Por que gostaria de um técnico estrangeiro no Santos em 2019

"Ainda estou muito triste com sua decisão de não renovar, mas devo dizer que você nunca nos decepcionou. Você sempre disse que tem consciência de ser apenas uma pequena parte da história do clube. Sou torcedor do Bayern há mais de 30 anos e quero lhe dizer que as coisas nunca foram tão bonitas como nesses dois anos e meio. Nunca vi o meu Bayern jogando um futebol tão bonito e  não posso explicar a quantidade de momentos maravilhosos que você e a equipe nos deram. São tantos momentos excepcionais e fui tão feliz ao ver meu time jogando assim que derramei muitas lágrimas de alegria. Por essa razão, quando você declarou que se não ganhar a Champions League muitos dirão que sua missão ficará incompleta, também devo dizer que há muita gente, como eu, que não vê as coisas dessa maneira. Quero ganhar, claro que sim. Mas quero ganhar precisamente pela maneira de jogar futebol que praticamos com Pep. Quero ganhar por esse estilo de jogo. Não posso descrever com palavras oq ue essa maneira de jogar significa para mim. Mas, mesmo se não ganharmos, seu legado será tão grande que nunca esquecerei esses momentos incríveis pelo resto de minha vida. E tenho que dizer, também, que como pessoa você é realmente uma grande inspiração para mim. Obrigado também por isso."


Quem lê este blog há algum tempo sabe de duas coisas: que eu detesto todo e qualquer técnico brasileiro, pela mesmice, falta de estudo e de ideias, e que quando eu leio os livros de Pep Guardiola fico doido com a incapacidade dos nossos compatriotas em entenderem conceitos tão simples do futebol.


Então, como comecei a ler 'Pep Guardiola: a evolução' no último final de semana, é impossível que minha mente não se volte para pegar cada trecho e, neste espaço, comparar o que penso com o livro e com o Santos, tema obrigatório aqui.


Assim, este trecho de cima é retirado do livro, uma carta de um torcedor do Bayern para Guardiola escrita quando o espanhol anunciou que deixaria o time. Guardadas as proporções, quando foi a última vez que você, santista, pensou em palavras tão boas para um técnico?


Difícil, certo?


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Ivan Storti/Santos FC
Ivan Storti/Santos FC

Mais do mesmo (e o mesmo é ruim)


Se forçarmos muito, podemos responder Dorival Jr., 2010. Mas para Cucas, Osvaldinhos, Jaires (é esse o plural? Vai saber) e outros técnicos comuns que passaram pelo Santos nos últimos anos, algo que não guardamos foi carinho.


E, por isso, eu insisto: deem chance a um estrangeiro. Brasileiros rodam por todos os clubes da Série A e nada mudam, nada criam, nada estudam, nada inovam. Cansa. É chato. Repetitivo. E inútil.


Lembremos: o time de 2019 será comandado por Carlos Sánchez. Não teremos vez para panelinhas de igreja, de brasileiros acostumados com técnicos que não pressionam, que permitem preguiça, que apoiam o sono. Não. O time será de um uruguaio. Tragam um técnico de fora que, com Sánchez, não tem erro.


Mas trago outro trecho do livro antes de seguir:


"Se não se faz um mínimo de esforço para entender o jogo, as análises acabam sendo desalentadoramente supérfluas, recorrendo-se a aspectos totalmente alheios ao próprio jogo. Basta olhar diariamente a imprensa para se comprovar isso."


"A criatividade é parte imprescindível no futebol, e não me refiro ao gesto criativo do futebolista, que certamente é uma das essências desse esporte, mas à mentalidade inovadora do treinador."


"Devemos reconhecer que o conceito de criatividade tem uma imagem muito ruim dentro do futebol, porque estamos diante de um mundo voluntariamente obsoleto, fixado em paradigmas que caducaram, no qual grandes forças conspiram para que nada evolua e tudo permaneça estancado no clichê da comodidade."


Getty Images
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Obsoleto, cômodo, desalentador, sem criatividade


Quando argumento aqui em outros lugares sobre meu pensamento de que téncico brasileiro deveria passar longe de qualquer clube que queira ser grande, esses trechos são o que penso - principalmente o último.


Me respondem que os jogadores brasileiros não aceitam estrangeiros, que para ganhar no Brasil não precisa de tudo isso... Clichês e mais cliches preguiçosos, sem sentido e de quem não quer se dar ao trabalho de pensar.


Pessoas que dizem isso aceitam a mediocridade do futebol brasileiro e valorizam conquistas como a de Luiz Felipe Scolari - ele foi mal ao ser campeão brasileiro? Claro que não. Mas ganhar aqui é fácil, o que trouxe de inovador? Trouxe apenas mais uma atuação em que foi dominado pelo Boca na Libertadores, time nada além de médio. Fora daqui, o futebol brasileiro passa vergonha - mas se contentam com isso.


Por que não queremos o novo? Por que nenhum time quer ser o que muda o futebol daqui? Porque os dirigentes, tal como os torcedores, preferem ser obsoletos e cômodos.


Lucas Merçon/Fluminense FC
Lucas Merçon/Fluminense FC

Qual seu último trabalho de qualidade e ofensivo?


Por fim, o Santos, é preciso lembrar, tem sim o 'DNA santista'. É ataque, é alegria. Lógico que o santista quer jogar para a frente.


E quem vai fazer isso? Abel Braga? Jair Ventura? Cuca? Não. No Brasil, não há quem entre os disponíveis (e quase ninguém entre os empregados).


"Há uma inegável conexão através das eras entre os proponentes do futebol que busca a fluidez, o senso coletivo, o refinamento técnico, o encantamento", escreveu André Kfouri na apresentação do livro.


E isso. O Santos, como um dos que definiram o que é futebol bonito em outras eras, precisa buscar essa similaridade. Que hoje só se encontra em técnicos que não atendem pela língua portuguesa.


É simples.