Copinha: São Paulo vaza retranca e a esperança colorada

Amigos, nada é fácil ao São Paulo, nunca foi, e a partida dos nossos aspirantes contra o Internacional mostrou que a tradição segue de pé, mesmo para um escrete que vem jogando o tal do futebol como se fosse um bloco de carnaval – por onde passa promove bailes, euforia, enlouquece multidões. Se queremos uma alegria este ano, a despeito do time profissional e seus mentecaptos, temos de nos agarrar ao sub-20 como se fosse o último elenco tricolor da face da terra.


Antes de falar sobre a final, contra o Flamengo, um pouco mais sobre o segundo ato contra o Inter e como o ser humano se torna o mais frágil dos cristais quando acredita ser um predestinado. Pois bem, senhores, acontece que o goleiro colorado pensou ser o escolhido e que, munido de uma espécie de manto moral que o tornava distinto dos demais, poderia sozinho cortar o encanto do escrete tricolor. Seus companheiros acreditaram. O técnico, mão em sinal da cruz, disse sim e confiou os seus ao divino.


Em campo, nos minutos que ainda restavam para ser cumpridos após o dilúvio da véspera, o Inter se postou em sua área formando um monobloco covarde. Tinham de proteger a meta e confiar ao goleiro a missão de eliminar o São Paulo da Copinha. Nossos aspirantes trataram então de atacar como nunca e não demoraram em fincar a bandeira tricolor no território rival. De lá não sairiam até sair o gol, até que o Inter, cansado e abrisse as primeiras brechas em suas linhas defensivas.


Igor Amorim/saopaulofc.net
Igor Amorim/saopaulofc.net

São Paulo e sua gente. Mais que o título, clube precisa das joias garimpadas no campeonato.


Apesar dos esforços, no entanto, venceu a frieza defensiva do Inter que, embora colorado de nome e sobrenome, pouco demonstrou rubra vergonha. Pelo contrário, comemoraram o não-futebol como se ele fosse a resposta para todas as questões humanas, como se representasse a redenção definitiva dos pecados terrenos. Mas como o futebol é o mais vil e cretino dos esportes, não há justiça, não há milagre que perdure. E ter assumido para si o papel de salvador fez a confiança do goleiro ruir, a aura distinta dissipar.


Verdade seja dita, ainda que provoque dor na alma: o Inter conseguiu adiar a partida, mas em nenhum momento foi capaz de postergar sua condição de equipe inferior técnica e mentalmente inferior ao São Paulo. No onze contra onze, perderia para o Tricolor até mesmo se abrisse um buraco negro em Barueri e a partida fosse realizada em outra dimensão, em outro espaço-tempo.


Carlos Miguel, o gigante de 2,2 metros, se equivocou nas quatro primeiras cobranças tricolores. Viu os seus sonhos se esvaindo um a um a cada vez que um petardo dos meninos de Cotia roçava as redes. Mão fria no peito sem circulação, ainda viu o chute de um companheiro morrer nas mãos do goleiro Júnior. Na sequência, defendeu novamente o pênalti de Liziero, o que definiria a classificação. Mais por um lapso do nosso lateral improvisado do que ato pensado. Mas já era tarde. Era a melhora antes do fim inexorável. Cordova chutou para o além, e Toró, sempre ele, definiu a penalidade derradeira.


Agora, que venha o Flamengo, o Pacaembu lotado e a glória de, após quase uma década à sombra do ostracismo, ser possível observar um plantel que leva à risca e nos pés os fatores que constituem o ser tricolor, o jogar como o tricolor, e isso vale mais que qualquer taça de juniores.