18/12/2005: o dia que nunca vai terminar

Quando nasci, o São Paulo ainda não tinha conquistado a América, muito menos o mundo. Nos anos seguintes, porém, ganhou duas Libertadores e dois Mundiais. Não lembro, claro, de ter visto esses títulos, mas talvez tenha visto enquanto acordava meus pais, torcedores de outro time, durante a noite e os fazia ter uma insônia no dia seguinte. Eu, assim como a minha geração, sonhava com o São Paulo campeão novamente, mas era algo que parecia impossível.


Cresci com os relatos do meu avô sobre as partidas contra o Barcelona e o Milan. De tanto ouvir, precisava ver esses jogos. Depois de um tempo, consegui na internet os dois jogos. Vi tanto as partidas que ficaram vivas na minha memória, parece que eu estava acordado naquelas noites de 92 e 93 acompanhando de perto e sofrendo com o São Paulo. O problema é que ainda faltava um título mundial pra chamar de meu.


Depois de anos sofrendo com campanhas ruins, o São Paulo voltou a onde deveria estar. Numa campanha com jogos inesquecíveis, foi campeão da Libertadores de 2005. E lá estava o Tricolor no Mundial, em novo formato, com as mesmas agonias. Na semifinal, um jogo difícil, uma vitória apertada e um sentimento de que não ia rolar, principalmente após ver o Liverpool atropelando seu adversário.


Então chegou a manhã de 18/12/2005. Não acordei porque sequer dormi naquela noite. Um pouco pela minha ansiedade e muito pelos fogos que ficaram toda a noite na vizinhança. Quando a bola rolasse, eu achava que o sofrimento fosse passando e dando lugar ao conformismo de perder para o Liverpool que não estava numa série de 11 jogos sem levar gols.


A bola rolou, o time inglês dominava, mas o São Paulo tinha suas chances. Aos 26 minutos, a jogada mais improvável da história. Ela começa com Fabão avançando até a linha que divide o campo, tocando para Aloísio, o nosso centroavante que estava muito fora da área. O camisa 14 então lança com perfeição, algo que ninguém imaginava dele, para Mineiro, sozinho dentro da área, tocar na saída de Reina. Gol do São Paulo.


Gol do São Paulo? É, gol do São Paulo! Naquele momento, o mundo parou ao meu redor. Não lembro de quantos palavrões mandei na hora, mas com certeza fui repreendido pela minha mãe enquanto pulava descontrolado pela sala de casa. Pensando agora, foi até meio tosco, mas eu tinha idade para isso, era permitido.


Getty Images
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Mineiro, nosso herói silencioso


Depois do gol, a maior pressão que já vi, acompanhada da maior atuação de um goleiro. O que Rogério Ceni fez naquele dia 18/12 foi um absurdo. Se alguém duvidava de sua capacidade até então, acabou na final do Mundial. Se uma pessoa quiser desmerecer sua carreira, vai se arrepender ao lembrar da partida contra o Liverpool. Foram várias defesas, muitas delas complicadas, principalmente a cobrança de falta do Gerrard.


Quando o jogo acabou, eu já estava chorando. Não sei se era de alegria, de alívio por ter acabado aquele jogo sofrido ou até mesmo porque tinha marcas das minhas próprias unhas nas palmas das mãos. Ali começava a festa, na manhã brasileira e na noite japonesa, mas que logo era a noite brasileira e a manhã japonesa. O fuso fez aquele dia ficar enorme, mas sempre alegre feliz.


Na volta ao Brasil, a festa da torcida, acompanhando o time do aeroporto até o centro da cidade. Era o título que faltava para essa geração, para os torcedores da minha faixa etária. Agora tínhamos um Mundial para chamar de nosso. E ninguém poderia questionar, tirar, fazer troça. Era do São Paulo e pronto.


Pelo que aconteceu dentro e fora de campo, o dia 18/12/2005 nunca terminou para o são-paulino. Ele sempre será lembrado pelas defesas fantásticas de Rogério Ceni, que estarão nos olhos dos que viram e nas mentes do que ouvirão as histórias. Será lembrado pela atuação guerreira de nossa defesa, inclusive do Lugano distribuindo bordoada nos atacantes adversários. Será lembrado pelo gol mais improvável dos Mundiais marcado por nosso herói improvável.


Se não morri do coração naquele dia, isso jamais vai acontecer. Que o dia 18/12/2005 continue eterno em nossas mentes, assim como sempre estará em nossa história.