Os efeitos da superlua na vitória do São Paulo sobre o Madureira

Amigos, não é de hoje que o homem recorre ao céu quando precisa encontrar respostas para alguma questão porca e vergonhosa. Foi o que fiz logo nos primeiros minutos da partida em que o escrete venceu o Madureira por um gol a zero: aproveitei que era noite de superlua e busquei no fenômeno raro distração para um jogo que já se desenhava pavoroso. O tempo fechado, no entanto, privou incautos como eu de observar o satélite, o que me obrigou a retornar ao flagelo da rodada.


Em Londrina, por outro lado, foi possível ver a superlua até debaixo da cama. Ninguém amou nem traiu na cidade que recebeu a partida de ontem ao notar sua presença imponente ao lado de outros corpos celestes, alguns muito maiores do que ela. Mas ontem à noite, a lua foi a mais cândida das noivas no firmamento – nada além dela poderia ser mais vistoso e encantador. Ao se aproximar tanto da Terra, provocou delírios em quem a viu, em maior ou menor grau. Efeitos devastadores em alguns casos.


Rubens Chiri/saopaulofc.net
Rubens Chiri/saopaulofc.net

Nem a gloriosa torcida, festeira, resistiu aos seus efeitos. Sentados, cabisbaixos ou de costas para o campo, pediram Reinaldo e outras sandices


Foi o caso do nosso escrete, este bando de mentecaptos incapazes de realizar tarefas simples como andar com a coluna ereta sem babar. Ficou escancarado em alguns episódios ocorridos ao longo da partida que a superlua mexeu com seus corpos e mentes. Eis aqui uma verdade irrevogável: a força exercida pelo branco luar, da mesma forma que faz com as marés, promoveu alterações no organismo dos nossos jogadores.


Se não foi isso, o que teria feito Brenner, o nome do único tento da partida, se sentir moribundo ao final do primeiro tempo a ponto de evitar entrevistas na saída do campo? Os beócios que se vestem com o terno da racionalidade dizem que o boleiro teve algum distúrbio nervoso de ordem estomacal. Mas como ter um desarranjo, um enjoo que seja, num jogo contra o Madureira, o espartano Madureira, incapaz de oferecer e exigir resistência até de um time formado por turistas escandinavos na Praia Vermelha? Foi a lua e sua carga magnética implacável.


Me digam também se há dados que expliquem o fato do nosso treinador ter feito as alterações que fez e arriscado a classificação às fases seguintes da Copa do Brasil. Trocas aleatórias sem qualquer compromisso com alguma ideia tática. Não foi estratégia ousada, Dorival fez o que fez embriagado pelo sortilégio da lua, seguiu as orientações de um instinto contaminado pelo magnetismo lunar. A atuação do lateral Edimar é a prova inequívoca de que as ondas que emanam da superlua interferem na atividade cerebral de todos os seres vivos, até dos mais parvos.


Nem a nossa gloriosa torcida escapou. O espírito folião de sempre deu lugar a uma espécie de histeria coletiva em que todos dizem sandices, frases desconexas e sem sentido, como, por exemplo, exigir a entrada de Reinaldo. O módico Madureira também cometeu loucuras sob os efeitos da tal lua. Para nossa sorte, um par de gols perdidos em contragolpes e cruzamentos na área. Só pode ter sido ela.


Um amigo tricolor que vive no estrangeiro mandou uma mensagem assim que acabou a partida. Escreveu que não pode ver a embate pela internet, e que também a superlua não deu as caras na cidade onde mora. Lamentou com triste sinceridade, dessas que só é possível ter em velórios, o fato de o fenômeno voltar a acontecer daqui a cem anos. E emendou: “Bem que essa fase do São Paulo também podia sumir e voltar depois de um século”.


“Eis um cabra que sabe das coisas. Aí está um sobrevivente do poder lunar”, pensei. E foi a coisa mais sensata que aconteceu ontem.