O aniversário do São Paulo me deixou de ressaca

Amigos, vocês sabem o que é passar a madrugada sozinho em um bar do centro, copo de conhaque pela metade na mesa de metal, Roberto Carlos tocando repetidas vezes até os primeiros raios do amanhecer surgirem no horizonte? Pois bem, estou me sentido assim após o feriado em que o Tricolor completou 88 anos e perdeu dois jogos – aflito, esquecido, insone. O peito, uma fonte de soluços incontroláveis.


Eram para ser quatro dias de festa, quatro dias de intensa patuscada, mas ver os aspirantes subjugados pelo Flamengo, na final da copinha, e o escrete principal falhar novamente contra aquele clube alvinegro, me proporcionou a mais homérica das ressacas, daquelas que são resultado da bebedeira que promovemos para esquecer, não para comemorar. Olho agora para as mãos em busca de respostas, mas tudo que consigo com as forças que restam é guardá-las nos bolsos como se escondessem alguma coisa porca e vergonhosa.


Rubens Chiri/saopaulofc.net
Rubens Chiri/saopaulofc.net

Perder no feriado foi o pior presente ao torcedor no aniversário do clube


Em momentos de dor como este a natureza humana inicia um mecanismo de busca pelos responsáveis do flagelo que nos corta a carne. Eis aqui uma constatação inapelável e necessária: o sofrimento que estamos todos sentindo neste momento é mais uma vez culpa daquele que não tem nome nem alma, do sujeito que traz o apito no canto da boca seca. Nas duas oportunidades, foi o mais preciso dos peritos no expediente de sacar das mãos do São Paulo a vitória que, em condições normais, viria inevitavelmente.


Na quinta-feira, levantei cedo e segui rumo ao Pacaembu para ver Liziero, Toró e Helinho, o trio que joga o tal do futebol como se fossem boêmios de gafieira. Helinho, sobretudo ele, que não dribla, chama pra bailar com a altivez do sambista de outros tempos. Nosso camisa 22, que até ali se mostrou capaz de escapar até do mais implacável dos marcadores, não conseguiu, no entanto, vencer o senhor que está em campo apenas para trair e fraudar quando pode.


Os estatísticos de plantão, vestidos com o terno da ciência, dirão que, mesmo tomando o gol rival logo nos primeiros minutos, os aspirantes tiveram todas as chances possíveis de dar volta no placar porque a posse de bola durou toda a eternidade, e os chutes ao gol adversário foram todos os possíveis e mais dez. Se esquecem, pois, de atentarem a um dado que neste caso, e apenas neste caso, poderia servir para algo: o tempo de bola rolando. Tão precioso para que, com o volume de jogo, pudéssemos furar a retranca flamenguista.


Senhores, quem são os heróis que conseguem se dedicar ao relógio ao mesmo tempo em que, boca dormente e olho rútilo, observam o time do coração sofrer para marcar um gol salvador? Pois foi por este flanco que o peçonhento nos atacou sabendo que não daríamos conta do delito. Mas eu vi e relato: o senhor do apito permitiu que o goleiro do Flamengo colocasse a bola em jogo quando quisesse. As cobranças de falta, as substituições? Nem escolher o Papa demorou tanto. Armar barreiras parecia de uma complexidade arquitetônica extraterrestre.


Vamos mais adiante no tempo. No sábado, o afano se deu pela negação dos gols honestamente assinalados pelo nosso escrete. Ainda que o plantel mereça mais ser chamado de bando de mentecaptos, que tenha entrado em campo como gado rumo ao abate, que os braços do Sidão pareçam desprovidos de articulações, ainda assim não merecíamos a derrota. Eventualmente o empate teria sido mais justo numa partida onde o acaso e as forças ocultas formaram a dupla de ataque mais efetiva da rodada.


Que as aves de rapina, as mesmas que saem do ninho quando convém, não me digam que estou insinuando um complô de sabotagem planejado à luz do lampião, pelo contrário. O beócio que apita, e apenas ele, afastou o São Paulo da vitória e não adianta a cartolagem ameaçar banir esse ou aquele das nossas partidas – neste que é mais vil dos esportes, os canalhas brotam até nos terrenos mais agrestes e se multiplicam como pragas.


De todas as mentiras que nos contam ao longo da vida, duas parecem ser adequadas ao momento. A primeira diz que o tempo é o melhor dos remédios, e para o torcedor nada melhor agora que se resguardar, reunir forças e seguir adiante. Até mesmo porque não nos restam muitas opções. A segunda nos ensina que sempre pode ser pior. Nos tiraram a taça da Copinha, mas as promessas seguem no clube, é verdade.


Por outro lado, senhores, o que pode ser pior que ter um Shaylon no elenco, um Cueva protagonizando acessos de loucura com frequência e meses a fio sem vencer um maldito clássico? Talvez a ressaca de uma madrugada de solidão no centro, com conhaque e Roberto Carlos, imparável, na jukebox.