Sobre perceber que vencer não é tudo

Eu amo NBA. E ela me ajudou, nestes quase 30 anos em que a acompanho, a entender que nem toda felicidade vem da glória máxima. Pense comigo: é um campeonato de 30 times, e 29 vão perdê-lo; nenhum destes 29 terá outra chance de título por mais um ano. Não existe um Estadual de basquete, ou uma Copa dos EUA de basquete, ou uma Liga dos Campeões de basquete para quem está na NBA.


Existe a NBA, e mais nada.


Então, será que os torcedores dos outros 29 times que não gaharam nada em um ano são perenemente tristes? Não. Eles precisam aprender a amar o jogo por outros motivos que não a vitória, a taça. Eles precisam aprender a amar e torcer por novos estilos de jogo, por uma boa defesa, por um bom ataque, por uma inovação, por um jogador em específico... Pode ser pelo que for. 29 times não vão ganhar, e não adianta 29 times terem torcedores eternamente tristes.


Ivan Storti/Santos FC
Ivan Storti/Santos FC

Não traia seu jeito


E eu tento trazer isso para o futebol.


Em 2009, o Santos foi à final do Paulista com a seguinte escalação: Fábio Costa; Luizinho, Fabão, Fabiano Eller e Triguinho; Pará, Germano, Madson e Ganso; Neymar e Kléber Pereira.


Lembrando que Neymar tinha 2 meses de profissional, responda: você foi feliz com aquele time indo a uma final?


Eu não fui.


O time era horrível. Jogava absolutamente nada. Não tinha tática interessante, muito menos técnica. Mas, por um destino, foi para a final.


Em 2014, o Santos foi à final do Paulista com a seguinte escalação: Aranha; Cicinho, Neto, David Braz e Mena; Arouca, Alison e Cícero; Geuvânio, Thiago Ribeiro e Damião.


Não vou nem perguntar: eu sei que você não foi feliz com aquele time.


Mas, em 2019, o Santos caiu para o  Corinthians, nos pênaltis na semifinal do Estadual. Ou seja: caiu antes desses dois times horrorosos que citei. Mas você, pode ter certeza, foi mais feliz vendo o time de Jorge Sampaoli chutar 30 vezes no gol do Corinthians do que aquela chatice do passado.


Ainda podemos comparar com o título de 2016, com o Santos sendo amassado pelo Audax em casa. Foi campeão... Mas sua felicidade foi plena?


Ivan Storti/Santos FC
Ivan Storti/Santos FC

3 meses. A mudança vem aos poucos


Você ficou mais feliz, ou menos triste, com o time que caiu na semi do Paulista, porque você aprendeu (ou sua mente aprendeu, e você ainda não percebeu) que nem tudo é vitória. Que existem outros modos de encontrar a felicidade. Que um milhão de times vão perder, enquanto apenas um vai ser campeão.


Mas que a melhor história talvez não seja a daquele que levantou a taça. A melhor história pode ser a sua. E a sua é que pode ser contada no futuro. Porque foi mais feliz no caminho, não só no final.


Eu não tenho o poder de mudar a cabeça de ninguém, nem de quem me lê aqui, nem de quem assiste meu canal homônimo no Youtube. Mas ao final do jogo na segunda, um jovem chegou em mim no metrô, e disse que estava calmo e tranquilo. Até um pouco triste pela eliminação, mas sabendo que era parte do futebol.


Ou seja: ele percebeu que o plano é longo. Ninguém ganha tudo. Pelé e aquele Santos não ganharam. O Barcelona não ganhou. O Real Madrid não ganhou. Ninguém ganha tudo, repito.


Então, eu prefiro cair jogando do jeito que eu acho certo. Veja, o que eu acho. Você não precisa achar. Mas, provavelmente, acordou nesta terça muito, mas muito mais irritado do que eu.


Eu acordei pensando apenas no que foi dito por Sampaoli após o jogo: "Prometo que nunca vou trair essa forma de jogar. Nunca vou jogar de outra forma que não seja a que jogamos hoje."


É só isso que eu espero. Não traia esse estilo de jogo. Eu quero curtir o caminho. Não só o final.