Doeu. Mas um dia será apenas parte do processo

Na NBA, o Philadelphia 76ers é famoso pelo lema "Trust The Process" - ou "Confie no Processo".


Para quem não acompanha, "O Processo" é o seguinte: como na NBA o pior time, até o último ano, tinha a maior chance de selecionar o melhor jogador no 'draft' seguinte, o Sixers resolveu ser, por anos seguidos, o pior time. Eles basicamente montaram elencos horrorosos para perder o máximo possível e, ao fim de cada temporada, ter mais chances de escolher o melhor jogador vindo das universidades.


E assim foi: passaram anos e anos perdendo. Mas, depois de alguns anos, eles tinham, em seu elenco, Joel Embiid e Ben Simmons, que são dois caras de 20 e poucos anos com potencial para dominar a NBA por anos. 


"O Processo" doeu. Tirou torcida do ginásio. Fez a NBA mudar o sistema de 'draft', ninguém mais pode fazer o que o Sixers fez. Mas eles fizeram e, hoje, tem dois craques e um ótimo time em volta para brigar pelo título.


Se vão ganhar? Ninguém sabe. Aliás, provavelmente não. Esse ano. No futuro? É o que todos apostam.


Ivan Storti/Santos FC
Ivan Storti/Santos FC

Dói hoje. Amanhã, talvez não


Meu ponto é: cair para o River Plate-URU é parte do processo pelo qual o Santos passa no momento.


Doeu, irrita, dá raiva, você pensa que não vale a pena e, como é no nosso tradicional imediatismo, já pensa em mandar 70% do elenco embora, trocar o goleiro e, por que não, mandar o técnico para longe também.


É o que se faz no Brasil. Uma cultura futebolística em que toda derrota é o fim do mundo e não se aceita nada além do título, da taça.


Na NBA também é assim: o Sixers teve "O Processo" rejeitado por todos e até hoje é criticado por ter perdido tanto, até porque na NBA só há um título em disputa. Ou se ganha aquele, ou nada.


Mas o ponto é: há muito além de conquistas e vexames. Há todo um meio. Há todo um processo.


Ivan Storti/Santos FC
Ivan Storti/Santos FC

Um dia. Um dia...


Quando eu pedi em 783 textos aqui por um técnico estrangeiro, eu sabia que no primeiro resultado ruim iria apanhar de todo lado.


Foi o que aconteceu contra o Ituano.


Na primeira eliminação, eu sabia que viriam pessoas de todos os cantos do submundo da internet com pedras, armas, facas e o que mais for possível na mão para me colocar como errado.


E vai acontecer neste exato texto.


E eu, e todos que creem que o processo está apenas começando, vamos seguir confiando. 


Porque somos contra o imediatismo. Que culpa tem o técnico se não deram um elenco completo para ele? Que culpa tem a ideia de jogo se nem todos conseguem entendê-la? Que culpa tem qualquer um se está enraizado na cabeça do jogador brasileiro que na primeira adversidade se deve chuveirar a bola na área de qualquer lugar do campo?  


Doeu. Vai doer por um tempo. Pode ter mais dor surgindo no caminho.


Mas o processo não nasceu para ser fácil. Por isso é um processo. E não o resultado. 


Daqui um ano, ou dois, ou mais, vai saber... Voltem aqui e me contem se o processo deu certo quando, de fato, importa.