A meia-noite de Sergio Romero

GettyImages
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Romero defende o pênalti cobrado por Sneijder nas semi-finais da Copa 2014, em São Paulo.


No dia 21 de Junho de 2014 eu e meu pai, argentino radicado no Brasil desde o início dos anos 80, estávamos atrás do famoso “gol da lagoa” do Mineirão. A Argentina enfrentava o Irã. Perdia gols atrás de gols e ainda sofria perigosos contra-ataques. O gol de Messi, aos 46 minutos do segundo tempo, e o fato de poder compartilhar um jogo da albiceleste no estádio com o transmissor da “doença” são lembranças daquelas que só o futebol é capaz de proporcionar. No entanto, não são as únicas daquela tarde em que a organizada e lutadora seleção comandada por Carlos Queiroz passou a centímetros de provocar uma das maiores zebras da história dos Mundiais.

O então contestado Chiquito Romero, goleiro titular da seleção Argentina desde as eliminatórias para a Copa 2010, fez uma sequência de defesas durante o segundo tempo tão importantes quanto o gol que Messi tirou da cartola. Em especial, a cabeçada do atacante Dejagah em um cruzamento despretencioso vindo da lateral direita do meio-campo. Romero ia levando o gol por cobertura, mas tirou com a unha no último instante. Os centímetros que separaram o Irã da história.


Diario Olé - Argentina
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Capa de hoje do Diário Olé, relembrando as palavras de Mascherano em 2014. Fonte: Diário Olé.


A contestação ao goleiro se dava pelo fato dele não conseguir se firmar como titular do Mônaco, da França, apesar de seu bom histórico nas seleções de base (Campeão Mundial Sub-20 em 2007 e Campeão Olímpico em 2008, ambos como titular). Ficava sempre o medo de uma falha que viesse a expor a falta de ritmo de jogo. Aí vieram as palavras de Javier Mascherano: “Hoy te convertís en heroe”. E Romero virou herói ao defender duas cobranças na disputa de pênaltis da semi-final da Copa 2014, contra a Holanda, mas seu “momento Cinderella” encontrou a meia-noite no defensável chute de Götze, dias depois, no Maracanã, no momento em que um goleiro com os reflexos na ponta dos cascos deveria prevalecer.


Ao longo dos últimos 4 anos, a história vinha se repetindo. Novamente titular em duas Copas Américas e durante toda a campanha das eliminatórias, Romero não teve sequência no Manchester United do incontestável de Gea e os questionamentos voltavam à tona. Quando o relógio voltaria a bater meia-noite?


A resposta veio antes mesmo da viagem à Rússia. O famigerado amistoso de Madri, que nunca termina, cobrou sua última dívida. A lesão que tira Romero da Copa ocorreu no lance do primeiro gol espanhol, em uma dividida com Diego Costa. A Seleção Argentina perde a liderança (diria até que perde seu último líder) e a experiência de um dos jogadores mais queridos do elenco, mas pode ganhar o ritmo e a fase iluminada de Franco Armani, goleiro do River Plate, que até outro dia sequer figurava nas listas de convocados, mas que agora parece ser a escolha óbvia, principalmente se levarmos em conta o clamor popular em torno do nome.


No entanto, “Sampaoli” e “óbvio” não são palavras que costumam andar juntas. E agora? Armani ou Willy Caballero? A pergunta, se existir, existe só na cabeça do técnico. O torcedor já escolheu.


El otro Carlitos