A impossibilidade de nos sonegar o abraço em Curitiba

Amigos, a nós torcedores, as aves de rapina que sobrevoam o futebol como se fosse carne podre já nos tiraram muito e seguirão até que muito seja tudo. Inegável a habilidade que possuem para afastar do estádio o sujeito que sempre esteve ali, que baba na camisa de amor pelo clube a troco de nada ou por poucos momentos de magia para surportar o cotidiano, e que pagou por uma fatura que não é sua por cheirar a povo.


Ainda que seja perseguido como praga, essa figura sobrevive e espia o escrete subir ao campo pelas brechas da elitização. Sofre em silêncio para não ser descoberto pelos vigilantes da modernidade. Busca a última fila da arquibancada porque ali, mais do que desviar as miradas da sua única e surrada camisa, pode testemunhar a partida de pé como se isso não fosse um crime.


É sobre esse personagem que gostaria de escrever algumas linhas. Pois foi sua teimosia em existir, em seguir o quadro a qualquer custo, que manteve a escrita do São Paulo nunca ter jogado sozinho. Esse tabu ainda segue mantido e é mais importante do que o quebrado diante do Atlético Paranaense, no sábado, pelo campeonato nacional.


Aqui, uma verdade inapelável: maior até do que o largo placar cravado na história atleticana e na do futebol sulamericano naquela noite fria de 2005, quando a Libertadores foi nossa pela terceira vez.


E antes que os beócios que se vestem com o terno da razão subam na mesa com o dedo em riste, me antecipo com a sinceridade que lhes corta a carne com a força de mil navalhas: trato aqui das coisas da alma, das questões imateriais.


Que me apontem, pois, um só jogo em que o Tricolor jogou desamparado. Vão citar as arenas, os famigerados jogos de torcida única, mas até nessas partidas houve pelo menos um tricolor alentando o nosso escrete, e isso a frieza dos dados não pode estimar.


Dizia que o módico clube rubro-negro há algum tempo executa agenda na qual o objetivo maior é transformar o torcedor – o seu e os demais – naquilo que consideram o modelo ideal de seguidor, uma espécie de eugenia desportiva na qual o sujeito popular não se enquadra e nunca se enquadrará porque mentes totalitárias cometem equívocos por estarem sempre afogadas no ódio.


A porta que se fecha para bandeiras, símbolos e cores, no entanto, nunca será barreira suficiente para impedir a paixão e por entre suas frestas sempre passará o fanático que veio ao mundo para acompanhar o clube de seus amores, e apenas isso. De forma que, no sábado, um grupo formado pelos nossos decidiu enfrentar a sanha daqueles que enxergam na torcida única a solução de todas as mazelas terrenas e entraram na tal arena desprovidos do manto tricolor, mas com as almas pintadas nas três cores.


E bom que se registre: não se pode tirar do tricolor as cores que lhe tingem o sangue e o espírito, nem lhe sonegar o abraço de gol ou o grito que subiu ao céu no tento marcado por Nenê, ainda que havia no campo rival um teto de vidro e aço para impedi-lo de chegar até os deuses. Lições dadas pelo destino e que dificilmente serão assimiladas pelos cartolas que tentam domesticar o indomesticável com mãos de ferro.


E a essa gente, às vezes, a intervenção divina se encarrega de açoitar o moral: nada mais dolorido que ver um plano ruir, o tabu cair, por meio de um pênalti inexistente, em um arremate trêmulo que chegou até às redes guiado pela esperança dos que foram e dos milhões que ficaram.


Reprodução/SporTV
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