Nem toda unanimidade é burra

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Willy Caballero entrega o gol para Rebic e a bomba-relógio dispara. 0:00


Comecemos pelo gatilho. Pelo momento em que a preocupação, a apreensão e a desconfiança a respeito da capacidade da Seleção Argentina tiveram a sua resposta final. Uma verdadeira hecatombe. No momento em que o atacante Rebic aproveitou o presente do cavalheiro goleiro argentino com um impiedoso voleio, o pensamento, arrisco dizer, de qualquer torcedor fervoroso ou simpatizante do futebol argentino foi o mesmo. Todos queríamos Armani. Sampaoli apostou em Caballero, há mais tempo figurando nas convocações e, acreditem se quiser, mais habilidoso com a bola nos pés.


O lance em questão é um resumo ao mesmo tempo poético e irônico da visão equivocada de Jorge Sampaoli a respeito da Copa que se aproximava em função do tempo de preparo, que é sempre bom lembrar, a AFA fez questão de arruinar. Quando vemos o Manchester City construir uma jogada mortal de gol a partir do goleiro Éderson (esse sim é habilidoso com os pés), não podemos esquecer que Guardiola lapidou seu time durante um ano até que seus jogadores entendessem a sua proposta e se colocassem em condições de executá-la.


O erro mais grave do técnico foi se agarrar em suas convicções de maneira visceral, sem o menor pudor de relegar o talento. Ainda mais em um torneio de tiro curto marcado pelo equilíbrio entre as seleções. Sejam elas historicamente tradicionais ou não. Privar-se do talento de Dybala porque Acuña seria mais adequado para fazer determinada função (o mesmo vale para Pavón em relação a Meza ou a Salvio), é colocar o carro na frente dos bois de uma maneira que beira a arrogância. Achar que uma ideia trabalhada em dois treinos (e não em duas décadas, como fizeram os alemães) pode valer mais que a imprevisibilidade de quem sabe o que faz com a bola no pé. Imprevisibilidade esta que já cansou de furar retrancas e decidir Copas do Mundo.


Quando entraram, Dybala e Pavón mostraram em cada toque na bola a condição técnica para dialogar com Messi que ninguém dos que estavam em campo tinha. Mas a bomba-relógio já tinha disparado. Inútil concluir qualquer coisa a partir do nono minuto do segundo tempo da derrota para a Croácia. Antes, porém, dentro das escolhas discutíveis de Sampaoli, sua tática vinha dando relativamente certo, em relação a conter o excelente time croata. Enzo Pérez cumpria à risca a função de que foi incumbido. Controlava a circulação da bola e encorpava o meio-campo, como já havia feito em 2014. As chances da Croácia no primeiro tempo eram circunstanciais, não haviam buracos ou avenidas na defesa. Mas a falta de confiança de quem estava fora e dentro de campo era latente. Caballero foi o gatilho, mas poderia ter sido a cabeçada de Mandzukic, ou o chute pra fora de Rebic, que tinha Perisic entrando livre, no primeiro tempo. Se o goleiro não errasse, é muito pouco provável que a bomba não tivesse disparado de outro jeito, dada a inoperância do time com a bola nos pés.


A Seleção Argentina foi eliminada da Copa 2018 após fazer apenas seu segundo jogo. Não matematicamente, isso só ocorrerá na próxima terça. A Seleção Argentina já foi eliminada porque não tem alma e isso é tão fácil de ver que os veículos de imprensa argentinos não tratam o jogo contra a Nigéria como o próximo jogo. Mas como o último jogo. Correm alguns boatos que os jogadores estão amotinados e querem que Sampaoli deixe a seleção imediatamente. Não é difícil de acreditar. Isso costuma acontecer quando “o campo fala” e o técnico não tem a humildade para atendê-lo.


El otro Carlitos