A volta de Lugano expõe problemas do futebol brasileiro

Após muita enrolação, Lugano é jogador do São Paulo Futebol Clube novamente. Deve chegar ainda nesta semana para deleite dos torcedores que tanto o queriam novamente vestindo nossa camisa. Fui voto vencido. Não defendo a volta de Lugano ao São Paulo como já escrevi nesse texto, só que a diretoria seguiu o apelo da torcida tricolor e o contratou. Tenho meus motivos para discordar da negociação e não os abandonarei, mas quero muito que o zagueiro uruguaio cale a minha boca.


Gosto do Lugano, tenho camisa dele, só não acho que era a hora de voltar, que já passou seu momento. E que seu retorno escancara dois grandes problemas, não apenas do São Paulo, mas do futebol brasileiro em geral.


Rubens Chiri / São Paulo FC
Rubens Chiri / São Paulo FC

Ele voltou, a raça voltou. Isso já é muito para o atual São Paulo!


O primeiro problema é a falta de bons jogadores de defesa no Brasil. Na última Bola de Ouro, ontem, três defensores brasileiros apareceram na lista de melhores do mundo (Daniel Alves, Thiago Silva e Marcelo). Desses, podemos dizer que só Thiago Silva ficou no futebol brasileiro tempo suficiente para criar uma identificação com sua torcida e aprender antes de sair do país. Os outros se desenvolveram na Europa, com passagens breves por aqui.


Há tempos não vemos um grande zagueiro sair das categorias de base do Brasil. Sempre que falamos um “agora vai”, ele nos decepciona. Passam por vários clubes, não ganham sequências e acabam ficando como os que nunca vingaram. Poderíamos ter contratado alguma promessa, algum destaque do Brasileirão, mas eles simplesmente não existem, então recorremos a um velho conhecido que estava no Paraguai.


Aí surgem os defensores do passado para suprir esse problema, como Lugano. Há dois anos, foi Lúcio que voltou ao Tricolor com a missão de colocar ordem na casa, algo que não conseguiu antes de sair pela porta dos fundos. 


Outro problema, tão grande grave quanto o primeiro, é a carência de ídolos, líderes e jogadores que amam a camisa. Vivemos a "Era dos Ídolos Fabricados". O São Paulo, felizmente, não pode se queixar disso pois teve Rogério Ceni por anos como referência e líder absoluto da equipe, nos bons e maus momentos. 


O próprio São Paulo, com a saída de Rogério, correu para marcar quem lideraria o elenco em 2016. Apontaram para Rodrigo Caio, Breno e Alan Kardec. Segundo a diretoria, eles são os que possuem perfil de líderes no elenco tricolor e que poderiam ajudar na reestruturação da equipe nesta temporada. Com a chegada Lugano, aquele que nunca se foi no inconsciente do torcedor, eles devem ficar um pouco de canto no momento.


Outros clubes, no entanto, não tiveram essa mesmo felicidade, vivendo de jogadores que estouram e logo partem para algum clube distante, sem dar o devido respeito para a camisa que vestiam. Quando voltam, é porque estão interessados nas milionárias cifras, não no amor do torcedor pelo clube. Na Argentina, vimos Tevez voltar porque amava o clube de coração, assim como Lucho González, Aimar, Verón, Heinze e Milito, só para citar alguns que também voltaram ao país de origem. No Uruguai, Forlán retornou para jogar no Peñarol. No Brasil, esses casos são mais raros, como Kaká, Alex e Juninho Pernambucano. Outros, como Robinho e Ronaldinho Gaúcho, no entanto, devem ser descontados.


É nítido que o uruguaio não faz parte desses que está voltando a um clube por dinheiro. Ele ama o São Paulo, já fez sua história por aqui e não precisaria correr o risco mais uma vez, ainda mais porque estava jogando por outro clube. Mesmo assim, reconheceu os apelos, sentiu a necessidade de voltar e cá está mais uma vez.


Mais uma vez, sou contra a volta de Lugano. Apesar disso, não vou conseguir torcer contra e espero que ele surpreenda, pois já vibrei e me emocionei muito com sua raça no passado. Já vi o sangrar, chorar, bater no peito e em adversários por esse clube. Se comemorei títulos em 2005, você tem uma boa parcela nisso. Sei que você não será o mesmo de dez anos atrás, mas continue dando o seu melhor que saberei reconhecer isso.


O amor pelo São Paulo fala mais alto novamente. Em mim e no eterno xerife do Tri.


Boa sorte em seu retorno, Lugano! Nos vemos em campo no dia 30.