Santos, Allianz, a última catarse e o trauma jamais superado

Eu olhei para o lado e meu amigo estava paralisado, os braços agarrando a cabeça baixa, encostando no peito.


Eu olhei para cima e vi duas pessoas berrando, segurando com uma mão a barra de ferro protetora e, com a outra, socando o ar.


Eu olhei para baixo e vi pessoas se abraçando, pulando, gritando.


Eu, que detesto tirar a camisa em público, esqueci disso por um segundo. Quando enfim tive a chance de olhar o que eu mesmo estava fazendo, percebi que girava a minha no ar, gritando repetidamente a mesma palavra, a voz alta como desde então nunca mais se repetiu.


"Gol."


MIGUEL SCHINCARIOL/AFP/Getty Images
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Gol


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Dez minutos depois, caminhava de mochila nas costas por ladeiras que nunca havia visto antes.


Seguia um amigo. Ele sabia onde ia? Talvez. Eu não sabia. Estava desnorteado.


À minha volta, festa, alegria, sorrisos. Eu, desolado.


Eles devem ter percebido. Mas me deixaram passar. Porque meu trauma já exalava eternidade. Por que eles interromperiam sua felicidade para debochar da minha dor?


MIGUEL SCHINCARIOL/AFP/Getty Images
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Dor


Dez minutos separaram a última catarse de minha vida como santista de um trauma que até hoje, três anos depois, ainda não foi superado.


Eu nunca escondi, e meu texto preferido neste espaço é sobre isso (se chama 'A "Geração do Quase e a aceitação do mediano' e você pode lê-lo clicando aqui), que a final da Copa do Brasil de 2015 ainda machuca. Não pelo Palmeiras - poderia ter sido para o Corinthians, para o São Paulo, para a Portuguesa Santista ou para o Linense, doeria do mesmo jeito -, mas, sim, por tudo que aquela derrota significou.


E, principalmente, por tudo que ela proporcionou em termos de sentimento naqueles minutos e que deixam sequelas até hoje.


Recordo disso porque no próximo sábado o Santos volta ao Allianz Parque para enfrentar o Palmeiras. Eu nunca mais voltei ao estádio para ver futebol.


Mas eu ainda lembro de colocar minha camisa na mochila, ir para a aula de japonês, ser aprovado no teste oral (não, eu não fui muito além do básico), entrar no metrô nervoso, andar de cabeça baixa entre a torcida toda de verde na rua, virar a esquina em que automaticamente todos percebem que você é rival, passar pela barreira policial e entrar em meio aos meus.


Ainda lembro das piadas pré-jogo, das torcidas organizadas cantando a mesma música, da bola na trave no 1° tempo, de avisar que Paulo Ricardo estava marcando errado e o gol sair nas costas dele, de ver todo o sonho da Libertadores e do título parecerem irem embora contra um time que, um mês antes, o Santos havia trucidado na Vila Belmiro.


Ainda me lembro da catarse. De quando Werley desviou, de quando Ricardo Oliveira colocou para dentro. De quando tirei minha camisa, gritei, abracei sabe-se lá quem, cantei. Revivi a esperança.


E de quando ela foi trucidada minutos depois.


MIGUEL SCHINCARIOL/AFP/Getty Images
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Geração do Quase


Porque eu ainda lembro de dizer apontar para meu amigo e ele saber que aquilo significava "vamos". Lembro de descer as escadas eternas. Lembro de sair à rua e ver todos felizes. Menos eu. Lembro de caminhar, caminhar, caminhar e o carro nunca chegar. Lembro da carona acabar uma hora de silêncio depois. De entrar em casa e a ficha cair. E seguir lá, até hoje, me lembrando de tudo isso.


Aquele jogo ainda me dói. E eu não sei o que fazer para que essa dor passe. Eu só sei que, sempre que o Santos visita o Allianz, e já ganhamos lá depois daquilo, eu lembro daquela noite de 2 de dezembro de 2015.


O futebol é a única coisa que, enquanto vivo, me permito sentir. Mas o trauma já é longo demais. Precisamos de uma nova catarse, Santos. Urgente. E duradoura.