Santos vive momento especial... Mas cadê a torcida?

No dia 30 de janeiro, André Kfouri (apresentador do SportCenter na ESPN) publicou em sua coluna no Lance! um texto chamado 'Sentimento'.


Nele, Kfouri lembra do trecho de preleção divulgado pelo Santos para o jogo contra o São Paulo, no qual Jorge Sampaoli aparece falando que o torcedor presente no Pacaembu estava esperançoso, que tinha poucas oportunidades de desfrutar um bom futebol e que havia gastado dinheiro que não tinha para estar ali. Em seguida, ele escreve o seguinte trecho:


"Esse é um tema recorrente em conversas internas, nas quais Sampaoli lamenta a baixa ocupação dos estádios brasileiros. Ele não concebe o futebol sem as pessoas. Se quem carrega o Santos no coração se abraçar ao time e compreender os caprichos deste jogo, as possibilidades se abrirão e as chances de Sampaoli cumprir seu contrato serão maiores. Mesmo se as coisas não funcionarem na velocidade que ele deseja."


Ele não concebe o futebol sem as pessoas.


Nem eu. Nem você deveria.


Ivan Storti/Santos FC
Ivan Storti/Santos FC

3 a 0, tranquilidade, bom futebol, novos conceitos... 14 mil pessoas?


14 mil pessoas estiveram no Pacaembu para ver o Santos passear contra o Guarani. Não uso "passear", aliás, de forma pejorativa: o Guarani jogou; o Santos simplesmente jogou mais, a ponto de construir o placar com facilidade.


No clássico contra o São Paulo, público de 20 mil. Mirassol, 16 mil. Pouco.


Muito pouco.


Três vitórias, três oportunidades de se ver o Santos jogar de forma diferente perdida pela torcida. Contra o Guarani, o domínio; contra o SP, o amasso; contra o Mirassol, a paciência.


Três jogos em que o Santos deu ao seu torcedor duas coisas (além de vitórias): a chance de ESTUDAR seu novo estilo, de se acostumar com a ideia de que futebol se joga com bola no chão, e não com gritos de "CRUZA, CRUZA!" vindos da arquibancada; e a chance de DESFRUTAR um bom futebol, independentemente de teorias e ideias.


O torcedor santista segue jogando essas chances fora.


Ivan Storti/Santos FC
Ivan Storti/Santos FC

O nome gritado mais alto. Porém, por poucos


Sabe como, hoje, você lembra de 2010 e 2011 por "jogos que vi Neymar"? Você sabe do que estou falando: todo santista comenta coisas como "eu estava naquele gol contra o Flamengo!", "estava lá no gol em que ele driblou todo mundo contra o Inter!", "claro que vi Neymar chapelar o Nunes com a sola do pé", "vi todos os títulso dele no estádio!". Todos falamos coisas assim.


Você quer perder uma nova chance?


Porque o Santos está jogando para a frente, buscando o gol rival "como se fosse uma religião", nas plavras de Sampaoli. Nao é isso que o santista gosta de ver? Não é o tal DNA?


Então, cadê a torcida?


Sim, eu sei: ingressos são caros - e o novo sistem de sócio e compra de entradas é um horror. Mas eu penso em proporcionalidade: o público de São Paulo, ABC e região IMPLOROU por anos por mais jogos no Pacaembu. Agora, todos são lá. E... Não lota nunca?


Falar que a Vila Belmiro está sempre vazia é fácil: o torcedor da Baixada Santista é acomodado, sempre foi e sempre será. Eu sou de lá, nasci e vivi 20 anos em Santos. Eu conheço as pessoas de lá. Preguiçosas para o futebol. Uma pena.


Mas e o paulistano, que passou anos e anos pedindo mais jogos e agora, com Sampaoli, e ofensividade, e loucura, e evolução, tudo que sempre tivemos vontade de ver... Não vai ao estádio?


Numa região de milhões e milhões de pessoas não existem 30 mil santistas que podem ir a um jogo segunda de noite, pós-trabalho, com metrô ao lado? Ou num domingo, 17h, num clássico?


É uma vergonha, me desculpem.


Aproveite a chance. Futebol bonito é raro no Brasil. Destruíram nosso futebol. E é o Santos, hoje, quem luta contra isso.


Saia do sofá.