O retorno de Raí e o adeus de Denílson: há 20 anos, São Paulo conquistava um histórico Paulistão

Gazeta Press
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Raí, o ídolo que voltou da França para ajudar o São Paulo


Há 20 anos, em um passado não muito distante, tudo era igual, mas também diferente. Em 1998, o Brasil se aquecia para mais uma Copa do Mundo, chegando como favorito, assim como acontece agora em 2018. Os estaduais lotavam estádios porque ainda eram importantes e chamavam a atenção de todos no primeiro semestre do futebol brasileiro. Na final do Campeonato Paulista, um Majestoso e tanto, disputado por São Paulo e Corinthians.

No primeiro jogo, Morumbi lotado e vitória do Corinthians por 2 a 1. Marcelinho Carioca abriu o placar aos 24 minutos do primeiro tempo. Fabiano empatou logo depois, mas Cris marcou de cabeça na segunda etapa e decretou a vitória alvinegra, dando uma certa vantagem. Na partida de volta, o empate era do Corinthians, mas uma vitória simples daria o título para o Tricolor por conta da melhor campanha no torneio.

Após o primeiro duelo, era nítido que o São Paulo tinha uma boa equipe, mas ainda faltava algo para bater aquele bom time do Corinthians que viria a ser campeão brasileiro no fim do mesmo ano. Então entrou em cena o elemento surpresa, o ídolo que partiu anos antes e voltava para ajudar: Raí. O ‘Terror do Morumbi’ chegava ao clube que tanto brilhou no início da década de 90 justamente na semana da grande decisão, graças a uma brecha no regulamento que previa a escalação de um jogador às vésperas do último jogo. Depois de cinco anos atuando no PSG, ele voltava ao ex-clube.

Raí chegou, fez alguns treinos, mas ninguém sabia muito bem se iria jogar. Alguns minutos, talvez, diziam os jornalistas na época. No São Paulo, mistério total. E assim chegamos ao dia 10 de maio de 1998, dia das mães daquele ano e uma data muito especial para os são-paulinos, o dia que o Rei voltou a comandar seus súditos. Sim, apesar de todos acharem que não, Raí foi a campo como titular na grande decisão, tomando a vaga de Dodô e deixando França e Denílson no comando de ataque. Foco nesses dois nomes, eles serão bem importantes ainda.

Depois de 30 minutos sem grandes oportunidades, Zé Carlos chegou na linha de fundo, cruzou travado e a bola subiu muito. No meio da área, França ganha da zaga e dá um leve toque, como se ajeitasse para Raí cabecear com força sem sair do chão. Bola na rede, São Paulo 1 a 0. Para o São Paulo, parecia um sonho. O grande ídolo retornava do futebol francês para carregar o time para mais um título, novamente contra o Corinthians, um rival que ele tanto incomodou na carreira.

No segundo tempo, com apenas cinco minutos, Didi foi lançado na ponta esquerda, cortou para o meio e acertou um chute de rara felicidade. Golaço do Corinthians para empatar o jogo e voltar a ter vantagem no confronto. O empate dava o título para o alvinegro, mas apenas mais um gol e o São Paulo voltava a comemorar a conquista. E foi exatamente isso que aconteceu. Aos 12 minutos do segundo tempo, enquanto a transmissão anunciava que Aristizábal entraria em campo, França tabelou com Raí, recebeu na cara do gol e chutou de bico para fazer o segundo gol tricolor na partida.

Com a vantagem no placar, o São Paulo partiu com tudo para o ataque. Raí deu lugar ao colombiano Aristizábal, mas outros dois jogadores brilharam no fim do jogo. Aos 37 minutos, Denílson recebeu na ponta esquerda, fez ótima jogada na linha de fundo passando por um marcador, e tocou para o meio da área. França finalizou e definiu aquela histórica decisão. Um só jogo tem história para anos e anos, para gerações ouvirem e admirarem aquele momento. Pena que o São Paulo não se achou no segundo semestre e fez campanha pífia no Brasileirão, mas isso não vem ao caso agora.

Ao mesmo tempo que Raí voltava e trazia um largo sorriso para o Morumbi, um franzino menino chorava no gramado enquanto dava entrevistas e era abraçado pelos companheiros. Denílson começou sua carreira no São Paulo e foi levado para o time titular em 1994, no famoso Expressinho do Morumbi, comandado por Muricy Ramalho e que ainda tinha grandes nomes no elenco, como Rogério Ceni, Juninho Paulista e Caio Ribeiro.

Com o passar dos anos, Denílson foi amadurecendo, mas sem perder a alma de menino driblador que sempre o acompanhou. Rápido e habilidoso, deixava os marcadores loucos. Em 1998, era titular absoluto da equipe e o grande destaque. A final do Paulistão foi seu último momento com a camisa tricolor, por isso as lágrimas saiam com extrema facilidade após o apito final. Dali ele partiria para a Espanha, para jogar no Bétis, por 31 milhões de dólares, então a maior negociação da história do futebol. Tempos diferentes, não?

O dia 10 de maio de 1998 vai sempre viver na minha memória. A volta de Raí, o adeus de Denílson, a consolidação de França como artilheiro importante. O último título tricolor que assisti com meu avô, a última vez que nos abraçamos para gritar ´é campeão’. Obrigado a todos os jogadores que fizeram isso possível. Foi lindo, foi histórico.


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Denílson (esquerda) fez seu último jogo pelo São Paulo antes de ir para o futebol espanhol