultado minimamente positivo como um ato heróico e único, nunca antes visto na história.


O problema, meus caros, é que times como os da década de 1960 existiram; ou, para os mais jovens, os times de 2002 a 2004, de 2010 e de 2011. Times que marcavam e continuavam, mostrando o maior respeito aos adversários e a seus fãs existente: o de seguir, do primeiro ao último segundo, jogando o mais sério e objetivo possível.


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Lucas Lima, por exemplo: se arrastou por muitos jogos, apareceu só em alguns decisivos, mesmo assim só ganhou Paulistas e ainda saiu escorraçando quem o apoiou até o último minuto


Assim, quando Ricardo Oliveira anota dois gols sobre o Santos, a primeira memória que vem à mente do torcedor é de "como liberamos esse cara?", e esquecemos todos os motivos pelos quais passamos um ano inteiro pedindo para que ele acordasse, corresse, voltasse a jogar o que sabe, reclamasse menos em campo e na mídia, fizesse menos caretas e anotasse mais gols.


Esquecemos que, em decisões, ele e todos seus companheiros não se tornaram a "Geração do Quase" à toa: se tornaram pois perderam jogos importantes atrás se jogos importantes. Perderam para o Palmeiras a Copa do Brasil de 2015; perderam para o Internacional reserva e pouco depois rebaixado o mesmo torneio em 2016; perderam pontos para Flamengo, Vasco e Coritiba e entragaram o sonho da Libertadores no Brasileiro de 2015; perderam para o lanterna América-MG quando enfim alcançaram a liderança do Brasileiro de 2016, para nunca mais retomá-la; perderam para o Barcelona-EQU, em casa, a Libertadores de 2017.


Perderam. Perderam e perderam muito. Quando tinham bola para vencer. E é isso que dói.


Eles eram melhores. E sempre perderam. Não tirando o mérito dos adversários. Mas sempre com a impressão de que não deram tudo. 


Não esqueçamos disso. A "Geração do Quase" quase nos fez feliz. Quase nos deu títulos. Quase venceu. 


Mas, no fim, perdeu. 


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Quase foi gol. Quase


Cobrá-la não significa diminuir suas qualidades. Não significa tirar seus méritos e ignorar que foram bem em diversos momentos.


Significa não aceitar o mediano. Porque o mediano é mais do mesmo. Queremos o diferente. Lutamos pelo melhor. É o melhor que nos faz feliz.